Transtornos alimentares: o que não estamos escutando

Uma leitura psicanalítica aponta que, além dos critérios médicos, existe uma dimensão subjetiva do comer que é essencial ao tratamento

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atualizado

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Imagem colorida de pessoa comendo biscoito e parecendo forçada - Metropóles
1 de 1 Imagem colorida de pessoa comendo biscoito e parecendo forçada - Metropóles - Foto: gettyimages

O paradigma biomédico descreve com precisão o quê: os critérios, os comportamentos, as categorias. Mas raramente alcança o porquê, o sentido. Para isso, é preciso escutar histórias. Há algo que o olhar clínico não captura: a estrutura do inconsciente. A psicanalista argentina Carina Rodríguez Sciutto articula essa distinção com precisão ao diferenciar a alimentação como função biológica do desejo de comer como função dependente de uma estrutura subjetiva. Por isso, a direção do tratamento psicanalítico é rastrear essa rede de significantes (a teia íntima de histórias, sentidos, memórias e palavras que se transmitem entre gerações) que sustenta a produção dos sintomas. É a partir dessa escuta que o analista pode oferecer pontuações, cortes e intervenções capazes de incidir sobre o inconsciente.

É aqui que entra a contribuição de Jacques Lacan. Ele nos lembra que a relação com o alimento é atravessada pelo Outro, aquele que alimenta antes que a criança saiba que tem fome. Muitas vezes, o adulto, no lugar daquilo que não tem, empanturra a criança com a papinha sufocante daquilo que ele tem. Ou seja, confunde seus cuidados com o dom de seu amor. Ao recusar o alimento, a criança anoréxica estaria sustentando uma espécie de ato, um ato de recusa dessa resposta “maciça”. O objetivo desse ato seria fazer surgir um espaço em que a pergunta sobre o desejo (o que ela tem? o que ela quer? por que ela não come?) possa operar para além da necessidade, movendo toda a família a interrogar os seus próprios desejos e a buscar algo novo, aquilo que ninguém, a priori, “teria” para dar.

Quatro histórias para pensarmos a clínica dos transtornos alimentares

Algumas histórias observei no cotidiano, outras li, outras escutei e algumas são pessoais. É fundamental esclarecer que essas narrativas sofreram diversas modificações para proteger o sigilo e preservar a intimidade, seja a minha, seja a de terceiros, passando a ter um estatuto quase ficcional. Contudo, isso não retira o seu valor de transmissão. A ficção frequentemente nos permite captar a verdade de uma estrutura psíquica de forma muito mais precisa do que um relato estritamente realista. O que estas breves narrativas pretendem é despertar no leitor a vontade de escutar esses casos com mais atenção.

A mordida, o grito, a risada

Quando eu era bebê, enquanto minha mãe me amamentava, certa vez mordi o seio dela. Ela gritou e eu dei uma gargalhada. Ela continuou; mordi de novo, ela gritou e eu ri novamente. Na terceira vez, ela segurou o grito porque não ia ser feita de palhaça de novo. Eu olhei para ela, fiquei em silêncio e então gritei: “AH!”. Ela gargalhou. Nós gargalhamos.

O que ocorreu ali? A satisfação da necessidade biológica transformou-se subitamente em um jogo. A presença de uma brincadeira de caráter sádico-masoquista inaugurou uma nova satisfação, chancelada pela risada de ambos. A relação com o alimento, a partir dali, nunca mais será puramente nutricional. O determinante nesse caso foi a gargalhada da mãe, que operou uma escuta. O grito deixou de ser sinônimo de dor para virar encenação e mensagem. Ela permitiu que a alimentação fosse atravessada por sentidos, elevando o grito à dignidade de uma brincadeira. Foi o início de um faz de conta que será determinante na vida do sujeito. Existem bebês que não atingem essa dimensão em que o grito é encenação, o que é um indício de risco de desenvolvimento, conforme aponta o instrumento clínico IRDI.

Este exemplo não nos mostra nenhum transtorno alimentar, é claro. Mas nos mostra como é através da alimentação, da amamentação, que a gente começa a se relacionar com o mundo, com os outros, e a sermos inseridos numa estrutura inconsciente, na linguagem, num jogo de desejos que nos antecede. Desde bebê, comer nunca é só orgânico.

O bebê, a mãe e a macaxeira com carne de sol

Essa dimensão da linguagem e do desejo ganhou concretude numa palestra da psicanalista Julieta Jerusalinsky. Ela descreveu um bebê que recusava toda comida na introdução alimentar. A mãe, esgotada após peregrinar por especialistas, desabafou à analista. Disse que estava se matando para montar o prato ideal de seis meses, com as porcentagens exatas de carboidrato, leguminosa, vegetal e proteína, tudo sem sal e separado.

A analista perguntou o que eles comiam em casa, e a resposta veio cheia de vida: “Aqui a gente come comida de verdade! Macaxeira com carne de sol, cuscuz com ovo…”. A proposta da analista foi sutil: e se a mãe oferecesse os sabores da casa, da cultura e do afeto ao invés da fórmula ideal? Questionada se nunca havia pensado em adaptar os ingredientes da família à dieta da filha, a mãe aceitou a ideia. Na semana seguinte, a criança começou a comer; adorava macaxeira. A introdução alimentar vingou não pela matemática nutricional, mas pela conexão com o desejo da mãe e da família.

O churrasco e o Sonho de Valsa

Outra vez ouvi de uma paciente, que sofria com obesidade e compulsão, uma preferência alimentar peculiar. Ela resumiu: “Não como nada que me lembre que foi vivo”. Não comia carne vermelha e outras coisas com a presença de sangue e ossos desde a adolescência. Na mesma sessão, sem perceber a conexão, relatou uma situação traumática. O pai acordara a família empolgado para fazer um churrasco de domingo, pois era véspera do aniversário de 15 anos dela. A família não deu muita bola. Contrariado, ele pegou o carro, sofreu um acidente e tragicamente faleceu.

Até aquele dia, em análise, ela nunca havia feito qualquer conexão entre suas “chatices” alimentares e sua história. No entanto, a recusa do que “estava vivo” era a condensação perfeita dos significantes do trauma do churrasco e do luto pelo pai. O inconsciente dita nossas peculiaridades com a comida em níveis radicais. Não surpreende, portanto, o comportamento dessa mesma mulher diante do amor. Ela sofria por nunca ter conseguido engatar um relacionamento amoroso; seu sonho era conseguir casar-se. Em seus episódios de compulsão alimentar, devorava caixas e mais caixas de apenas um chocolate específico: sempre Sonhos de Valsa.

O que se come na França?

Outro exemplo me marcou num almoço. Uma das presentes era uma adolescente que havia passado por internações psiquiátricas devido a uma anorexia grave. Na mesa, outra pessoa dominava a conversa contando com entusiasmo sobre sua temporada na França. A adolescente, que havia permanecido em silêncio durante horas, de repente interrompeu cuidadosamente perguntando: “Fulana… mas o que se come lá na França?”.

Pode parecer uma pergunta qualquer, banal. E foi respondida objetivamente naquele almoço. Mas, situado minimamente esse contexto, ela não deveria nos causar algum espanto? Nos fazer interrogar o que está realmente presente nessa pergunta? Ela não queria saber de calorias ou nutrientes ou pratos típicos apenas; o que estava em jogo era o desejo que escapava das palavras entusiasmadas da protagonista da mesa. O que, naquele outro país, poderia ser provado e vivido? Fiquei me perguntando qual seria a resposta de um analista diante de uma pergunta com essa estrutura. Responder Boeuf Bourguignon ou Cassoulet? Talvez só a apresentação desses nomes em francês já produzisse algum efeito, causasse alguma curiosidade, mas não me parece suficiente. O analista haveria de devolver à analisanda o enigma que ela mesma trouxe. Um simples “você nem imagina…” talvez abrisse mais espaço do que qualquer resposta objetiva jamais abriria.

O lugar da escuta

O que tudo isso nos ensina sobre os transtornos alimentares? Que o tratamento exige, sim, uma equipe médica multidisciplinar insubstituível. Mas, dentro dessa engrenagem, o analista ocupa um lugar muito específico: não o de quem prescreve, mas o de quem escuta, lê e transmite a mensagem do sintoma.

Nossa tarefa é essa: devolver ao paciente, à família, aos profissionais, o enigma que o sujeito carrega. A risada que inaugura um jogo, o desejo que atravessa gerações, a pergunta que já contém a resposta que ainda não foi escutada. Não mastigar por ele, não empanturrar com interpretações prontas. Como lembra Lacan, há sujeitos que preferem dizer “não” a esse tudo mastigado que lhes é oferecido, justamente para deixar um espaço vital para o próprio desejo. As pessoas podem até parecer que querem tudo mastigado, mas na verdade estão empapuçadas.

  • Guilherme Freitas Henderson é psicanalista, doutor e mestre em Psicologia Clínica e Cultura na Universidade de Brasília (UnB). Graduado em Psicologia pela mesma universidade, com período sanduíche na Universidad de la República – Udelar (Uruguay). Guilherme é supervisor de estágio em clínica psicanalítica (Cenfor-CEUB) e professor da pós-graduação Fundamentos da Psicanálise: Teoria e Clínica (Instituto ESPE). O psicanalista atende adolescentes e adultos e é membro da Associação Lacaniana de Brasília.

 

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