Alagoano caminhou até SP por 6 meses após traição: “Pra não matar ele”

Ronaldo Carvalhos vive na rua há 20 anos após ser traído pela ex-companheira com o seu irmão. Em São Paulo, ele sobrevive com doações

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1 de 1 Imagem colorida de Ronaldo Carvalhos, homem negro e alagoano, que veio seis meses andando de Alagoas até São Paulo - Metrópoles - Foto: Guilherme Bianchi/Metrópoles

Natural de Alagoas, Ronaldo Carvalhos (foto de destaque) vive em situação de rua há 20 anos, após ser traído pela ex-companheira com o seu próprio irmão. Ele conta que, para não matar o irmão, decidiu sair de casa e vir caminhando do Nordeste até a capital paulista durante seis meses em busca de doações e emprego.

“Eu me recaí na rua mesmo, porque foi uma separação que eu tive, né? Porque minha ex-mulher ficou com o meu próprio irmão de sangue. Então ‘pra mim não matar ele’, eu preferi sair e não falar mais com a minha mãe, entendeu?“, conta Ronaldo.

Durante os seis meses de caminhada, Ronaldo passou por Bahia e Minas Gerais antes de chegar a São Paulo. Ele lembra que pedia comida nas casas, mas, quando não recebia doações, apenas bebia água pela estrada.

“Pedia numa casa, às vezes a pessoa dava, às vezes não dava. Às vezes eu só tomava água da estrada. Aí eu vim porque aqui em São Paulo, aqui é muita doação, sabe? Muita doação. O pessoal ajuda muito”, relata.

Desde que chegou, o homem dorme todas as noites na Praça do Patriarca, bem em frente ao gabinete do prefeito Ricardo Nunes (MDB). No dia a dia, ele se alimenta por meio de doações de ações humanitárias e toma banho em um Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) da prefeitura.

“Todo dia ‘nós dorme’ aqui, porque aqui tem alimentação, né? Arroz e feijão, às vezes vem carne, às vezes vem carne moída, é assim que vem. Aí às vezes eles trazem pão com mortadela, trazem suco, aí assim vai levando a vida”, destaca o alagoano.
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Sonho de uma “casinha” e dificuldades na rua

Ronaldo é ajudante de pedreiro e já teve uma oportunidade de emprego na capital. No entanto, após o fim da obra em que trabalhava, ele voltou a ficar desempregado.

“Trabalhei aqui em São Paulo com uma obra que eu arrumei. Eu vim ganhar obra. Mas como acabou, então eu ‘tô aqui’ na rua de novo. Porque o patrão falou que ia vir buscar, não veio mais. Aí sumiu também”, lamenta.

Hoje, o alagoano sente falta principalmente do pai, que já faleceu, e busca uma oportunidade de emprego para deixar as calçadas. Ele afirma, porém, que enfrenta diversas dificuldades vivendo na rua.

Além da fome e o desemprego, Ronaldo tem o preconceito como inimigo. Ele relata que diariamente diversas pessoas preferem trocar de calçada em vez de passar ao seu lado.

“Tem pessoa que ela atravessa do outro lado pra não passar perto de você, né, mano? Assim, a pessoa passa lá do outro lado. Nós se sente assim, como um leão, sabe? Nossa, parece que você vai pegar, mano, é assim, sabe? A pessoa fica com medo de nós”, afirma.

Apesar dos problemas, o alagoano sonha em ter sua própria casa. “Um dia a gente vai ter, tipo, uma casinha, né? Se Deus quiser”, conclui.

Fila da fome reúne multidão sem-teto em frente à prefeitura

Assim como Ronaldo, todas as noites de sexta-feira, pelo menos 500 pessoas em situação de rua formam filas para receber doações e dormem na Praça do Patriarca, bem em frente ao gabinete do prefeito Ricardo Nunes, no centro de São Paulo. Entidades de ação humanitária distribuem comida, água e roupas para essa população, que diz se sentir invisível à administração municipal. Especialista define cenário como “apartheid comunitário”.

Apesar da rede socioassistencial oferecida pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), sem-teto e doadores afirmam que o serviço é burocrático e insuficiente. Um estudo baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social aponta que a capital tem quase 100 mil pessoas vivendo nas ruas.

O pastor Luciano Escala, do Instituto Viver na Bênção, entidade ligada à Comunidade Evangélica Vale de Bênção da zona norte da capital, distribui comida e algumas roupas na Praça do Patriarca há 10 anos. Por volta das 19h, a comunidade religiosa chega ao local com algumas Kombis, doa cerca de 500 marmitas e oferece orações à população de rua

“A gente percebe que alguns simplesmente querem pegar comida e querem sair. Outros pedem oração, eles querem conversar, querem falar um pouco da história deles, é muito relativo”, diz.

Luciano explica que a ONG é formada por pessoas “de uma comunidade simples da Vila Brasilândia” e a ação nada mais é do que [um gesto de] “pobres ajudando pessoas que estão numa situação mais difícil ainda”. Ele afirma que se sente grato em ajudar com o que pode, mas percebe uma incoerência no papel da prefeitura com a população de rua.

“A gente percebe uma incoerência, né? Porque é uma cidade que arrecada, é a cidade que mais arrecada em toda a federação, e nós temos pessoas nessa situação. E quem faz esse trabalho? Nossa comunidade, uma comunidade simples, nós não somos ricos”, diz o pastor.

Assim como o Viver na Bênção, a Associação Beneficente e Comunitária do Povo (ABCP) e outras ONGs atuam na Praça do Patriarca em apoio à população de rua. A ABCP nasceu em 2007, com voluntários da Igreja Batista do Povo, da Vila Mariana, e distribui alimentos há 18 anos.

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