Como o PCC estruturou plano de ação para tentar aliciar prefeituras
Investigação revela reuniões, contatos e estratégia para inserir fintech em prefeituras e expandir esquema de boletos
atualizado
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Reuniões em cidades do interior e litoral paulista, contatos com secretarias municipais e até articulações dentro do governo estadual fazem parte de um “plano de ação” estruturado por um grupo suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC), com o qual pretendia expandir um esquema de emissão de boletos e notas fiscais.
As reuniões e articulações com prefeituras ocorreram ao longo de 2021, como aponta investigação da Polícia Civil de São Paulo obtida pela reportagem.
Como mostra o documento, a estratégia tinha como objetivo central inserir uma fintech controlada pelos investigados nos sistemas de arrecadação pública, criando uma porta de entrada para circulação de dinheiro sob aparência institucional.
Plano de ação
O material, constante no inquérito policial (veja galeria abaixo), descreve a organização do chamado “plano de ação”, com etapas bem definidas e linguagem empresarial.
Nele, os investigados apresentam a 4TBANK como um “produto” voltado à gestão de receitas públicas, incluindo emissão de boletos, processamento de pagamentos e integração com serviços municipais.
A investigação aponta que o modelo permitiria ao grupo expandir um sistema de circulação de recursos, disfarçado como serviço financeiro legítimo, com foco em tributos e tarifas cobradas pelos municípios.
Reuniões e aproximação com agentes públicos
O documento detalha reuniões já realizadas com agentes políticos e técnicos em diferentes cidades. Em Santo André, por exemplo, há registro de aproximação com secretarias e discussão direta sobre a implementação do sistema de emissão de boletos e relacionamento financeiro com munícipes da cidade do ABC.
Em Santos, no litoral, o grupo realizou visitas a estruturas tecnológicas e apresentou o projeto, buscando apoio político e espaço dentro da administração municipal.
Já em Campinas, no interior, houve articulações com assessores ligados à prefeirura, incluindo discussões sobre criação de mecanismos como nota fiscal municipal vinculada ao sistema da fintech.
Há menção ainda sobre tratativas em Ribeirão Preto, também no interior, com reuniões de apresentação do “produto” e planejamento para inserir o modelo na gestão local.
Expansão além das prefeituras
O “plano de ação” não se limitava ao nível municipal. A investigação aponta que o grupo também buscou abrir portas dentro do governo estadual.
Há registros de reuniões e contatos no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, onde foram discutidas possibilidades de inserção da fintech em projetos ligados à administração pública.
Segundo o laudo, essas articulações incluíam apresentação do banco, discussões sobre cenário político e tentativa de posicionamento em iniciativas estaduais.
Boletos e notas fiscais como eixo do esquema
O núcleo do plano estava na expansão de um sistemas de emissão de boletos e notas fiscais municipais.
De acordo com os investigadores, o grupo pretendia assumir ou influenciar esses mecanismos, que concentram grandes volumes de pagamentos feitos por cidadãos, como contas e tributos.
Com isso, seria possível inserir a fintech no fluxo oficial de arrecadação e ampliar a movimentação financeira sob aparência de legalidade.
Braço financeiro do PCC
O caso integra a investigação sobre o braço financeiro do PCC, que vem sendo desvendado em diferentes frentes.
Apurações anteriores já indicaram o uso de transporte aéreo para envio de dinheiro e movimentações bilionárias ligadas a campanhas políticas. O “plano de ação” revela um novo patamar, com a tentativa de operar diretamente dentro da estrutura pública.
Modelo de expansão institucional
O que emerge do documento é um modelo organizado, com planejamento, articulação política e execução em múltiplas cidades.
Ao estruturar reuniões, mapear contatos e apresentar um “produto” às prefeituras, o grupo deixou de atuar apenas na informalidade e passou a disputar espaço dentro do sistema.
Para os investigadores, trata-se de uma estratégia que amplia não só o alcance financeiro da organização, como também sua influência sobre estruturas de poder.
Prisões e defesas
A investigação resultou, até o momento, na prisão de ao menos cinco nomes apontados como centrais no esquema. São eles: Thiago Rocha de Paula, Joel Ferreira de Souza, Victor Augusto Veronez de Souza, Adair Antônio de Freitas Meira e João Gabriel de Mello Yamawaki, este último detido em Tocantins, no início do ano e apontado como responsável pela fintech.
O grupo é suspeito de estruturar o chamado “plano de ação” para aproximar a 4TBANK de prefeituras e expandir o modelo de emissão de boletos e notas fiscais dentro da administração pública.
Procuradas, as defesas dos investigados negam irregularidades. Ao Metrópoles, advogados já afirmaram anteriormente que as atividades dos clientes têm natureza lícita e que não há comprovação de ligação com organização criminosa ou uso indevido de estruturas públicas.
Alguns também sustentam que os contatos com agentes políticos ocorreram dentro da normalidade institucional, sem qualquer ilegalidade.








