O que o deprimido precisa ter coragem de saber

E se, no fundo, a depressão envolvesse uma forma de covardia?

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Imagem mostra um corte da pintura Anjo Caído, de Alexandre Cabanel
1 de 1 Imagem mostra um corte da pintura Anjo Caído, de Alexandre Cabanel - Foto: Reprodução

Você já sabe que deveria fazer terapia. Já sabe que o exercício físico ajuda, que dormir bem importa, que é bom tentar manter alguma rotina. Existe um mercado inteiro de livros de autoajuda, podcasts motivacionais, aplicativos de meditação e especialistas em bem-estar que não cansa de lhe dizer o que fazer. E ainda assim você não faz. Ou faz, seguindo cada passo prescrito com disciplina, e nada muda de verdade. A depressão continua lá, como uma presença obstinada, indiferente à sua obediência.

O que falta, então? A coragem de saber. E a psicanálise pode ser uma saída.

A psicanálise lacaniana propõe uma resposta que, à primeira escuta, pode soar dura demais, até mesmo injusta: o deprimido sofre de uma covardia moral. Não abandone o texto aqui. Siga até o final, ou retome mais tarde. Essa expressão, formulada por Jacques Lacan e amplamente desenvolvida por uma série de psicanalistas brasileiros como Maria Rita Kehl e Antônio Teixeira não é um insulto nem um diagnóstico moral no sentido tradicional.

Não se trata de dizer que o deprimido é uma pessoa de mau caráter, sem coragem diante dos perigos da vida, fraco ou irresponsável. A covardia de que se fala aqui é de outra natureza: é uma covardia diante de si mesmo. É o recuo diante do próprio desejo.

O psicanalista Antônio Teixeira, ao comentar essa passagem de Lacan, lembra que a palavra francesa usada no original, lâcheté, carrega o sentido de frouxidão, de ausência de tensão. Não necessariamente a frouxidão daquele que foge do perigo físico, mas a frouxidão do sujeito que não sustenta a tensão necessária para se situar diante da própria vida.

Quem se comporta como um frouxo, nesse sentido, é quem não consegue se manter firme diante do que é mais propriamente seu: sua palavra, seu próprio pensamento, sua posição como sujeito do inconsciente nesse pensamento.

O que este texto propõe é que você (seja você a pessoa que sofre com a depressão, seja o profissional que acompanha alguém nesse sofrimento) tenha coragem de se aproximar dessa ideia. Não para se culpar mais do que já se culpa. Não para encontrar mais um fardo a carregar. Mas para começar a entender, com mais precisão, de onde vem a dor que te acomete ou que se produz. Porque quem busca conhecer as causas de seu sofrimento pode adquirir alguma liberdade diante dele. E é dessa liberdade, e não do conforto do sintoma, que pode nascer uma vida que valha a pena ser vivida.

Você não está deprimido por acidente: você abriu mão de algo muito importante

A primeira coisa que a psicanálise lacaniana propõe, e que distingue radicalmente sua abordagem da maior parte das psicologias contemporâneas, é que a depressão não é apenas um estado que acontece ao sujeito. Não é uma doença que caiu sobre você sem aviso. Não é simplesmente um desequilíbrio de neurotransmissores que, corrigido com o medicamento certo, será resolvido. A depressão é, antes de tudo, uma posição: a posição que o sujeito ocupa em relação a si mesmo, ao seu desejo e à sua vida.

Isso não significa dizer que o deprimido escolheu, conscientemente e de forma deliberada, estar deprimido. Ninguém faz isso. O que a psicanálise propõe é algo mais sutil e, ao mesmo tempo, mais perturbador: que existe, na origem de muitos estados depressivos, um movimento inconsciente de recuo, um recuo diante do próprio desejo, diante da vida que poderia ser vivida, diante dos desafios e riscos que qualquer existência genuinamente comprometida exige.

Lacan é direto ao dizer, em seu texto Televisão (1973): a tristeza depressiva não é um estado da alma, é uma covardia. Covardia não no sentido moral ingênuo: covardia aqui é rechaçar o inconsciente, isto é, a responsabilidade que cada sujeito tem de se situar diante da estrutura que o determina, de não se esquivar de querer saber sobre essa estrutura e se posicionar diante dela.

Teixeira, ao aprofundar essa leitura, ilustra o argumento com uma imagem precisa: os que se entregam à tristeza estão como que submersos no inferno numa água morna, de onde saem apenas para emitir lamúrias sem consequência: farrapos de palavras sem força, sem convicção, sem dicção, sem direção. A tristeza depressiva, nessa leitura, é uma acedia: palavra latina que vem do grego a-kedia, que significa literalmente não tomar cuidado, não zelar, deixar para lá.

O deprimido sofre de um “não querer nada saber” que não é inocente, mas que tem a forma de uma recusa ética do pensamento, do cuidado de si e do outro. Ele tem extremas dificuldades de conseguir se posicionar numa conversa, numa crítica que recebe, ou gostaria de realizar, ou até mesmo numa injúria que sofre, ou gostaria de colocar. Para se esquivar de ter que se posicionar é capaz de “deixar pra lá” das mais variadas formas: com silêncios, distrações, ou se gabar-se narcisicamente de seu caráter de nunca entrar numa discussão, que esconde, muitas vezes, a inibição estrutural.

O ponto central é este: o deprimido pretende sofrer de um estado de alma, de algo que lhe caiu sobre os ombros sem que ele tenha nada a ver com isso. Mas a psicanálise propõe que, por trás desse estado, existe uma posição, uma escolha inconsciente, e que parte do sofrimento depressivo vem exatamente do fato de o sujeito, no fundo, saber disso. Não sabe de forma clara, não sabe como analisar em linguagem técnica, mas sente o peso dessa escolha em cada aspecto de sua vida. É desse saber velado que vem a culpa legítima do deprimido.

O desejo é o que te mantém vivo, e você o trocou por outra coisa

Para entender o que está em jogo na depressão, é preciso entender o que a psicanálise lacaniana quer dizer com desejo. E aqui é preciso ter cuidado, porque a palavra é usada no cotidiano de um modo muito diferente do sentido que Lacan lhe dá.

No senso comum, desejo é sinônimo de vontade: quero comer isso, quero comprar aquilo, quero estar com essa pessoa. São desejos que se satisfazem, que chegam ao seu objeto e se completam. Lacan, porém, situa o desejo em outro registro. Para ele, o desejo é por definição inconsciente, e seu objeto, perdido. Isso significa que o desejo não é a busca por algo que ainda não temos e que, uma vez encontrado, nos completará. O desejo é a própria articulação que move o sujeito na direção de algo que nunca se encontra por inteiro, que sempre escapa um pouco, que sempre deixa um resto.

Lacan situa o desejo como algo que nunca se satisfaz plenamente: ele se desloca, representando de modo fragmentário o ser perdido na entrada na linguagem. Isso tem uma consequência decisiva: ceder do desejo não é apenas abrir mão de algo que se quer. É abrir mão de tocar o ser. É, no limite, desistir de existir como sujeito.

As moções do desejo, mesmo as pequenas, as aparentemente banais, as que parecem sem importância, são os fragmentos pelos quais o sujeito toca algo do ser. Quando o sujeito os abandona, quando os troca pela comodidade ou pela demanda do outro, algo essencial se apaga: a alma. E é desse apagamento que se alimenta a tristeza depressiva: o mundo perde o brilho, as coisas perdem o interesse, a vida parece desprovida de sentido. Não porque o mundo mudou, mas porque o sujeito abdicou do ponto de onde o mundo poderia fazer sentido para ele.

O deprimido fez exatamente essa troca: trocou a via do desejo, periclitante, incerta, trabalhosa, nunca garantida, pela demanda do Outro. Pela segurança imaginária de permanecer no lugar que o outro espera que ele ocupe. Pela proteção que parece oferecer o não se expor, o não arriscar, o não entrar em campo. Essa troca tem um custo altíssimo. O deprimido paga o preço dessa negociação com seu próprio ser: vazio subjetivo, sentimento de insuficiência, impossibilidade de se alegrar com o que quer que seja.

E o outro paga também. Porque quando alguém cede de seu desejo em função da demanda de outrem, não apenas se perde: priva também o outro da possibilidade de um encontro genuíno. Um encontro que só pode acontecer entre sujeitos desejantes.

Você cai antes de cair: e disso vem a vergonha que você carrega

O psicanalista Mauro Mendes Dias cunhou uma expressão feliz e precisa para descrever o movimento particular do deprimido: ele cai antes da queda. É também com essa formulação de Mauro que Kehl trabalha ao desenvolver sua análise clínica da depressão. Para entender o peso dessa formulação, é preciso primeiro entender o que é a queda que todo sujeito, não apenas o deprimido, é chamado a atravessar.

Todo ser humano que se lança na vida, que entra em campo, que disputa, que tenta, que arrisca, está sujeito à derrota. Os projetos não dão sempre certo. Os relacionamentos não correspondem sempre ao que esperávamos. Os ideais que carregávamos na juventude vão sofrendo os desgastes do contato com a realidade. Isso é o que a psicanálise chama de castração, não no sentido literal da palavra, mas no sentido de que todo sujeito, ao viver de fato, descobre que há limites: limites do próprio corpo, dos próprios talentos, da própria posição no mundo.

Essa descoberta dói. Mas também constitui. O sujeito que atravessa essa queda, que entra em rivalidade, perde batalhas, se reconstrói a partir delas, ganha algo que não se compra: conhece seus recursos reais, conhece seus limites reais, e carrega as marcas dessa experiência como uma identidade forjada no enfrentamento.

O deprimido, diferentemente, não chega até aí. Ele antecipa a derrota. Percebe, ou imagina, os riscos que o campo de batalha apresenta, e recua antes de entrar. Cai em depressão antes da queda. Essa estratégia tem, na origem, uma lógica: se eu nunca entrar em campo, nunca serei derrotado. Se eu nunca me expuser, nunca serei humilhado. Se eu nunca tentar, nunca terei que encarar meus limites.

O problema é que essa lógica produz exatamente o que o deprimido temia: a derrota. Só que é uma derrota sem batalha. Uma derrota sem cicatrizes, sem máculas que ensinam e, portanto, sem a possibilidade de aprender com ela, de se reconstruir, de tentar de novo de outro modo. O deprimido pretende-se um ser imaculado.

E há mais: ao nunca se colocar à prova, o deprimido não sabe do que é capaz. Preserva, no fundo de si, uma fantasia secreta de onipotência: “Se eu tivesse tentado de verdade, teria conseguido”, ao mesmo tempo em que se apresenta ao mundo e a si mesmo como impotente, como alguém que “não pode ou não tem nada para dar”.

Essa é uma das dimensões mais dolorosas da posição depressiva: a impotência declarada é a contrapartida de uma pretensão onipotente que jamais foi colocada à prova. O deprimido é, ao mesmo tempo, o gênio não reconhecido e o fracassado confirmado, e a tragédia é que, ao não tentar, ele se mantém aprisionado em algumas dessas duas fantasias.

É dessa posição que vem a vergonha que o deprimido carrega. Não é exatamente a vergonha de ter perdido, mas a vergonha de não ter jogado. De saber, em algum lugar que não se quer olhar diretamente, que se escolheu a saída mais curta. Que se abandonou a campo sem nem ao menos tentar, que se instalou na condição de castrado não porque foi derrotado em boa batalha, mas para se esquivar.

Você não fracassou, você se adaptou demais

Uma contribuição preciosa para entender um dos mecanismos que aprisionam o deprimido vem da filosofia da história e da melancolia. Maria Rita Kehl, ao articular Walter Benjamin com Lacan, mostra que há uma tendência de identificar a história dos que chegaram ao poder com o triunfo inevitável do Bem. Quem venceu, venceu porque merecia; quem perdeu, perdeu porque assim deveria ser. Essa visão tem uma função muito específica: anular qualquer possibilidade de transformação. Não por acaso que, a longo prazo, os deprimidos tendem a se aproximar de discursos conservadores.

O que interessa aqui não é o debate historiográfico, mas o mecanismo psíquico por trás dessa postura: a identificação afetiva com os vencedores. O sujeito que adota o fatalismo, que aceita a ordem das coisas como se ela fosse natural e inevitável, está, no fundo, se colocando ao lado de quem já ganhou. É mais seguro. É mais confortável. Não exige o risco de brigar por uma posição própria. Mas esse conforto tem um nome: traição. Traição do próprio pensamento, da própria crítica, do próprio desejo.

Esse fatalismo melancólico tem sua origem na acedia, na preguiça do coração, a tristeza que se afunda em si mesma sem fazer nada. O melancólico, capturado pela preguiça, sente o peso de uma fatalidade todo-poderosa que torna qualquer ação humana sem valor. E diante dessa fatalidade, a única saída que lhe parece disponível é se juntar ao campo do vencedor, se curvar à ordem estabelecida, abrir mão de qualquer projeto próprio.

A identificação afetiva com os vencedores é análoga à covardia moral de que Lacan fala, é o mesmo movimento de abrir mão da própria via para se colocar do lado do Bem do Outro. O deprimido que se curva às expectativas familiares, que abandona seu projeto de vida para não criar conflito, que troca seu desejo pelo que o ambiente espera dele, está, nesse sentido, se identificando com os supostos vencedores. E essa identificação, embora pareça uma solução, é a fonte da culpa, da culpa legítima de quem sabe, no fundo, que traiu a si mesmo.

O deprimido não é um rebelde fracassado. É, muitas vezes, alguém excessivamente ajustado: ajustado à demanda do outro, às expectativas da família, aos ideais da bolha que o cerca. Esse ajustamento não é virtude: é a forma que a covardia moral assume quando se veste de adaptação social. É a traição disfarçada de bom comportamento, de conhecimento dos charts, das trends, adaptação a um discurso ou saber homogêneo do Mestre que o permita driblar suas verdadeiras lutas, o saber que realmente importa.

Sua culpa é legítima, e é exatamente por isso que ela não passa

Uma das coisas mais perturbadoras, e ao mesmo tempo mais libertadoras, que a psicanálise lacaniana diz sobre a depressão é que a culpa do deprimido é legítima. Isso é quase um escândalo no universo contemporâneo da saúde mental, que tende a tratar toda culpa como um sintoma a ser tratado, uma distorção cognitiva a ser corrigida, um excesso a ser reduzido.

Lacan formula o que considera a única culpa legítima do ponto de vista da psicanálise: a culpa de quem cedeu do próprio desejo. Essa formulação é precisa e tem consequências clínicas importantes.

E o deprimido, escreve Kehl, tem toda a razão em se sentir culpado. Ele é efetivamente culpado e, em algum nível, sabe muito bem disso, pela posição a partir da qual escolheu viver sua única vida. Não que ele saiba isso de forma consciente e articulada. Mas os efeitos dessa escolha inconsciente se fazem sentir em toda a sua vida subjetiva. A dor moral do deprimido, diferente da tristeza, do luto e da angústia, tem esse componente específico: é a dor de quem traiu a si mesmo e, sem saber exatamente o que traiu, carrega o peso dessa traição.

Isso explica um fenômeno que clínicos que trabalham com deprimidos conhecem bem: a ineficácia da racionalização para dissipar a culpa depressiva. Não funciona clinicamente desculpar os deprimidos. O deprimido pode ser confrontado com evidências de que não fez nada de errado, de que não tem por que se sentir culpado, de que as circunstâncias eram difíceis e ele fez o que pôde. E, ainda assim, a culpa permanece. Permanece porque não é uma culpa sobre um ato específico: é uma culpa sobre uma posição, sobre uma escolha de vida que atravessa tudo. E essa culpa só pode ser trabalhada se a posição que a originou for objeto de análise.

A culpa legítima, quando reconhecida, não condena: aponta. Ela aponta para o desejo que foi abandonado e que pode, talvez, ser retomado, reformulado ou sustentado.

O quarto, as telas ou o sono não são um refúgio: são onde a depressão se alimenta

É lugar-comum dizer que algumas pessoas não conseguem sair do quarto, da cama, da tela do celular porque estão deprimidas. Mas podemos abordar esse fenômeno no sentido inverso: primeiro o sujeito se retira do mundo, das relações, dos desafios, dos vínculos sociais, dos projetos compartilhados. Depois, como resultado dessa retirada, deprime-se. Daí em diante, recolhimento e depressão se alimentam mutuamente.

Isso não é apenas uma inversão de ordem: é uma mudança radical na forma de entender o que está acontecendo. Se o isolamento é causa e não apenas efeito da depressão, então permanecer no quarto não é cuidado: é alimentar o próprio sofrimento. O quarto que parece proteger é, na verdade, o lugar onde a depressão encontra as condições ideais para se aprofundar.

Por que o deprimido se retira? Para entender isso, é preciso considerar a natureza particular da relação do deprimido com a figura materna, e, por extensão, com o Outro em geral. O deprimido, em sua história, construiu uma posição muito específica: a de se oferecer ao Outro como castrado, como “aquele que sem o Outro não pode nada”. Essa posição tem uma função: é a tentativa de permanecer protegido, de não ter que enfrentar os riscos da rivalidade, da separação, da independência. É, no fundo, uma tentativa de evitar o que a psicanálise chama de angústia de castração, o encontro com os próprios limites, com a existência do outro, com a impossibilidade de ser tudo para alguém.

O paradoxo da retirada é cruel: ao se encolher no quarto, ao se afastar do mundo, o deprimido acredita estar se protegendo. Mas o que faz, na prática, é se colocar cada vez mais no colo do Outro, porque, quanto mais se isola, mais depende da proteção que o ambiente familiar ou doméstico oferece. A retirada não protege: captura.

Você provavelmente tem talentos reais que nunca colocou à prova

É quase um lugar-comum na clínica com deprimidos: a pessoa que se sente um talento desperdiçado, uma inteligência incompreendida, alguém que poderia ter sido muito mais “se as coisas tivessem sido diferentes”. Essa narrativa costuma ser recebida com ceticismo, como grandiosidade compensatória, como defesa narcísica, como uma forma de justificar o não-fazer.

Mas Kehl vai na direção oposta: o deprimido frequentemente tem talentos reais que nunca colocou à prova. Não é apenas uma fantasia. É que o deprimido, ao recuar da rivalidade, ao não se expor, ao não entrar no campo em que os outros jogam, nunca descobriu o que realmente é capaz de fazer. Sua potência, criativa, intelectual e relacional existe, mas permanece em estado latente, como um motor que nunca foi ligado.

Não é de falta de talento. É de falta de aposta. O deprimido não aposta em si mesmo. Preferiu a segurança imaginária do “eu poderia ter sido” à exposição real do “eu vou tentar”. E, ao não tentar, nunca descobriu nem o que conseguiria nem o que não conseguiria. E mesmo quando tenta e logra, disfarça sua tentativa como um mero acontecimento, como algo fácil, sem valor, coincidência do destino. Ele permanece numa posição de indiferença diante de tudo o que poderia seduzi-lo e orgulhá-lo: os objetos brilhantes da vida, as oportunidades, os convites, porque para se interessar por algo é preciso estar disposto a tentar, e tentar implica o risco de perder.

Quando, depois de um tempo de análise, o deprimido começa a se arriscar, quando decide tentar inscrever seu nome em algo, quando ousa participar de algo que importa para ele, o que aparece não é, imediatamente, alegria ou confiança. O que aparece é ansiedade. Agitação. Fantasias que tanto podem ser de fracasso humilhante quanto de triunfo exagerado. Isso assusta.

Mas é sinal de movimento. É o deprimido se confrontando, talvez pela primeira vez de modo real, com a existência do mundo e dos outros. Com o fato de que haverá julgamento, comparação, possibilidade de perda. Kehl é precisa ao distinguir essa ansiedade da mania. A agitação ansiosa do deprimido que se arrisca é de natureza muito diferente do episódio maníaco. É a angústia no tratamento, o sinal de que o sujeito está, finalmente, entrando no campo onde se joga a vida de verdade.

Falar sobre sua família em análise não é fraqueza — é o ponto de partida

Muitos deprimidos resistem a falar sobre a família de origem. Sentem que é uma espécie de ingratidão, uma acusação injusta a pessoas que, afinal, “fizeram o que puderam”. Outros já falam sobre a família, mas de um modo que não avança, repetindo as mesmas histórias, os mesmos ressentimentos, sem que nada se mova. A análise não propõe culpar os pais nem absolvê-los. Propõe entender uma estrutura.

Kehl descreve, com precisão, a constelação que frequentemente aparece na história do deprimido: de um lado, uma mãe superprotetora, não necessariamente por maldade, mas por uma necessidade própria de manter o filho em posição de dependência, ora de representá-lo como eterno necessitado de seus cuidados, ora como aquele que supre os cuidados da mãe. Do outro lado, um pai que se comporta como pouco interessado, distante, ou que foi ativa ou passivamente excluído da relação mãe-filho pela própria dinâmica familiar.

Essa configuração não é um destino. Mas tem efeitos. A criança que cresce nesse ambiente enfrenta um desafio específico: para crescer, se separar da mãe, entrar no mundo, para descobrir sua própria posição, ela precisaria de um confronto com a figura paterna. Não um confronto destrutivo, mas um confronto que a situa: que lhe diz que o desejo da mãe não é exclusivamente por ela, que existe um mundo além dos dois, que há outros.

Quando o pai está ausente, desinteressado ou desqualificado pela mãe, essa operação não se realiza bem. A rivalidade com uma figura paterna pouco amorosa ou distante é muito mais ameaçadora para a criança, justamente porque, para entrar em rivalidade com alguém, é preciso confiar que o amor desse alguém serve de proteção. Um pai que não demonstra amor torna impossível a rivalidade saudável. E sem rivalidade, sem o enfrentamento com o pai, sem brigas saudáveis, a criança fica num impasse: ou se mantém presa à mãe, ou se lança num mundo que parece muito grande e sem suporte.

O deprimido escolheu, em geral, a primeira saída: permanecer junto à mãe, evitar a rivalidade com o pai, não entrar no jogo. E o que fez com a agressividade que sente, pelo confinamento, pela dependência, pela posição em que se colocou? Voltou-a sobre si mesmo. A autodestrutividade silenciosa do deprimido, o desleixo consigo, o sabotamento de seus próprios projetos, a incapacidade de se cuidar de verdade, resulta frequentemente desse retorno sobre o próprio eu das pulsões agressivas cujo alvo original seria o Outro todo-poderoso.

Falar sobre tudo isso em análise não é uma traição à família. É o começo de uma compreensão que pode levar a uma posição diferente, uma posição em que o sujeito não precisa mais ser definido pelas relações que o formaram, e pode começar a construir algo que seja genuinamente novo e seu.

A medicação alivia, mas não resolve o que está na origem

Não se trata aqui de ser contra a medicação psiquiátrica. Em muitos casos, os antidepressivos são o que torna possível que a pessoa chegue ao consultório, que tenha forças mínimas para falar, que suporte o peso do dia sem desmoronar completamente. Nenhum analista de bom senso incentivaria um analisando a suspender por conta própria o uso de medicamentos prescritos. E existem situações em que a medicação é indispensável e insubstituível.

Mas há uma distinção importante a fazer, e a psicanálise insiste nela. A normalização que o medicamento produz é de uma natureza específica: ela ajuda o deprimido a cumprir as tarefas cotidianas da vida (trabalhar, comer, dormir, circular) no tempo e no ritmo que o mundo exige. Mas o que ela não faz, na maior parte dos casos, é restituir o sentido. O deprimido medicado pode funcionar melhor e continuar sentindo que a vida não tem interesse genuíno, que nada o convoca de verdade, que tudo é uma obrigação cumprida no piloto automático, como um robô ou uma inteligência artificial.

Lacan propõe um antídoto específico para a covardia moral do deprimido, nomeando-o com uma expressão intrigante e bela: o saber alegre, o prazer de entender as causas do próprio sofrimento. Não é a alegria forçada das terapias positivistas. Ou o saber enlatado e curto dos shorts e vídeos do YouTube. É a alegria, rara, conquistada, às vezes dolorosa, de quem começa a entender e se surpreender com o que o move, por que sente o que sente, de onde vem a posição em que se encontra.

O que a psicanálise oferece é uma experiência com o inconsciente, que é, por definição, atemporal. O inconsciente não obedece aos ritmos do algoritmo nem às exigências da produtividade. Trabalhar analiticamente com a depressão é entrar num tempo outro, o tempo da palavra, da associação, da elaboração, que não pode ser abreviado.

O narcisismo, ou o valor que você dá à sua própria imagem mais atrapalha do que ajuda

O quadro de Cabanel utilizado no início desse texto oferece uma imagem precisa de algo que aparece com frequência na clínica com deprimidos: Lúcifer caiu, mas continua belo. As asas estão intactas. O corpo é esplêndido. A dor não destruiu a aparência; ao contrário, a aparência parece ser o único lugar onde algo ainda se sustenta. E é exatamente aí que mora o problema.

Muitos deprimidos investem de forma intensa e persistente na própria imagem, na aparência física, no modo como se apresentam ao pequeno mundo, na impressão que causam, na reputação que cultivam. Isso pode assumir formas muito diferentes: o cuidado obsessivo com o corpo, a atenção excessiva à roupa e à estética, a pele, a preocupação constante com o que os outros pensam, a necessidade de parecer bem mesmo quando tudo por dentro está em colapso. Em todos esses casos, o que está em jogo é o mesmo: a imagem é cuidada, polida, imaculada, preservada, enquanto o desejo fica extraviado.

O problema não é o cuidado com a aparência em si. O problema é a função que esse cuidado passa a cumprir. Quando o investimento na imagem substitui o investimento no desejo, quando o sujeito gasta sua energia em parecer em vez de tentar, em construir uma fachada em vez de uma obra, a imagem se torna uma defesa contra a vida. É mais seguro ser belo e não arriscar do que arriscar e descobrir os próprios limites reais, o feio na ordem do dia. A imagem pode ser controlada. O desejo, não, pois ele está para além da imagem. E é exatamente por isso que o deprimido prefere investir nela.

Mas esse investimento tem um custo alto: ele mantém a depressão intacta. Porque a depressão se alimenta, entre outras coisas, do vazio produzido pela ausência de aposta real. Quando nada de genuinamente seu é colocado em jogo, quando o sujeito se protege atrás de uma imagem cuidadosamente construída, nada retorna. Nenhum encontro real acontece. Nenhum projeto avança. Nenhuma derrota ensina. E nenhuma vitória satisfaz, porque não foi uma vitória do sujeito: foi uma vitória da imagem. O sujeito, por trás dela, permanece intocado — e vazio.

É por isso que Lúcifer, no quadro de Cabanel, é tão perturbador: ele é belo demais para estar bem. Disfarça na beleza de seu rosto parcialmente escondido suas máculas. A beleza preservada após a queda não é sinal de força, mas sinal de que a queda não foi elaborada. É o sintoma visível de uma ferida que o sujeito decidiu meticulosamente habitar em vez de atravessar. O brilho da imagem é, nesse sentido, inversamente proporcional ao movimento do desejo: quanto mais polida a superfície, mais paralisado o sujeito por trás dela.

Fazer análise é um ato de coragem, talvez o maior que você já fez

O fim de uma análise implica a reformulação do laço com o outro, seria o momento em que o sujeito pode encontrar sua satisfação na ligação com outros, tendo em vista a realização de uma tarefa comum. Não necessariamente uma grande obra, no sentido artístico ou heroico. Mas alguma coisa que se faz com alguém: um projeto, um vínculo, uma criação, uma contribuição. Tornar-se sujeito de verdade exige que o indivíduo ganhe o espaço público, o espaço amoroso, o espaço que está além da família de origem.

É exatamente isso que a depressão impede. O deprimido, ao se recolher, ao recusar o mundo, ao evitar o confronto com os outros e com os desafios do laço social e amoroso adia indefinidamente esse acabamento. Permanece numa espécie de infância e adolescência sem fim, protegido e aprisionado ao mesmo tempo.

A questão que a psicanálise levanta não é, portanto, “como fazer o deprimido sair do quarto”, mas “o que o mantém lá”. E a resposta, muitas vezes, passa por aquilo que o quarto representa: a ilusão de segurança, o evitamento do confronto, a permanência numa posição que é dolorosa mas conhecida. Trabalhar essa questão em análise é trabalhar a posição do sujeito, e não apenas seus sintomas.

É nesse ponto que a psicanálise representa uma saída singular segundo Kehl. Embora aconteça num espaço privado, o consultório do analista, ela é a primeira saída para o espaço público e para o espaço amoroso que muitos deprimidos ousam empreender. Na sala do analista, o deprimido não está mais dentro do circuito fechado da proteção familiar. Está dirigindo sua palavra a um interlocutor que não está capturado pela mesma rede de demandas e proteções.

E essa diferença, aparentemente pequena, é o começo de algo muito importante: a possibilidade de que as palavras do deprimido comecem a fazer sentido a partir de uma lógica que não é mais a do confinamento. Para isso o analista precisa suportar manter o lugar da demanda vazio.

Buscar análise, especialmente para um deprimido, requer uma coragem que não deve ser subestimada. O deprimido que chega ao consultório carrega, além de todo o peso do sofrimento, algo adicional: a má notícia de sua própria posição subjetiva. Não é fácil ouvir, ainda que de forma indireta, através das associações, dos sonhos, dos lapsos, que existe um recuo na origem de sua dor.

Kehl é direta sobre isso: os deprimidos que buscam a psicanálise são pessoas de coragem. Mais corajosos ainda são aqueles que decidem atravessar o percurso até o fim, com todos os desfiladeiros que se anunciam depois dos primeiros encontros com o analista. Porque a análise não é um processo linear, nem confortável. Há momentos em que as coisas pioram antes de melhorar. Há encontros com verdades difíceis. Há a necessidade de sustentar uma palavra que não encontra eco imediato, que não recebe aprovação imediata.

O título deste texto fala em “coragem de saber”. Não é apenas uma metáfora. É uma convocação. Porque saber, no sentido psicanalítico, o saber inconsciente, o saber que transforma e não apenas conforma, exige enfrentar o que é mais desconfortável em si mesmo. Exige sustentar a tensão de uma palavra verdadeira numa cultura que prefere a palavra vazia, o clichê reconfortante, a solução rápida.

Se você chegou até aqui, lendo, pensando, se reconhecendo em algum ponto, então você já tem o que a análise exige de mais fundamental: a disposição de querer saber. Encore un effort. Mais um esforço. Porque é desse esforço, pequeno, cotidiano e repetido, que se constrói, pouco a pouco, a possibilidade de uma vida que valha a pena ser vivida, mais pública e com mais amor.

Nota do autor: Os argumentos desenvolvidos neste texto foram elaborados a partir do pensamento de Jacques Lacan, especialmente de sua noção de covardia moral presente em Televisão (1973) e no Seminário 7 (A ética da psicanálise); de Maria Rita Kehl, em O Tempo e o Cão: A atualidade das depressões (Boitempo, 2009); de Antônio M. R. Teixeira, em seu artigo ‘Depressão ou lassidão do pensamento? Reflexões sobre o Spinoza de Lacan’ (Psicol. clín., v.20, n.1, 2008); e de Guilherme Henderson, em sua tese de doutorado A condição do desamparo e a vida comum: um horizonte na cura psicanalítica (UnB, 2021).

  • Guilherme Freitas Henderson é psicanalista, doutor e mestre em Psicologia Clínica e Cultura na Universidade de Brasília (UnB). Graduado em Psicologia pela mesma universidade, com período sanduíche na Universidad de la República – Udelar (Uruguay). Guilherme é supervisor de estágio em clínica psicanalítica (Cenfor-CEUB) e professor da pós-graduação Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica (Instituto ESPE). O psicanalista atende adolescentes e adultos e é membro da Associação Lacaniana de Brasília.

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