Salve Café Maravilha faz jus ao nome com quitutes inusitados

O novo espaço na Asa Norte oferece pratos criativos dentro da linha vegetariana

Guilherme Lobão/Metrópoles

atualizado 25/02/2019 15:25

Gosto de dizer que há uma pequena revolução do café em Brasília. Bebemos melhor hoje do que 10 anos atrás. E o motivo é por que passamos a nos relacionar com a terra novamente, com nossos biomas e nosso produtor rural. O produtor em pó, industrializado, moído em escala com galho, folha, bicho… agora pode ser encontrado em microlotes. Ou seja, pequenas fazendas mandam sua produção diretamente ao barista.

Nasceram com esse conceito as boas cafeterias da cidade, das quais destaco desta vez o trabalho realizado no Salve Café Maravilha, aberto ano passado na 116 Norte. Mas aqui, o café é um dos ótimos acessórios a se encontrar por entre os ladrilhos de azulejos brancos e as prateleiras repletas de santinhos, algumas plantinhas e badulaques diversos.

O grande salto de profissionalismo dos cafés da cidade veio, naturalmente, com o reconhecimento do trabalho especializado do barista. Não é café coado na pressa ou tirado em máquina imprecisa de expresso de qualquer jeito. Brasília acolheu a profissão inexistente até pouco tempo e subiu o sarrafo da produção dos chamados cafés especiais – com isso, o preço que pagamos também é mais caro. Caminho natural.

O Salve soma-se a esse conjunto de iniciativas de pequeno a médio porte, só que com um algo a mais. As receitas da casa buscam a linguagem do veganismo ou, no limite, de uma dieta ovolactovegetariana. No entanto, o maior mérito é não se rotular como tal. Ou seja, não temos aqui apenas um típico estabelecimento a facilitar o consumo de um determinado nicho, mas sim um conceito seguro a se fazer despercebido numa primeira olhada no cardápio.

No Salve você não vai encontrar hambúrguer de grão-de-bico. Ao menos, não agora. Sem se esforçar a reinventar receitas do universo onívoro para “agradar”. Aqui a criatividade dispensa essa bobajada. Há bolos, tortas e o tal do pão sem queijo, como traço característico de uma casa de perfil vegano. Tudo muito bom, à exceção do pão sem queijo (R$ 4, duas unidades), excessivamente dominado pelo sabor da mandioquinha.

A torta de cheesecake (que contém lactose, R$ 12) é de uma suavidade impressionante, na contramão dos exemplares gelatinosos que se espalham como praga pelas vitrines de confeitarias pouco criteriosas. Dentre as receitas clássicas, é preciso destacar, também, o cookie de chocolate com laranja kinkan (R$ 7), oferecendo um leve amargor de fundo e mais complexidade à receita típica feita à base de açúcar mascavo, farinha de trigo e manteiga; e os incríveis donuts veganos (R$ 7), cujo sabor tá sempre mudando. Provei um de água de rosas e outro de matchá. Como o risco agrega à receita!

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No Salve, é seguro pedir um expresso (R$ 6) ou um macchiato (R$ 7), mesmo que não ostente uma máquina La Marzocco personalizada. Ali, o time sabe lidar com os grãos da MON Coffee. Os métodos de coa são tratados muito bem, inclusive. Um dos melhores cafés na chemex que você vai tomar: R$ 9 (180 mL).

E, já que propomos o risco, encare o Chá da Sushi (café, água com gás, frutas vermelhas e menta), por R$ 10. Sushi é Cynthia Ashiuchi, sócia de Fernando Xavier no empreendimento, e sempre muito atenciosa para explicar a fundo os processos e cardápios. A equipe aprendeu bem a abundante cordialidade com ela.

Aos domingos, o Salve funciona só das 10h às 14h30, com um serviço de brunch. A shakshuka (o ensopado tomatoso de ovos judaico) é bem temperadinha, mas deve picância. Como alternativa, pode-se pedir o matinal, prato com pão sourdough, da Bella Focaccia, com abacate, cogumelo e cream cheese. Também há panqueca e torrada francesa.

No dia a dia, os preparos salgados da casa aparecem com o menu de torradas feitas com o mesmo pão do brunch. A de abacate não é apenas aquele preparo bonitinho e ordinário que virou modinha nos EUA (R$ 21). Há um belíssimo equilíbrio de acidez e sal com a cebola-roxa, o rabanete e os tomatinhos. A porção é generosa e dá até para dividir, mas não sem fazer lambança. Outra torrada bem boa é a de salada de ovo ao creme de curry com castanhas e uva-passa (R$ 19).

A turma do Salve resolveu pensar fora da caixinha enquanto criava um conceito de cafeteria descolada e vegetariana, sem precisar recorrer aos subterfúgios sensacionalistas do rótulo que cerca esse campo. Tem comida boa. É isso que importa. Seus preconceitos podem ficar em casa.

Salve Café Maravilha
Na 116 Norte, Bloco B, Loja 46. Tel: (61) 3202=0304. De terça a sexta, das 10h às 19h30; sábado até 17h30; domingo brunch até 14h30. Wi-fi. Ambiente externo. Pedidos no balcão. Desde 2018

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