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Leilane Menezes

TV Cultura / Reprodução

Roda Viva x Manuela D’Ávila: lição de como não conversar com mulheres

Leilane Menezes
 

Poucas mulheres desconhecem o olhar de desdém estampado no rosto dos homens entrevistadores do Roda Vida diante de Manuela D’Ávila, no programa exibido nessa segunda-feira (25/6).

É o mesmo tom que corremos o risco de enfrentar no dia a dia quando ousamos contrariar o interlocutor, discordar dele. O Roda Viva soou como uma versão televisionada dos almoços de domingo com parentes conservadores.

A pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB foi interrompida 62 vezes enquanto tentava apresentar suas ideias. Quando Ciro Gomes, na disputa eleitoral pelo PDT, participou de sabatina semelhante teve somente 8 intervenções enquanto desenvolvia raciocínio.

Manuela D’Ávila entrou na política aos 17 anos como a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre, em 2004. Atuou como deputada federal, em 2006, com reeleição em 2010, e recorde de votos. No pleito mais recente, elegeu-se deputada estadual.

Aos 36 anos, ela se apresenta como mulher de esquerda e feminista, e quer presidir o país. Como pessoa branca e de classe média, está longe de ser “a” voz do feminismo no Brasil, simplesmente porque essa unidade não existe.

Trata-se, porém, de um nome relevante para quem defende Direitos Humanos por ter a coragem de trazer ao centro do debate a cultura do estupro, o aborto como questão de saúde pública e assuntos relacionados à diversidade sexual.

Concordando ou não com suas ideias, esse é o currículo de Manuela. Ao se colocar no centro de uma arena sedenta por desconstruí-la, a deputada andou na selva brava. Riu na cara do perigo, como uma leoa diante de hienas.

Fez como heroínas libertárias de seu livro favorito, A Mulher Habitada, da escritora, poetisa e revolucionária nicaraguense Gioconda Belli, o qual indicou a leitura no fim do papo. “Coisas que não decidi acabaram decidindo minha vida: o país onde nasci e o sexo com que vim ao mundo”, diz trecho da obra.

Para quem quiser entender um pouco mais sobre as críticas à postura dos entrevistadores, seguem observações sobre como conversar com mulheres:

Deixa ela falar!
Fica a pergunta: você conversa de igual para igual ou dá aulas e palestras quando fala com elas? Entrevistados tentaram ensinar à Manuela, inclusive, sobre o que é comunismo, um tema estudado por ela há, no mínimo, 20 anos, desde que ingressou no PCdoB. Existem termos para definir esse tipo de conduta:

Reprodução do Facebook

 

Respeite as respostas recebidas
Frederico D’Ávila, um dos entrevistadores do Roda Viva e coordenador da campanha de Jair Bolsonaro, questionou se Manuela era a favor da castração química de estupradores.

A pré-candidata tentou argumentar com profundidade sobre o tema, mas o entrevistador exigia uma resposta rasa. Você não precisa concordar com o que escuta, mas, se não quiser ser desrespeitoso, precisa deixar que uma mulher formule as próprias falas em um diálogo.

Ela não está ali para dizer o que você quer ouvir. Fazer a mesma pergunta repetidas vezes até conseguir a resposta desejada não é conversar (ou entrevistar), é coagir.

Reprodução do Facebook

Não menospreze ambições femininas
Foi questionado mais de uma vez se Manuela desistiria da candidatura ou sairia como vice. Também perguntaram a razão pela qual ela não se contentou em ser governadora do Rio do Grande do Sul, cargo ao qual tinha mais chances reais, segundo interlocutores.

Aqui, pego emprestadas palavras da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie para explicar a problemática:

“Quanto mais duro um homem acha que deve ser, mais fraco será seu ego. E criamos as meninas de uma maneira bastante perniciosa, porque as ensinamos a cuidar do ego frágil do sexo masculino. Ensinamos as meninas a se encolher, a se diminuir, dizendo-lhes:

Você pode ter ambição, mas não muita. Deve almejar o sucesso, mas não muito. Senão você ameaça o homem. Se você é a provedora da família, finja que não é, sobretudo em público. Senão você estará emasculando o homem.”

Não condicione a existência dela à aprovação masculina
Na entrevista, o foco muitas vezes parou em Lula, Orlando Silva (colega de partido de Manuela), Nicolás Maduro, Stalin…Um dos trechos polêmicos foi a questão sobre o ex-presidente Lula, atualmente preso, ter dito que Manuela era uma “garota bonita”.

“Ele também se referiu a mim como uma mulher que acredita na política e que pertence a uma geração que vai transformar ela”, afirmou Manuela. Se Lula é machista, isso não diz respeito à Manuela, que estava ali para debater as próprias ideias, e não para responder pelo comportamento de um homem, seja ele quem for.

 
 


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