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Tremembé: true crime revela mais do que queríamos sobre nós mesmos

O que explica o fascínio do público por produções de true crime? Mesmo com outras opções, o gênero continua entre os mais assistidos

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Foto colorida da série Tremembé - Metrópoles
1 de 1 Foto colorida da série Tremembé - Metrópoles - Foto: Divulgação

A nova série Tremembé, disponível no Prime Video, tem gerado grande repercussão ao retratar o cotidiano do chamado “presídio dos famosos”. Estrelada por Marina Ruy Barbosa no papel de Suzane von Richthofen, a produção combina fatos reais e elementos de ficção para revisitar a trajetória de alguns dos criminosos mais conhecidos do país.

Mas, o que explica o fascínio do público por produções de true crime? Mesmo com a grande quantidade de títulos disponíveis, o gênero continua entre os mais assistidos no streaming e no cinema. Será que quanto mais chocante é o crime, maior é o interesse do público? E o que essa curiosidade revela sobre quem consome esse tipo de conteúdo?

Com o alto índice de produções criadas hoje com o uso da inteligência artificial e o aumento de vídeos cada vez mais nonsense e absurdos normalmente de caráter sádico — sustos, como os de tigres invadindo janelas e assustando pessoas que dormiam tranquilamente (!) — talvez o apreço por aquilo que “parece real” mais true venha a se tornar cada vez mais comum.

É como se, diante do excesso de ficções artificiais, as pessoas buscassem um real garantido, mesmo que violento. Vemos isso no crescimento de interesse por reportagens e divulgações midiáticas sensacionalistas do crime, de filmes e séries baseados em casos reais, como American Crime Story (série antológica dos EUA sobre crimes reais), o filme Maníaco do Parque (2024, dirigido por Maurício Eça) — e, agora, da série Tremembé.

Um segundo ponto desse apreço pode ser pensado a partir de uma frase famosa de Sigmund Freud: “A neurose é o negativo das perversões.” Uma leitura possível dessa frase é lembrar do negativo das fotografias antigas: ali, o que aparece escuro é o reflexo do que é visto às claras. Ou seja, o negativo traz, em outro registro, o virtualizado, aquilo que a foto representa na realidade.

Nesse sentido, nas séries e filmes baseados em crimes reais encontramos algo das fantasias perversas que o neurótico normalmente vive apenas no campo da fantasia — na literatura, no cinema ou no sonho (ainda que, em certos casos, possa também realizá-las na realidade; afinal, todos os sujeitos podem cometer crimes).

Esse interesse não é novo: ele atravessa a arte e a literatura há muitos séculos. Existem desejos que só conseguimos admitir de forma velada, cifrada ou disfarçada. Ao negar esse desejo em si mesmo, passamos a acreditar que tais impulsos e fantasias pertencem apenas “aos outros”, aos ditos perversos. Mas é importante lembrarmos que “homens maus fazem o que homens bons sonham”.

Existe uma tipografia de crimes, entre eles os chamados “crimes perversos”. A psicanalista Marie‑Laure Susini (2007) fala disso com precisão em seu livro O Autor do Crime Perverso: há crimes que trazem marcas específicas — como as pistas deixadas pelos autores, o desmembramento de corpos, o flerte com a investigação ou o tom professoral com que alguns criminosos demonstram certa “sabedoria” ou frieza.

Tudo isso aponta para a presença de uma estrutura perversa: um modo particular de se relacionar com o desejo e com a lei, diferente da neurose ou da psicose. Poderíamos observar características diferentes nos crimes cometidos por sujeitos neuróticos e psicóticos, e a repercussão diferente desses crimes no público também.

É importante lembrar que nem todo sujeito perverso comete crimes — essa é uma visão preconceituosa da nossa parte que confunde “perverso” com “perversidade”. Mas, quando o faz, o faz a partir de características próprias dessa estrutura.

Uma dessas características é, por exemplo, que o perverso se posiciona como instrumento do gozo do Outro. Ou seja, ele se oferece ao mundo — nas relações, nos discursos, nos gestos e, eventualmente, no crime — como aquele que porta um saber sobre a satisfação, sobre o gozo. Acredita deter as chaves que podem conduzir a si e aos outros à plenitude, seja por meio do saber, do sexo ou do fetiche. Daí o tom professoral com que manifestam certa “presença” frente a seus pares ou, no crime, diante da vítima, do investigador ou entrevistador.

Aliás, fetiche vem de feitiço: esse objeto tem o poder de nos “enfeitiçar”, de parecer capaz de preencher uma falta — especialmente a falta sexual. Esse é um drama para as pessoas em geral: normalmente elas buscam num mestre, num Outro, alguém que possua o saber sobre a satisfação. Na psicanálise, isso se chama transferência: o neurótico aposta que o analista porta esse saber e que poderá conduzi-lo à satisfação, ao objeto do desejo, ao gozo, ao amor.

Já o sujeito perverso, quando consegue chegar a uma análise, ao contrário, não demanda um saber ao analista. Ele quer fazer do analista a testemunha de um gozo que acredita dominar. Normalmente, diante desse saber ele não tem muitas questões; suas demandas ocorrerão em outros aspectos, quando algo dessa estrutura faz os seus “outros” sofrerem, normalmente na esfera amorosa.

Nota-se que são posições muito diferentes, e o analista precisa estar atento para não se deixar seduzir por esse suposto “saber sobre o gozo”. É daí que vem o fascínio: as pessoas ficam hipnotizadas por esses sujeitos que parecem realizar uma satisfação que elas mesmas nunca admitiram desejar. Supostamente portar um saber que elas não portam. Ficam admiradas e ao mesmo tempo amedrontadas por esses sujeitos.

O autor do crime, quando perverso, é também “autor” no sentido artístico — ele se coloca como criador de uma cena, ator e diretor de um espetáculo que oferece ao olhar dos outros. O público, por sua vez, satisfaz através da tela do cinema, da TV ou do celular aquilo que esses sujeitos realizam na realidade. Encontra nos perversos a encenação de suas próprias fantasias de desmembramento e completude.

Os crimes perversos também revelam algo importante: o gozo do público faz parte do gozo do autor. O olhar do público — o Outro — sua curiosidade, fascínio e até horror — compõe a cena. Não é por acaso que esses criminosos se tornam celebridades, as “vedetes” da atualidade.

A fama do autor, as entrevistas nos jornais, as biografias que se tornam best-sellers, as séries de TV, ou como no caso do Maníaco do Parque, que chegou a ser recordista no recebimento de cartas no presídio, mostram o quanto o olhar do público é essencial nesse jogo. O público, com seu olhar voyeurista, seu ódio sádico e sua adoração fetichista, acaba participando da cena do crime. Esse crime foi realizado e endereçado para esse Olhar, sua satisfação não se esgota no ato horroroso realizado individualmente na penumbra, falsamente às escondidas, mas se completa quando a cortina se abre e o crime aparece à luz do dia aos olhos dos outros.

Descobrir que o público é, sem perceber, parceiro do autor do crime perverso é algo que pode parecer perturbador. Entender a estrutura dessa fascinação é compreender como somos, muitas vezes, manipulados por esse espetáculo do gozo.

Mas gostaria de deixar uma provocação — apesar de correr o risco de parecer um tanto conservador —, minha intenção é justamente a oposta. Se esse tipo de série ou filme é o único capaz de te capturar, talvez valha se perguntar — individualmente — que poder de sedução existe nessas obras que me hipnotizam desse modo? O que há em cada um de nós que se deixa capturar tão facilmente?

Não se trata de evitar essas produções — pelo contrário, é importante desfrutarmos da arte, das narrativas e das emoções que despertam em nós a complexidade dos afetos humanos e que nos confrontam com uma alteridade capaz de nos mover de nossos preconceitos e configurações narcísicas. Mas, quando o fascínio se torna hipnótico, fixado, isso pode ser um sinal para certo cuidado.

A psicanálise é uma boa oportunidade para isso. Afinal, não queremos ser tão facilmente seduzidos por esses sujeitos — que podem estar ora no streaming, ora no vagão do metrô, nas igrejas ou nas próximas eleições.

  • Guilherme Freitas Henderson é psicanalista, doutor e mestre em Psicologia Clínica e Cultura na Universidade de Brasília (UnB). Graduado em Psicologia pela mesma universidade, com período sanduíche na Universidad de la República – Udelar (Uruguay). Guilherme é supervisor de estágio em clínica psicanalítica (Cenfor-CEUB) e professor da pós-graduação Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica (Instituto ESPE). O psicanalista atende adolescentes e adultos e é membro da Associação Lacaniana de Brasília.

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