Covid: artigo que condena lockdown não é da Universidade Johns Hopkins
Postagens afirmam que a Universidade Johns Hopkins realizou um estudo que concluiu que lockdowns tiveram pouca efetividade contra a Covid-19

Esta checagem foi realizada por jornalistas que integram o Projeto Comprova, criado para combater a desinformação, do qual o Metrópoles faz parte. Leia mais sobre essa parceria aqui.
Conteúdo verificado: postagens no Facebook afirmam que a Universidade Johns Hopkins realizou um estudo que concluiu que lockdowns tiveram pouca efetividade na contenção da Covid-19.
Postagens nas páginas do Facebook do site Brasil Sem Medo e do deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) afirmam erroneamente que um estudo da Universidade Johns Hopkins teria comprovado que o lockdown teve baixa efetividade como medida de contenção da Covid-19. Embora um dos três autores da pesquisa seja professor da universidade, a instituição não contribuiu para o estudo.
O artigo citado não passou pelos protocolos básicos para ser definido como um estudo acadêmico científico, como a submissão aos comentários e observações de colegas da área.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesProcurado pelo Comprova, o deputado federal disse que ele e sua equipe apenas publicaram uma matéria de uma revista. Já a página Brasil Sem Medo não respondeu aos nossos questionamentos por e-mail até a publicação desta verificação.
O Comprova classificou a postagem como enganosa por atribuir de forma incorreta dados sem comprovação a uma instituição renomada, com a intenção de distorcer a realidade e levar o leitor a uma conclusão equivocada.
Como verificamos?
O primeiro passo da checagem feita pelo Comprova foi atestar se o estudo citado realmente existia, por meio de uma busca por palavras-chaves na internet. Depois de encontrado, verificamos quais eram as relações dos autores com a universidade citada e qual era o conteúdo do artigo. Também foram pesquisadas as qualificações acadêmicas e profissionais dos autores, assim como as suas publicações em redes sociais e entrevistas anteriores ao trabalho divulgado.
O Comprova buscou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), especialistas em pesquisas científicas, para analisar a maneira como o estudo foi produzido e também dados oficiais sobre os resultados de medidas sanitárias divulgados.
Verificação
Universidade não fez estudo sobre lockdown
O primeiro ponto que chama a atenção é o fato de a postagem atribuir o estudo à Universidade Johns Hopkins, que faz uma contagem dos casos e mortes por Covid-19 no mundo todo. O próprio estudo e a universidade, contatada por e-mail, afirmam que o material divulgado não tem relação com a instituição.
“As opiniões expressas neste documento são dos autores e não necessariamente das instituições às quais os autores são filiados”, diz a abertura do artigo. Dos três autores, apenas um, Steve Hanke, tem relação com a universidade como professor de economia. Os outros dois, Jonas Herby e Lars Jonung, também economistas, são membros de instituições na Suécia e Dinamarca sem relação com a universidade Johns Hopkins.
O fato de um autor trabalhar para uma instituição de ensino não garante que esta apoie todo e qualquer material que ele venha a produzir, como explica o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Renato Janine Ribeiro. “Para você dizer que é um estudo de uma determinada universidade você tem que ter o aval dessa universidade. Não basta apenas ter alguma relação com essa universidade.”, afirma o professor.
Material publicado tem falhas técnicas e distorções
Além de pouca ou nenhuma experiência na área de saúde, os três professores de economia autores do documento em que se baseia a postagem checada não cumpriram os passos técnicos para que o trabalho fosse considerado como um estudo científico, podendo ser descrito como um artigo apenas.
“Você faz um estudo, ele é proposto a alguma revista ou algum periódico, depois ele é avaliado, eventualmente surgem críticas, pedem para o autor refazer ou analisar e responder as críticas e somente depois, no final disso, o estudo é publicado. E somente nessa altura você pode dizer que o estudo está terminado e que é efetivamente um estudo terminado e publicado”, como explica o professor Renato Janine.
Mesmo descrevendo o artigo como um “trabalho em andamento”, os autores foram criticados por pesquisadores cujos estudos serviram como base para a pesquisa. Proposto como uma meta-análise, ou revisão de literatura, onde o autor se propõe a condensar uma grande quantidade de dados e informações coletados por outros autores a fim de obter um dado definitivo, ou pelo menos fazer uma análise dos dados coletados em comparação aos demais estudos, o trabalho citado na postagem tem pouca amplitude e diversidade. Dos 34 estudos usados como base, 12 têm o mesmo status de “trabalho não finalizado”, 14 foram feitos também por economistas sobre um tema de saúde pública e sete usam a mesma base de dados. O principal artigo usado na pesquisa, na verdade, aponta benefícios para o lockdown.
Nas redes sociais, a autora desse estudo base principal disse que os três “já tinham a tese pronta” e que apenas colocaram dados e pesquisas para confirmar essa tese sem realmente ir a fundo nos trabalhos.
Outro problema apontado nas redes sociais por especialistas em análises de dados é a forma como os autores da pesquisa usaram tabelas e dados. Economista da Universidade de Munique, Andreas Backhaus escreveu que “deram peso desproporcional aos trabalhos com o resultado que eles queriam” distorcendo o número final, informação que o próprio autor reconhece nesse documento com respostas sobre questionamentos que ele publicou em suas redes.
A exclusão de dados sem um critério técnico claro também chamou a atenção do epidemiologista da Universidade de Wollogong, na Austrália, Gideon Meyerowitz. Ele trabalha com doenças crônicas em Sydney e ponderou que os autores “excluíram todos os trabalhos robustos conhecidos sobre lockdown, deixando apenas trabalhos obscuros”, o que também mostra uma disposição dos autores em usar números que chegassem a um resultado determinado antes da análise.
Medidas sanitárias foram efetivas contra a Covid
Diferentemente do que sugere o artigo checado, diversas pesquisas apontam como bem sucedidas, se bem aplicadas, medidas de contenção ao coronavírus. Além do lockdown, o distanciamento social, o uso de máscaras e a higiene das mãos foram apontadas como medidas positivas no combate à disseminação da doença.
Um estudo de 2020 do Imperial College, de Londres, já apontava que cerca de 120 mil vidas haviam sido salvas
Já a revista Nature publicou um extenso material em que aponta que os lockdowns reduziram em média 80% das transmissões do vírus. Dois professores de matemática da Universidade de Barcelona estimaram uma queda no número de casos e de hospitalização como efeito das medidas restritivas, incluindo o lockdown. Produzido por especialistas de diversas áreas, este estudo calculou o impacto do lockdown dependendo da intensidade e da duração. Todas as publicações foram submetidas aos pares e somente depois de revisadas foram publicadas.
Em uma carta conjunta, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e a Associação Médica Brasileira (AMB) abordaram a efetividade das medidas restritivas
Por que investigamos?
O Comprova faz a checagem de conteúdos suspeitos relacionados às políticas públicas do governo federal, pandemia e eleições que tenham viralizado nas redes sociais. O conteúdo verificado, que postava dados incorretos sobre a pandemia para tentar desacreditar as medidas sanitárias, tinha quase 15 mil interações nas duas publicações no Facebook em apenas três dias.
Em outras oportunidades, o Comprova mostrou como as medidas sanitárias foram efetivas no combate a proliferação do coronavírus, como ao mostrar que video usava informações falsas sobre lockdown, ou quando verificou vídeo divulgado que atribuiu falsamente suicídio ao lockdown. Também checamos informações sobre o distanciamento social e a efetividade das máscaras aqui, e também nesta e nesta checagem do Comprova sobre o uso e eficiência das máscaras.
Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.



