Clínica de coleta de óvulos foi autuada 3 vezes antes de morte de juíza

Vigilância Sanitária encontrou novas irregularidades em clínica após morte da juíza Mariana Francisco Ferreira em Mogi das Cruzes

atualizado

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Imagem colorida mostra a juíza Mariana Francisco Ferreira, morta após coleta de óvulos em clínica. Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra a juíza Mariana Francisco Ferreira, morta após coleta de óvulos em clínica. Metrópoles - Foto: Reprodução/Ajuris

Uma fiscalização da Vigilância Sanitária de São Paulo encontrou irregularidades na clínica onde a juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, realizou coleta de óvulos para fertilização in vitro. Mariana morreu na última quarta-feira (6/5) após o procedimento.

No dia seguinte, a autoridade sanitária foi até a clínica Invitro Reprodução Assistida, em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, para avaliar as condições do estabelecimento, os processos de trabalho, os medicamentos e os insumos utilizados.

Segundo a Secretaria de estado da Saúde, foram identificadas irregularidades em alguns lotes de agulhas de aspiração, como ausência de rastreabilidade e de informações sobre fabricante, importador e registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Um auto de infração foi lavrado e os produtos foram interditados cautelarmente.

A Vigilância Sanitária também informou que o estabelecimento já recebeu três autuações anteriores, duas em dezembro de 2024 e uma em dezembro de 2023, relacionadas a diferentes irregularidades. Em todas as ocasiões, foram aplicadas multas e demais penalidades.

O Metrópoles fez contato com a clínica de reprodução assistida e aguarda retorno.


Morte após procedimento de reprodução assistida

  • Mariana Francisco Ferreira morreu em Mogi das Cruzes, Região Metropolitana de São Paulo, na quarta-feira (6/5).
  • Segundo o boletim de ocorrência, ela realizou uma coleta de óvulos para fertilização in vitro em uma clínica da cidade.
  • Ela passou pelo procedimento na manhã de segunda-feira (4) na clínica Invitro Reprodução Assistida. Após cerca de uma hora, a juíza deixou o local. Ela chegou em casa e, pouco tempo depois, começou a se queixar de frio e gritar de dor.
  • A mulher foi levada de volta ao estabelecimento e relatou à equipe médica que havia urinado na própria roupa. Os profissionais, no entanto, constataram um sangramento devido a uma hemorragia vaginal.
  • O primeiro atendimento foi feito pelo mesmo médico responsável pela coleta de óvulos. Ele realizou uma sutura no ferimento e orientou que Mariana fosse levada à Maternidade Mogi Mater, onde ela ficou internada na unidade de terapia intensiva (UTI). No dia seguinte, foi submetida a uma cirurgia.
  • Na madrugada dessa quarta-feira (6), dois dias após o procedimento na clínica, Mariana sofreu duas paradas cardiorrespiratórias. A equipe médica tentou reanimá-la, mas não obteve sucesso. O óbito foi declarado às 6h03.
  • A Polícia Civil investiga o ocorrido e requisitou exames ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico-Legal. O caso foi registrado como morte suspeita no 1° DP de Mogi das Cruzes.

Quem era a juíza

Mariana Francisco Ferreira havia assumido o posto no Juizado da Vara Criminal de Sapiranga, Rio Grande do Sul, há cerca de três meses. Nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, Mariana tinha, desde a adolescência, o sonho de se tornar juíza. Ela começou a se preparar para a carreira em 2018. Cinco anos depois, em 2023, foi aprovada no concurso para 1ª Vara Judicial da Comarca de Parobé, também no estado gaúcho.

Em 2025, Mariana atuou no Juizado da 1ª Vara Regional de Garantias na Comarca de Porto Alegre e, em seguida, na 1ª e 2ª Vara Criminal de São Luiz Gonzaga. Ela foi designada para a Vara Criminal de Sapiranga em fevereiro deste ano.

No início de março, a juíza se reuniu com autoridades da Polícia Civil para discutir temas relacionados à violência doméstica, incluindo o fluxo de procedimentos, medidas protetivas de urgência e o uso de tornozeleiras eletrônicas.

Profissionais que atuaram com Mariana destacaram o entusiasmo com que a juíza atuava. “Com profunda tristeza nos despedimos da magistrada Mariana Francisco Ferreira, colega que marcou sua passagem pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul pelo zelo na apreciação das causas, pelo comprometimento com a efetividade das decisões e pelo entusiasmo e sensibilidade no exercício de suas funções”, disse a juíza-corregedora Viviane Castaldello Busatto, responsável pela comarca de Sapiranga.

O presidente da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), Daniel Neves Pereira, também relembrou as qualidades da profissional. “Mariana era uma colega muito querida, cheia de vida e de entusiasmo pela magistratura. Sua partida causa profunda consternação em todos nós”, afirmou.

O tribunal gaúcho decretou luto oficial de três dias e determinou que as bandeiras fossem hasteadas a meio-mastro nos prédios do Tribunal e do Palácio da Justiça.

Entenda os riscos da coleta de óvulos

Apesar da tragédia, especialistas ouvidos pelo Metrópoles reforçaram que a coleta de óvulos é considerada um procedimento de baixo risco. Segundo a Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), 1.6 milhão de coletas foram realizadas nos últimos três anos. O risco de complicações graves está na casa de 0,1%.

O processo da fertilização in vitro acontece em quatro etapas: primeiro, a paciente é submetida a uma estimulação hormonal para produzir mais óvulos. Em seguida, esses óvulos são coletados com uso de uma agulha e ultrassom em um procedimento considerado simples. Então, os gametas são fertilizados e cultivados em laboratório, fora do corpo da mulher, e posteriormente um ou mais embriões são transferidos para o útero da paciente.

“As complicações são bem raras, felizmente. Os principais riscos dessas complicações são sangramento, infecção, lesão em órgãos próximos, como bexiga, intestino, e a síndrome da hiperestimulação ovariana, que são pacientes que têm uma resposta ovariana acentuada”, explicou a doutora Mylena Rocha, especialista em reprodução assistida e membro da diretoria da SBRA.

“É uma aspiração com agulha, você pode acidentalmente perfurar algum vaso, alguma estrutura adjacente ao ovário. Mas são riscos inerentes a qualquer procedimento cirúrgico e invasivo como esse.”

Segundo o coordenador do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas da USP, Pedro Augusto Araújo Monteleone, é comum que as mulheres sintam dores leves após o procedimento. “Mas, se for um desconforto muito forte, um quadro de dor significativo com queda de pressão, é um sinal de alerta e de complicação. Aí a paciente precisa ser submetida a uma laparoscopia para lavar a cavidade e cauterizar o ovário.”

Os médicos também ressaltaram a importância de procurar clínicas com suporte hospitalar, médicos adequados e vinculadas à SBRA e à Rede Latinoamericana de Fertilização Assistida, que estabelecem critérios para a segurança das pacientes.

“É um momento em que a gente se solidariza com a família. É lamentável a perda dessa paciente tão jovem, com o sonho da maternidade. Mas isso não pode desanimar as outras mulheres a fazerem o tratamento, porque o risco é muito baixo, realmente”, afirmou a médica.

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