O uso da inteligência artificial e o apagamento do desejo
A inteligência artificial nos promete lembrar de tudo e corrigir nossos erros, mas pode nos fazer esquecer do que realmente importa
Guilherme Henderson
atualizado
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Vivemos em uma época em que a inteligência artificial nos promete lembrar de tudo, corrigir erros e otimizar o tempo. Mas a que custo? Na pressa de garantir desempenho frente às demandas, podemos estar apagando aquilo que mais nos constitui: o desejo.
Após algum tempo solteiro, envolvi-me com alguém que realmente me interessava. Num dos primeiros encontros, ele esqueceu uma correntinha de prata na minha casa, uma ótima desculpa para nos vermos de novo. Fomos ao cinema. Além da química e do gosto pela arte, a conversa parecia fluir naturalmente. Mais um ou dois encontros vieram, nos quais a correntinha não chegou ao seu destino.
Aos poucos, surgiu um mal-estar. Eu me mostrava presente e interessado, mas não via reciprocidade. Fui me sentindo desvalorizado e cogitei ir embora. No nosso último encontro antes de uma viagem que eu iria fazer, acabei esquecendo, de novo, a correntinha no meu bolso. Ele parecia já nem se importar. E, sem perceber, coloquei-a na minha mochila e acabei levando-a comigo para essa lua de mel na Europa: Espanha, Itália, museus, praias, restaurantes e vinhos.
Quando retorno da viagem, marco rapidamente um encontro. Lembro-me de finalmente entregar a correntinha. Comento que, sem querer, a havia levado comigo. Ele, sem demonstrar grandes emoções, me diz: “Você sabia que essa correntinha de prata deve valer uns quatro mil reais?”. Surpreso, achava que era uma bijuteria, respondo sem pensar: “Você sabia esse tempo todo o valor dela e não demonstrou nada? Ela vale tudo isso e você a trata como se não fosse nada? Você não cuida das suas coisas? Não tem medo de perder elas?”.
Não é difícil notar que minhas perguntas sobre o objeto refletiam sentimentos e pensamentos que a relação me despertava. Não por acaso, a partir delas, finalmente conversamos sobre esses incômodos.
A maneira como nos relacionamos com nossos objetos, e não por acaso com nossos objetos mais preciosos, revela como nos guiamos na vida amorosa e desejante. “Você só perde os óculos que eu te dou!” vocifera a namorada indignada frente ao descuido do companheiro. O noivado que começa com um dos envolvidos perdendo a aliança não parece pressagiar um bom destino. Uma chave do carro perdida minutos antes de o infiel encontrar a amante não deixará de lhe alertar sobre alguma coisa. Todas essas ações descuidadas com objetos, aparentemente despropositadas, têm um nome na psicanálise: chamam-se ações sintomáticas.
Freud, em A Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901), mostra que, apesar do senso comum atribuí-las ao cansaço ou distração, essas ações são manifestações do inconsciente estudadas pela psicanálise. Relatos como esse apresentado nos mostram o quanto esses atos possuem um sentido, podem ser interpretados e são reveladores de um saber inconsciente a respeito do desejo daquele que os produz.
Mas, seguindo rumo ao pior, a contemporaneidade tem dado cada vez menos espaço para a análise dessas manifestações, e isso não é sem consequências. O uso da inteligência artificial é um bom exemplo da mais nova forma de nos furtar ao valor da interpretação desses deslizes.
O exemplo mais desconcertante que encontrei foi uma apresentação do TED sobre os novos óculos da Google com IA integrada, a Gemini. Esses óculos são capazes de gravar informações captadas por sua câmera e comunicá-las ao seu usuário. A palestrante está usando os óculos, leva a mão até eles, como quem consulta uma certa vidência, e pergunta à Gemini: “Eu perdi a chave do hotel. Você sabe onde eu a deixei?”. A IA responde com precisão: “A chave do hotel está ao lado do aparelho de som.”.
O comentário recorrente nas redes sociais é de que esses “são os óculos perfeitos para pessoas com TDAH”. Esses óculos e sua IA surgem aqui como a tadalafila de um valor cada vez mais enaltecido em nossa sociedade: a atenção. Eles vendem a ilusão de que seremos capazes de não deixar nada escapar da nossa memória. Parecem nos oferecer um ganho de performance, agilidade, perfeição. Mas o que podemos perder nesse processo?.
E se eu tivesse pedido para que a Gemini me lembrasse de entregar a correntinha?. Se o noivo lembrasse de cuidar da aliança apenas porque a IA não o deixa esquecer?. Se o infiel pedisse para ela localizar onde estava a chave do seu carro?. A que rumo isso nos leva?. É preciso dizer: tudo aquilo relativo ao desejo, e à sua interpretação, terá desaparecido. Aquilo que era a desculpa para uma boa conversa, um encontro, um conflito, um esclarecimento, terá se tornado apenas um problema de memória e de atenção. Com o tempo, e não estamos longe disso, ninguém se sentirá confrontado ou convocado a sustentar qualquer posição desejante.
Chamamos de brain rot a deterioração cognitiva causada pelo uso excessivo de tecnologias que pensam por nós. Mas será que essa deterioração não é também afetiva e desejante?. Quanto mais as pessoas deixarem de interrogar seus deslizes, seus atos falhos, seus lapsos de escrita, suas perdas de objetos, seus esquecimentos, mais frágeis estarão do ponto de vista psíquico. E mais próximas das patologias da autoestima, da impostura e da depressão.
Talvez a pergunta que reste seja: e você, o que anda esquecendo por aí, como tem cuidado dos seus objetos, sabe o que isso tem a dizer sobre o seu desejo?.
A psicopatologia da vida cotidiana: psicanálise, sociedade e cultura.
- Guilherme Freitas Henderson é psicanalista , doutor e mestre em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB). Ele é graduado em Psicologia pela mesma universidade, com período sanduíche na Universidad de la República – Udelar (Uruguay). Guilherme é membro da Associação Lacaniana de Brasília e reside em Brasília (DF).
