Bodycams sem bateria: carregador questiona morte de irmão por PMs

Bruno Silva Martins foi morto após encerrar expediente como carregador no Bom Retiro, centro de São Paulo. PMs não usavam bodycam

atualizado

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O carregador de mercadorias Bruno Silva Martins (em destaque, à esquerda) foi morto, aos 39 anos, por policiais militares (PMs) na noite de 12 de outubro de 2024, em uma construção na Avenida do Estado, no Bom Retiro, região central de São Paulo.

Os agentes alegam que ele tentaria atacá-los com um facão, mas o irmão e colega de profissão de Bruno, Juciele Silva Martins, questiona essa versão. As câmeras corporais dos policiais, que comprovariam a dinâmica do homicídio, estavam desligadas devido à falta de bateria (veja mais abaixo).

Até o momento, o caso, investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, não foi esclarecido. O inquérito policial segue em andamento, 18 meses após o episódio, pela 2ª Delegacia de Homicídios.

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Os dois trabalhavam como carregadores de mercadorias no Bom Retiro e no Brás, na região central de São Paulo
Bruno foi morto a tiros por dois policiais do 7º Baep, após supostamente se aproximar para atacá-los com um facão
Os PMs não usavam bodycams e nenhuma câmera de monitoramento próxima ao local do homicídio capturou imagens do ocorrido
Juciele contesta versão dos PMs e dificuldade para recuperar imagens de câmeras de segurança
Bruno foi morto em 12 de outubro, mas 18 meses após o caso, os PMs ainda não foram ouvidos pela Polícia Civil
Irmãos Juciele e Bruno Silva Martins
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Irmãos Juciele e Bruno Silva Martins

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Os dois trabalhavam como carregadores de mercadorias no Bom Retiro e no Brás, na região central de São Paulo
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Os dois trabalhavam como carregadores de mercadorias no Bom Retiro e no Brás, na região central de São Paulo

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Bruno foi morto a tiros por dois policiais do 7º Baep, após supostamente se aproximar para atacá-los com um facão
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Bruno foi morto a tiros por dois policiais do 7º Baep, após supostamente se aproximar para atacá-los com um facão

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Os PMs não usavam bodycams e nenhuma câmera de monitoramento próxima ao local do homicídio capturou imagens do ocorrido
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Os PMs não usavam bodycams e nenhuma câmera de monitoramento próxima ao local do homicídio capturou imagens do ocorrido

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Juciele contesta versão dos PMs e dificuldade para recuperar imagens de câmeras de segurança
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Juciele contesta versão dos PMs e dificuldade para recuperar imagens de câmeras de segurança

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Bruno foi morto em 12 de outubro, mas 18 meses após o caso, os PMs ainda não foram ouvidos pela Polícia Civil
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Bruno foi morto em 12 de outubro, mas 18 meses após o caso, os PMs ainda não foram ouvidos pela Polícia Civil

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Versão da polícia

Era cerca de 23h50 quando o cabo José Amaro Teles Santos e o soldado Frankel Oliveira de Lima, ambos do 7º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), retornavam de um hospital para a base da tropa, na Mooca.

Eles receberam um chamado dos PMs que estavam na obra da futura sede do 7º Baep, na Avenida do Estado, nº 2023, pois ouviram barulhos no local. Ao chegar, entraram na construção e encontraram Bruno, que portava um facão na mão, segundo relato dos policiais.

O carregador teria ido em direção aos agentes “com a clara intenção de atingi-los”, disse um PM em depoimento. Em reação, Teles e Frankel efetuaram sete disparos, dos quais quatro atingiram Bruno: no queixo, coxa, tórax e no braço esquerdo. Três balas atravessaram o corpo dele.

O resgate foi acionado e constatou a morte de Bruno no local, onde permaneceu o facão. A cena do homicídio foi preservada pela polícia.

PMs que atiraram não foram ouvidos

Tanto o cabo Teles quanto o soldado Frankel ainda não foram formalmente ouvidos pela Polícia Civil. Conforme o inquérito policial, obtido pelo Metrópoles, os PMs não haviam exposto suas versões dos fatos até o final de fevereiro, quando houve o último andamento do procedimento de investigação. Na época, o homicídio já havia completado 14 meses.

Eles também não apresentaram a ocorrência na delegacia, o que foi feito por outro policial militar cerca de sete horas após o caso. O agente foi identificado como Michael Ferreira Silverio Sebastião.

Sebastião prestou esclarecimento para o registro do boletim de ocorrência na manhã de 13 de outubro no DHPP. Antes disso, ele já havia comunicado seu superior hierárquico, a Polícia Judiciária Militar e a corregedoria da corporação.

No BO, o PM destaca que não presenciou os fatos e, por isso, não há descrição do ocorrido. A dinâmica foi exposta por ele na manhã seguinte ao homicídio, em depoimento  no DHPP.

PMs não usavam bodycams

Além de não haver a versão dos PMs diretamente envolvidos no episódio, também não há imagens do ocorrido, já que as bodycams dos agentes estavam descarregadas e, por isso, eles não utilizavam o equipamento.

Segundo o policial que apresentou a ocorrência na delegacia, as fortes chuvas que atingiram a cidade de São Paulo em outubro de 2024 interromperam o fornecimento de energia elétrica na sede do 7º Baep, o que teria impedido a recarga da bateria das câmeras corporais.

Na apuração preliminar do caso, investigadores da Polícia Civil afirmaram não terem identificado câmeras de monitoramento voltadas diretamente para a Avenida do Estado no ponto do incidente. Alguns equipamentos identificados estavam quebrados e, em outros casos, os responsáveis não forneceram acesso às imagens.

Um estabelecimento próximo forneceu o material, mas uma análise técnica concluiu que as pessoas capturadas nas filmagens não correspondiam à vítima e não forneciam informações sobre o ocorrido.

Em janeiro do ano passado, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) contestou a informação de que não haveria câmeras no local e apontou a existência de ao menos três equipamentos voltados para a Avenida do Estado que poderiam ter registrado o crime. O conteúdo, no entanto, não foi recuperado.

Mais tarde, a investigação identificou uma câmera do Smart Sampa no lado oposto da avenida. No entanto, a Prefeitura de São Paulo informou que as imagens são armazenadas por apenas 30 dias. Como a solicitação foi feita meses depois, as gravações da data do fato já haviam sido apagadas.

Juciele contesta a versão sobre a falta de bateria das bodycams e a inexistência de uma câmera que possa ter capturado o homicídio. Ele foi até o local onde o irmão foi morto e encontrou duas câmeras 360º da própria Polícia Militar e três câmeras privadas. O carregador informou sobre a existência dos equipamentos a um delegado do DHPP, que informou a ele pessoalmente que “não havia como puxar as imagens”.

Irmão contesta versão dos PMs e critica demora na investigação

Juciele foi avisado sobre a morte do irmão apenas três dias após o incidente. Ele foi o responsável por retirar o corpo do Instituto Médico Legal (IML) e realizar o sepultamento. Em seguida, procurou o DHPP para compreender o que havia acontecido.

Indignado com as respostas da polícia, Juciele fez uma espécie de investigação própria após o homicídio. Ele foi até o local da execução, dias depois, e também questionou outros carregadores do Bom Retiro, com quem os parentes conviviam quase que diariamente.

Segundo o relato ao Metrópoles, os trabalhadores afirmam que Bruno estava “tranquilo” naquele 12 de outubro e que cumpriu todo o expediente, encerrando poucas horas antes de ser morto. Além disso, todos apontaram ser altamente improvável que ele portasse uma faca.

Carregadores temem a polícia

Juciele trabalhou por 16 anos como carregador de mercadorias no Bom Retiro e no Brás, e Bruno desempenhou a mesma função por cinco anos antes de morrer. “Ele trabalhou comigo até o último dia da vida”, disse o irmão da vítima.

Os dois são naturais de Pernambuco e eram os únicos da família em São Paulo, até Juciele casar e ter filhos.

Ele atualmente é açougueiro, mas está desempregado e tem medo de retornar ao local anterior de trabalho, pela forte presença da polícia. O receio, segundo o homem, é generalizado entre os trabalhadores do local. “100% dos colegas da gente ficaram muito revoltados com essa história, mas nenhum quer se envolver devido ao fato de serem policiais”, contou.

Juciele explicou que policiais fazem escolta do carregamento que chega nos centros comerciais no contra-turno, e que costumam ser hostis com os carregadores.

“Quando chega no Brás, que a gente vai descarregar o contêiner, tem sempre uma escolta armada, uma escolta policial. A gente trabalha diretamente com os policiais. Então, esses colegas meus ficam meio apreensivos com isso, porque eles mexem com policial 24 horas por dia”, afirmou.

Baleados pela PM a caminho de casa ou do trabalho

O caso de Bruno se assemelha a outros que repercutiram na imprensa em que as vítimas foram mortas a caminho do trabalho ou após encerrar o expediente, geralmente, “confundidos” com suspeitos.

O marceneiro Guilherme Dias Santos Ferreira foi morto aos 26 anos de idade em 4 de julho do ano passado na Estrada Turística de Parelheiros, na zona sul de São Paulo, após um policial militar ser assaltado.

O agente acreditou que o jovem seria o criminoso e atirou contra as costas dele, que morreu no local. O PM Fabio Anderson Pereira de Almeida ficou duas semanas preso, mas foi solto pela Justiça. A primeira audiência sobre o caso está prevista para 8 de junho.

Já o faxineiro Lourivaldo Vieira dos Santos, de 50 anos, estava a caminho do trabalho quando foi baleado pelo soldado Luiz Henrique Braz dos Santos, 26, na rua Póvoa de Varzim, no Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, em 24 de janeiro.

A vítima teve o rim dilacerado pelo disparo e precisou ter o órgão completamente removido. O PM foi preso em flagrante e levado ao Presídio Romão Gomes, na zona norte paulistana, ainda naquela data. No dia seguinte, o militar foi solto em audiência de custódia e deve responder em liberdade por tentativa de homicídio.

O que diz a SSP

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) foi procurada pelo Metrópoles, . Em nota, a pasta disse que “o procedimento instaurado pela Polícia Militar foi concluído e encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar (TJM). Paralelamente, o caso segue sob investigação, por meio de inquérito policial, pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Demais diligências são realizadas para o total esclarecimento dos fatos.”

O Tribunal de Justiça Militar também foi procurado pela reportagem, mas não se manifestou até a publicação. O espaço segue aberto.

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