Bando que aluga crianças para pedir esmolas volta a atuar em aeroporto
Ação de quadrilha foi revelada pelo Metrópoles no ano passado. Depois de um tempo afastado, grupo voltou a atuar no Aeroporto de Guarulhos
atualizado
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São Paulo — Parte de uma quadrilha que aluga crianças carentes para pedir esmolas no Aeroporto Internacional de São Paulo, na região metropolitana, voltou a atuar nos terminais internacionais há cerca de dois meses.
Os criminosos retornaram a circular com as crianças “alugadas” para comover e ludibriar passageiros. Usando garotos e garotas, os adultos abordam as vítimas e usam as mesmas estratégias denunciadas pelo Metrópoles há um ano e oito meses.
“Eles voltaram com as crianças, abordam os passageiros em filas e muitos, ainda leigos da situação, acabam ajudando a alimentar essa prática [criminosa]”, afirmou um funcionário do aeroporto, em sigilo.
A ação do bando, liderada por Marcelo Benedito da Silva, foi revelada pelo Metrópoles em fevereiro do ano passado. Com a veiculação da denúncia, a quadrilha sumiu do maior e mais movimentado aeroporto do Brasil, ao menos até agosto deste ano.
De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, os criminosos voltaram e seguem priorizando vítimas no terminal internacional “onde o lucro ilegal é maior”. Um funcionário acrescentou, inclusive, que reconhece os adultos do bando.
“Eles [criminosos] estão agindo da mesma maneira. Falam que perderam um voo e estão com as crianças e que, por isso, precisam de dinheiro e etc. Acabam recebendo, inclusive, em moeda estrangeira [dólar, euro].”
Veja a explicação de como funcionava o esquema:
Flagrantes recentes
Na última quarta-feira (23/10), o genro de Marcelo foi flagrado com duas crianças, que não eram filhos dele, pedindo esmolas para passageiros no aeroporto internacional. Ele também estava acompanhado por uma mulher.
O Metrópoles apurou que funcionários levaram a falsa família para a 3ª Delegacia de Atendimento ao Turista (Deatur), que fica no aeroporto. Nenhum boletim de ocorrência, no entanto, foi registrado.
Três dias antes, no domingo (20), um casal com duas crianças também foi flagrado pedindo dinheiro, fingindo ser uma família em apuros.
“Eles falam que perderam o voo, que estão com toda a família e precisam pegar outro. As pessoas se comovem e dão o dinheiro”, explicou outro funcionário, também em sigilo. “Os membros da quadrilha atualmente estão coagindo os profissionais do aeroporto que os abordam. Não conseguimos trabalhar em paz”, disse mais um.
No dia 19, um casal com um menino, também “usado” como filho, foi flagrado mendigando na praça de alimentação do check-in.
Como o esquema foi descoberto
Foi um ex-funcionário do aeroporto de Guarulhos que chamou a atenção da segurança local para o esquema dentro do terminal, em 2022. Como ele aparecia em horários que geralmente coincidiam com a troca de turno dos pedintes, agentes suspeitaram que o funcionário, na verdade, fosse um olheiro do bando. Ao ser abordado, ele narrou em detalhes tudo o que havia testemunhado por dias.
“Fico sentado e passam [por mim] mil pedintes. Sou capaz de falar o horário de cada um. Vou ser bem honesto, isso aqui, uma vez falei com a assistente social, é uma máfia. Eles pedem [esmola], pois podem contar a mesma história todo dia, para pessoas diferentes. Tem gente tirando 800 paus por dia”, disse a testemunha em registro feito aos seguranças.
Marcelo Benedito da Silva e a mulher dele, Débora Maris da Silva, que também atuava dentro do aeroporto, não foram localizados pela reportagem para falar a respeito do esquema. O espaço segue aberto para manifestação.
Polícia fala só de um caso
A 3ª Delegacia de Atendimento ao Turista (Deatur) afirmou ao Metrópoles, por meio da Secretaria da Segurança Pública (SSP), que instaurou um inquérito para investigar um casal por “crime de abandono moral”, em fevereiro. A delegacia especializada disse ter concluído a investigação em abril, “quando o caso foi arquivado por decisão judicial”.
“Além deste caso, não foram encontrados registros de outras ocorrências semelhantes na especializada até o momento”, acrescentou.
A Deatur disse, ainda, que irá analisar a denúncia feita pela reportagem, sobre o retorno do bando com as crianças.
Sobre a denúncia, feita no ano passado, nenhum posicionamento foi feito sobre eventuais indiciamentos, identificação de suspeitos e se, de fato, algum inquérito foi instaurado.










