Vídeo mente ao dizer que militares atacaram petistas de 7 de Setembro

Áudio original foi substituído por outro, retirado de vídeo feito em 2018 que foi gravado nas dependências da Polícia Militar do Pará

atualizado 15/09/2022 22:38

Imagem colorida de postagem falsa sobre 7 de Setembro Reprodução/Projeto Comprova

Esta checagem foi realizada por jornalistas que integram o Projeto Comprova, criado para combater a desinformação, do qual o Metrópoles faz parte. Leia mais sobre essa parceria aqui.

Conteúdo investigado: vídeo de 19 segundos traz trechos do desfile cívico-militar deste 7 de Setembro que ocorreu em Brasília, em comemoração ao bicentenário da Independência do Brasil. Filmado de uma arquibancada, o conteúdo é acompanhado por áudio de grito de guerra: “Se liga, v***, é Bolsonaro no Brasil. Ei petista, pensou que ia escapar? Se liga, v***, tu vai ter que trabalhar. Brasil! Brasil! Acima!”.

Tropas militares que participaram do desfile do 7 de Setembro em Brasília (DF), na última semana, não gritavam contra petistas, nem exaltavam Jair Bolsonaro durante a cerimônia. Um vídeo que viralizou no TikTok nos últimos dias trocou o áudio ambiente do desfile por uma espécie de paródia de uma canção de Treinamento Físico Militar (TFM), feita por um grupo que participava de um treinamento nas dependências da Polícia Militar do Pará, em 2018.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

O vídeo de onde o áudio foi retirado circula nas redes pelo menos desde 5 de setembro de 2021. Ele mostra um grupo de militares fazendo um treinamento físico, enquanto outra pessoa exclama algumas frases, repetidas pelo restante do grupo, que bate palmas enquanto entoa o grito de guerra.

O áudio original do treinamento físico no Pará foi usado em 384 vídeos diferentes apenas no TikTok até o início da tarde desta quinta-feira (15/9). A maioria das publicações foi feita após o desfile do 7 de Setembro deste ano.

O desfile dos 200 anos da Independência foi transmitido ao vivo pela TV Brasil. Fica evidente que as tropas que passavam pelo local não proferiram nenhum ataque verbal ao PT nem defesa a Bolsonaro. As imagens mostram os soldados marchando, mas sem bater palmas ou entoar qualquer canto (TV BrasilPoder 360).

Alcance da publicação

O Comprova investiga conteúdos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 15 de setembro, o vídeo teve 7,2 milhões de visualizações, 675,7 mil curtidas, 10,4 mil comentários e 71,8 mil compartilhamentos.

O que diz o autor da publicação

O conteúdo foi publicado pelo perfil do Clube de Pesca e Pousada Boa Sorte, localizado em Itauçu, Goiás. Como o TikTok não permite o envio de mensagens entre contas que não se seguem mutuamente, o Comprova localizou outras redes sociais do estabelecimento (Instagram e Facebook) e encontrou um endereço de e-mail. Entramos em contato com o clube, mas não houve retorno até o fechamento desta checagem.

Como verificamos

O primeiro passo foi investigar a origem do vídeo. Para isso, comparamos a cena exibida no conteúdo investigado com as imagens oficiais da transmissão feita ao vivo pela TV Brasil. O Poder 360 retransmitiu o desfile, e o vídeo mostra a passagem das tropas entre 1:37:50 e 1:39:50. Esse é o mesmo momento que o vídeo investigado mostra.

Em seguida, buscamos o áudio. Na parte inferior do post, há um link para o que seria o “som original” do vídeo – ao clicar nele, o TikTok leva a uma página que mostra outros vídeos que utilizaram o mesmo som. Esse é um recurso popular da plataforma, muito usado em vídeos de dublagem, que permite que um mesmo som seja usado em diversos vídeos. O TikTok informa onde o mesmo som foi utilizado. No início da apuração, em 12 de setembro, havia 304 vídeos com o mesmo áudio, número que saltou para 384 até a tarde do dia 15. O mais antigo deles foi postado por um usuário no dia 28 de junho deste ano, o que já indica que o áudio não poderia ter sido registrado durante os desfiles deste 7 de Setembro.

Reprodução do Projeto Comprova
Captura de tela da página do TikTok que mostra em quantos vídeos o áudio usado pelo conteúdo verificado pelo Comprova foi utilizado

Uma busca reversa com ferramentas como o Google Imagens e o Yandex, cruzada com pesquisas no Google e nas redes sociais a partir de trechos das frases ditas no áudio, levou ao vídeo de um treinamento militar que já circula no YouTube pelo menos desde 5 de setembro de 2021.

Ao identificar que o áudio original pertencia a esse vídeo, gravado nas dependências da Polícia Militar do Pará, o Comprova entrou em contato com a corporação e com a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) para saber quando o vídeo tinha sido feito, em quais circunstâncias e se alguém tinha sido punido.

O Comprova buscou contato, por fim, com o autor da postagem no TikTok, também sem retorno.

Áudio pertence a vídeo feito em treinamento militar no Pará

Apesar de aparecer em centenas de posts no TikTok, o áudio utilizado no vídeo investigado já circula pela internet pelo menos desde o dia 5 de setembro de 2021. Ele foi retirado de vídeos no YouTube que mostram um treinamento dentro das dependências da Polícia Militar do Pará – nenhum dos vídeos, contudo, informa quando e onde as imagens tinham sido feitas.

Entre os segundos 11 e 12 dos diversos vídeos postados no YouTube, é possível ver que um homem segura o mastro de uma bandeira de tecido preto com brasão e letras brancas. Uma parte do que está escrito é visível: “Pela ordem, Choque!”. A parte inferior do brasão que aparece na bandeira também pode ser vista, assim como dois ramos nas laterais, mas a baixa qualidade das imagens não permite identificar a que corporação a bandeira pertence.

Reprodução do Projeto Comprova
Bandeira tem parte de slogan usado por Batalhões de Choque das Polícias Militares brasileiras: Pela Paz e Pela Ordem

Ao buscar por postagens nas redes sociais de batalhões de choque das Polícias Militares do Brasil, o Comprova identificou um post no Facebook feito em 14 de maio de 2019 em uma página atribuída ao Batalhão de Polícia de Choque do Pará. Apesar de a foto ser de 2019, e não de 2021, ela mostra o mesmo padrão de bandeira e de boné usado pelos homens que aparecem no vídeo. Segundo o post, a foto registra participantes de um Curso de Ações de Choque da PM do estado.

Reprodução do Projeto Comprova
Foto postada na página do Batalhão de Choque do Pará no Facebook mostra bandeira e bonés parecidos com os que aparecem no vídeo do treinamento com o grito de guerra. Crédito: Reprodução

A partir de uma das frases ditas pelos homens que aparecem no vídeo do suposto treinamento, o Comprova localizou um arquivo em PDF com uma coletânea de canções de TFM (Treinamento Físico Militar). Embora a canção dita pelos homens nas imagens não apareça no documento, há uma frase similar, que indica a possibilidade de o vídeo ser uma paródia da canção de número 80, chamada “Sangue do Pedroso”. Enquanto no vídeo, os homens gritam “Ei, petista, pensou que ia escapar? Se liga, v***, tu vai ter que trabalhar”, o texto original diz: “Ê, v***, pensou que ia escapar? Agora no inferno pocotó vai cavalgar”.

O documento está nomeado em diversos sites como “Canções de TFM – SD Magno PMPA”, mas o conteúdo em si não faz menção a um soldado em específico. Um texto de apresentação diz que a finalidade é “reunir canções militares, especialmente, aquelas utilizadas no decorrer das atividades físicas da 1ª Companhia ROTAM e da 2ª Companhia ROTAM MOTOS pertencentes ao Batalhão de Polícia Tática – BPOT”. Ainda segundo o documento, ele deve servir “como uma fonte de consulta para os futuros Cursos, Nivelamentos e Estágios no âmbito da Polícia Militar do PARÁ”.

O Comprova, então, conseguiu localizar um vídeo de treinamento de campo das Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas (Rotam) do Pará. As imagens, publicadas no YouTube em 2013, mostram o mesmo local que aparece nas imagens do vídeo com o grito de guerra. É um campo de futebol ao lado de um prédio que serve como sede da Banda de Música da PM do Pará. Ao fundo, há uma cobertura ligeiramente arredondada, que pertence ao prédio do Almoxarifado Central, bem perto da sede da Rotam, que fica na Avenida Brigadeiro Protásio, no bairro Marco, em Belém.

Reprodução do Projeto Comprova
Vídeo do treinamento de onde o áudio foi extraído, publicado em 5 de setembro de 2021

Reprodução do Projeto Comprova
Vídeo de treinamento da Rotam do Pará, publicado em 7 de setembro de 2013

Reprodução do Projeto Comprova
Imagem de satélite do local onde as imagens foram feitas, na sede da Rotam, na Avenida Brigadeiro Protásio, em Belém (PA)

Em nota, a Polícia Militar do Pará informou que “este vídeo foi gravado em 2018, portanto não está relacionado com a atual gestão. A PM ressalta que é terminantemente proibida qualquer manifestação político-partidária dentro dos quartéis da corporação e que vai apurar qualquer conduta que não esteja de acordo com o código de ética da PM”.

Vídeo foi gravado no desfile de 7 de Setembro em Brasília

O vídeo investigado foi filmado de uma arquibancada no dia 7 de Setembro de 2022, durante o desfile em comemoração ao bicentenário da Independência, que ocorreu na Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Na transmissão ao vivo feita pela TV Brasil e repercutida pelo Poder 360, é possível ver as diferentes tropas do Exército que aparecem no vídeo postado no TikTok. O desfile das tropas é mostrado entre 1:37:50 e 1:39:50. Apesar da narração dos comentaristas da TV Brasil, não há, em nenhum momento do desfile, o grito de guerra em apoio ao presidente Bolsonaro como sugere o vídeo investigado.

O vídeo foi postado no TikTok a partir da conta do Clube de Pesca Boa Sorte, que fica em Itauçu (GO). O proprietário do clube, Gleybson Cesar da Silva, estava no desfile. Ele aparece nesta publicação no TikTok e também em diversos vídeos no perfil do clube no Instagram.

De acordo com reportagem do G1, cerca de 3,1 mil militares desfilaram, sendo, aproximadamente, 600 da Marinha, 2 mil do Exército e 500 da Aeronáutica – além de veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), integrantes do Programa Força no Esporte (Profesp), e ex-integrantes das Forças de Paz.

Por que investigamos

O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. Publicações que envolvem candidatos e foram editadas para mudar o seu significado original podem influenciar na imagem construída pelos eleitores sobre determinado político. Isso é prejudicial para o processo democrático e para os cidadãos, que têm o direito de fazer sua decisão com base em informações verídicas e confiáveis.

Outras checagens sobre o tema

Em verificações recentes a respeito do bicentenário da Independência, o Comprova mostrou que post usa imagens de ângulos diferentes para depreciar ato pró-Bolsonaro de 7 de Setembro e que é falso áudio em que presidente xinga Michelle Bolsonaro antes do desfile de 7 de Setembro.

Anteriormente, o Comprova verificou peças de desinformação que, assim como essa, traziam áudios adulterados. Por exemplo, mostrou que vídeo com áudio falso enganou ao sugerir que ex-governador da Paraíba teria humilhado Lula e elogiado Bolsonaro, que post adulterou áudio e mentiu ao afirmar que Lula foi xingado em Caruaru e que pessoas gritavam a favor de Lula, e não contra ele em vídeo na Sapucaí.

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