Cacica Jandira: a mulher que fez história ao comandar aldeia nos anos 1990

Jandira ajudou a fundar uma das aldeias da Terra Indígena Jaraguá, em SP, e foi conhecida como a primeira a ocupar função de cacique no país

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Carla Sena/Arte Metrópoles
Imagem ilustrativa da cacica Jandira, da aldeia Tekoa Ytu, da Terra Indígena Jaraguá - Metrópoles
1 de 1 Imagem ilustrativa da cacica Jandira, da aldeia Tekoa Ytu, da Terra Indígena Jaraguá - Metrópoles - Foto: Carla Sena/Arte Metrópoles

A Terra Indígena Jaraguá, na zona norte de São Paulo, além de abrigar sete aldeias habitadas pelo povo guarani mbya, também preserva consigo a história de um protagonismo feminino visto como inédito no país até então: o da cacica Jandira, mulher conhecida por ser a primeira a ocupar o posto de cacique em uma aldeia, ainda nos anos 1990.

Na aldeia Tekoa Ytu, a história de Jandira, ou Kerexu, em guarani, é celebrada por uma placa da Prefeitura de São Paulo posicionada na casa de reza, espaço sagrado e uma das muitas conquistas da liderança da cacica.

“Viveu aqui Kerexu, Guarani Mbya que conduziu, na década de 1980, o primeiro reconhecimento e regularização da terra indígena Jaraguá. É conhecida como a primeira cacique mulher no Brasil”, diz a homenagem.

O título de primeira cacique mulher — ou cacica —  não é consenso. Em outras partes do país, outras indígenas também já foram chamadas de pioneiras no posto. Tendo sido ou não a primeira, Jandira abriu portas em uma época em que os homens eram os únicos a assumir o comando das aldeias.

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Cacica Jandira morreu em 2012
Cacica Jandira à direita em foto na aldeia Tekoa Ytu
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Cacica Jandira à direita em foto na aldeia Tekoa Ytu

Acervo CTI
Cacica Jandira morreu em 2012
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Cacica Jandira morreu em 2012

Arquivo Pessoal

 

Jandira Augusta Venício nasceu na Aldeia Rio Branco, localizada na região entre Itanhaém e Mongaguá, no litoral paulista. Ali, viveu até seus 12 anos, quando conheceu Joaquim Augusto Martim Kwaray, que viria a ser seu marido. Mudaram-se para a capital na década de 1960.

Antes de se fixarem no Jaraguá, Jandira e Joaquim viveram por cerca de 10 anos no bairro Cidade Dutra, zona sul de São Paulo. Ao mudar para a zona norte, o casal fundou a aldeia Tekoa Ytu, que no português se traduz como “o lugar da cachoeira” — uma referência à queda d’água que existia ali. Juntos, tiveram oito filhos biológicos, além de diversos outros de criação que foram acolhidos na aldeia.

Um desses filhos é o pai de Araju Ara Poty, atual cacica da Tekoa Ytu. Neta de Jandira, ela conta que a avó assumiu o posto de cacica após a morte de Joaquim, na década de 1990. “Nenhum dos meus tios quis assumir o papel de ser cacique. Então, eles escolheram ela”, afirmou em entrevista ao Metrópoles.

Ainda que as aldeias indígenas sejam majoritariamente lideradas por figuras masculinas, Araju destaca que para seu povo as mulheres sempre tiveram um papel importante. “Nós, mulheres, temos um papel de orientação, de ensino [para nossa comunidade]. Minha avó já era alguém respeitada [antes de ser cacica]”, diz.

Em sua liderança, a cacica enfrentou dificuldades por não possuir estudos. Araju conta que a avó não sabia ler nem escrever em português. Apesar disso, teve papel essencial em discussões com o governo paulista sobre questões dentro e fora do território.

Dentre suas principais conquistas no território, estão a construção de uma escola dentro da aldeia, uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e a construção da casa de reza onde sua placa reside.

A casa de reza é símbolo de uma reivindicação pessoal da própria cacica, em oposição a uma escolha anterior do marido.

Joaquim, criado evangélico, proibiu o ato de fumar e beber dentro da aldeia, que têm ligação com a cosmologia guarani. Após sua morte, a Tekoa Ytu pôde receber um local destinado ao exercício das crenças da população indígena, sob esforços de Jandira, a primeira mulher a ocupar esse posto.

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“Viveu aqui Kerexu, Guarani Mbya que conduziu, na década de 1980, o primeiro reconhecimento e regularização da terra indígena Jaraguá. É conhecida como a primeira cacique mulher no Brasil”, diz placa
Araju é neta de Jandira e hoje também ocupa o posto de cacica na aldeia Tekoa Ytu
Cacica Araju Ara Poty se inspira na avó para liderar aldeia Tekoa Ytu
Casa de Reza construída sob a liderança de Jandira têm hoje uma placa homenageando a cacica
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Casa de Reza construída sob a liderança de Jandira têm hoje uma placa homenageando a cacica

Joelto Malta / Metrópoles
“Viveu aqui Kerexu, Guarani Mbya que conduziu, na década de 1980, o primeiro reconhecimento e regularização da terra indígena Jaraguá. É conhecida como a primeira cacique mulher no Brasil”, diz placa
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“Viveu aqui Kerexu, Guarani Mbya que conduziu, na década de 1980, o primeiro reconhecimento e regularização da terra indígena Jaraguá. É conhecida como a primeira cacique mulher no Brasil”, diz placa

Julia Queiroz / Metrópoles
Araju é neta de Jandira e hoje também ocupa o posto de cacica na aldeia Tekoa Ytu
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Araju é neta de Jandira e hoje também ocupa o posto de cacica na aldeia Tekoa Ytu

Joelto Malta / Metrópoles
Cacica Araju Ara Poty se inspira na avó para liderar aldeia Tekoa Ytu
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Cacica Araju Ara Poty se inspira na avó para liderar aldeia Tekoa Ytu

Joelto Malta / Metrópoles

Determinada, a cacica falou diversas vezes com a imprensa defendendo melhorias para o território e seu povo. Nessas oportunidades, ela também contava sobre como era o dia a dia na aldeia e, em vários momentos, contou a própria história.

Dois documentários contam a trajetória da cacica. Em um deles, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), ela falou sobre a decisão de fazer a casa de reza e permitir o fumo na aldeia.

“O pajé, ele tem que fumar, tem que ter um cachimbo pra ele. Tem que ter um lugar para ele concentrar, pra pedir a Deus. Tem que ter essa casinha de reza”, disse ela. A fumaça, segundo a crença de seu povo, é responsável por levar “para cima” os pedidos dos guarani.

Fundadora do Centro de Trabalho Indigenista (CTI), a antropóloga Maria Inês Ladeira conta que Jandira era muito atenciosa com todos ao seu redor.

“O que eu achava mais brilhante na Jandira era o seu lado maternal de acolher a todos, de adotar tantas crianças guarani que perderam os pais, de manter relação estreita com todos os parentes guarani. Isso fortaleceu a comunidade indígena do Jaraguá”, diz.

Araju lembra que a avó acolhia indigenas de vários lugares: “Muitos parentes nossos, de regiões no sul, como Paraná e Santa Catarina, vinham até São Paulo para resolver questões de documentos ou de saúde, onde conseguiam encontrar atendimento especializado ao indígena. E aí, as crianças vinham junto e ficavam aqui na aldeia sob cuidados da minha avó”.

Foi com essa liderança que Jandira se tornou uma das vozes conhecidas por defender que o Jaraguá fosse declarado Terra Indígena. Considerado o menor território indígena do Brasil, com apenas 1,7 hectare demarcado, o local ainda é palco da luta dos povos que ali vivem e tentam ampliar a demarcação para o total de área ocupada pelos indígenas. 

Jandira foi líder da Tekoa Ytu até o dia de sua morte, em março de 2012, aos 78 anos. Para os guarani, ela “ancestralizou”.

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