Quem vai olhar para a dor e a violência nossa de cada dia?

"O peso de golpear, disparar uma arma, de cortar uma carne, dá voz a um grito que revela desespero, impotência e despreparo"

YANKA ROMAO/METRÓPOLESYANKA ROMAO/METRÓPOLES

atualizado 04/08/2019 21:09

O peso fulminante de um assassinato e seu desfecho final (que não deixa qualquer espaço para a vítima argumentar), cala não somente uma voz: emudece muitas outras também. O despreparo pro diálogo – elemento que concilia e dá ouvido às vozes dos envolvidos no conflito e seus anseios – conduz à tentação de ceder ante os apelos das exigências tirânicas de nós mesmos.

Essa ausência do entendimento mútuo fala de feridas muito profundas, dilacerantes… Dores que acreditam existir uma única saída para se expressarem e vencerem a disputa do momento: a violência de um golpe e, em casos extremos, o assassinato. As consequências deste ato não devastam unicamente a vítima e seus familiares. Arrasam, também, o autor do crime e todos os que com ele se relacionam. Será necessário assumir, encarar e conviver com o que fez – perante si mesmo e a sociedade.

E para se reajustar ante a própria consciência e sentir-se quite em sociedade, o criminoso (seja ele homem ou mulher) precisará encarar as consequências de seu ato e cumprir uma pena que o restitua a dignidade – ainda que nunca retire a marca da responsabilidade perene de ter ferido ou calado uma voz pra sempre.

Diante de tanta dor e devastação emocional, surgem algumas perguntas:

Quem vai se antecipar à violência, alimentando em si e nos outros, uma cultura de paz?

Quem vai agir antes que a dor se torne uma pulsão interna tão forte, que precise se exteriorizar por meio de um golpe desferido?

Quando educaremos a nós mesmos e a nossos filhos de forma a lidar melhor com a frustração?

Quando aprenderemos e ensinaremos as bases de uma comunicação não-violenta, que promove o encontro saudável entre duas visões discordantes, reconhecendo ambas como dignas de expressão e respeito?

Como antecipar o treino para o diálogo, acolher a dor e educar as atitudes para prevenir que a violência seja a única solução em vista?

A dor de quem violenta e assassina também existe

O peso de golpear, disparar uma arma, de cortar uma carne, dá voz a um grito que revela desespero, impotência e despreparo diante das frustrações da vida. Quando teremos, nas escolas, matérias decisivas na formação humana ladeando matemática e história? Ensinamentos preciosos, tais como: noções básicas de como lidar com a frustração; reconhecimento e respeito pela diferença de pensamentos; gerenciamento de conflito básico e avançado; treinamentos de comunicação não-violenta e controle emocional, por exemplo?

Longe de ser utopia, existem inúmeros grupos de estudo e empresas investindo nestes treinamentos, que podem claramente adentrar os muros das escolas e faculdades, e figurar em suas grades acadêmicas. A chave é viabilizar e fomentar o acesso a esta cultura de paz, justamente na época em que os seres estão mais abertos e receptivos ao aprendizado, como as ‘esponjas’ que são nas fases iniciais da vida.

A paz começa em mim e começa, também, em casa

Além de olhar com profunda empatia para a dor da vítima, amparando-a e fortalecendo-a para que possa se recuperar, se reerguer e recuperar sua voz, é fundamental, também, ampliar a visão para a dor da pessoa que encontra, na violência, a saída fácil pra seu desespero e despreparo na lida com o outro. Nada o justifica. Por outro lado, quem o treina para reagir de forma diferente? Fortalecendo e capacitando seu livre arbítrio para o momento em que o equilíbrio de suas emoções for desafiado? A mãe, o pai, a escola e o Estado – todos podem colaborar com seu quinhão para estimular esta cultura de paz nos cidadãos.

E ainda que a violência precise ser avaliada de um ponto de vista complexo e multifatorial, e que cada indivíduo, independente da educação que teve, agirá da forma que escolher agir na hora decisiva, sabemos que a educação pode minorar, e muito, os impulsos que o movem na vida adulta. Com adultos exemplificando e ensinando os pequenos a como tratar as outras pessoas em sociedade, uma vez que esta criança se torne um adulto, poderá estar melhor preparada para exercer seu livre arbítrio com sabedoria: assumindo escolhas e consequências.

Constelações familiares mostram as dinâmicas ocultas da violência

Dentro do contexto das constelações familiares, há um dado intrigante. Em conversas com o juiz de direito do estado da Bahia, Sami Storch – primeiro magistado a utilizar as constelações familiares nos tribunais – ele ressalta que, em muitos casos de violência entre casais, existe um ponto bastante comum:

Boa parte dos homens agressores, por razões diversas (sem julgamento de valor de quais sejam estas razões), perderam suas mães cedo ou não tiveram acesso às mesmas na infância. Muitos deles também não puderam contar com o limite de um pai, que não esteve presente em seus anos formativos, igualmente por razões diversas (sem julgamento de valor de quais sejam estas razões).

Segundo o juiz, durante tais constelações, é comum se revelar, em muitos casos, uma dor profunda dessa falta familiar, levando-os a deslocar para a companheira – inconscientemente – a pressão do medo de perder, novamente, “a mãe” nela projetada.

Então, num ato de desespero diante da iminência de reviver aquela dor, e sem noções conclusivas de limites e de como lidar com a frustração (em geral, ensinados e impostos pelo pai), tais homens abandonam-se à violência: subjugam suas mulheres à força, num arroubo deste amor cego, desorientado e confuso. Também é importante observar, o quanto é comum que isso se repita ao longo de diversas gerações.

Paz e tolerância são frutos de uma construção

Novamente, repito: nada, absolutamente nada justifica e exime o autor de um ato violento. Ainda assim, fecharmos os olhos para a dor de quem comete o crime, tampouco, auxiliará a cura deste contexto real e tangível, tão comum em nossa sociedade. A justiça julga, dá limites, pune e, em alguns casos, investe em reabilitar homens e mulheres dentro das cadeias. Já existem belíssimos programas de constelações familiares (entre outras práticas de consciência e conciliação) no cárcere.

Tais projetos oportunizam que os prisioneiros compreendam a dor inconsciente por trás do impulso do ato de violência praticado. Olhar para esta dor os fortalece para que possam assumir a responsabilidade pelo que cometeram, bem como se pacificarem com relação à pena que precisam cumprir. Com a penalidade bem compreendida e vivenciada, as pessoas têm mais chances de dignificarem-se novamente: perante si mesmas e perante a sociedade.

A paz começa em mim, começa em nós

Quanto a nós, cidadãos, que estejamos conscientes da violência nossa de cada dia: existem ferramentas incríveis de autoconhecimento e autocontrole sendo aplicadas por profissionais, mediadores e pacificadores no mundo todo. Despertemos e façamos uso: conosco mesmos, em família e em sociedade! Reconhecer que também somos violentos, e que a paz e a tolerância são virtudes que podem ser aprendidas e construídas (no tempo que levar para isso), é atitude de humildade: ou seja, pé-no-chão da realidade!

Que possamos, especialmente mães e pais, nos responsabilizarmos por estimular o acesso de nós mesmos e de nossos filhos a esta cultura de paz. Assim, assumimos nosso papel de treinadores e pacificadores que moldam o caráter dos homens e mulheres do aqui e agora, e do futuro.

 

Daniela Migliari é jornalista e escritora, e pós-graduanda em Constelações Familiares pela Escola Hellinger

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