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Lilian Tahan

Hugo Barreto/Metrópoles
Hugo Barreto/Metrópoles

No episódio do viaduto, TCDF fez gol de letra, GDF marcou contra, e o cidadão perdeu de lavada

Lilian Tahan
 

Nas últimas semanas, a opinião pública voltou seu escrutínio para dentro da fechadura das casas de juízes e de conselheiros dos tribunais de contas. Pela fresta que a mídia abriu, foi possível enxergar o pagamento do auxílio-moradia a integrantes dessas cortes, os quais, amparados por lei, sustentam o discurso que lhes provém o privilégio: acrescer R$ 4,3 mil aos seus salários, que alcançam os R$ 33,7 mil.

Confie: há como ficar mais desconfortável. Ainda pior que pagar casa, comida e penduricalhos para manter a estrutura de um tribunal é perceber que, em alguma medida, esse investimento não retornou ao cidadão.

Na manhã dessa terça-feira (6/2), duas faixas de um viaduto que corta o coração da capital federal ruíram e foram ao chão. Por um milagre ainda difícil de explicar, não houve feridos. O fluxo de carros e de pedestres naquela região é intenso.

Um acidente que, mesmo sem vítimas, é assustador e colocou toda a cidade em estado de alerta. Desastre anunciado pelo menos sete vezes. Antes mesmo que as autoridades chegassem ao local do infortúnio, os brasilienses já davam seu veredito muito bem fundamentado a partir de farta documentação que circulava nas redes sociais: não foi por falta de aviso. Nem um, nem dois, mas sete.

Em um deles, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) honrou o salário de seus auditores, conselheiros, encarregados e produziu minucioso e embasado relatório sobre as condições e a necessidade de manutenção em obras públicas. Entre as construções objeto do estudo, estava o viaduto no Eixão Sul.

E, já em 2012, o TCDF fora taxativo. Primeiro, os técnicos e, depois, os integrantes da Corte alertaram em tom gravoso que o governo tinha, urgentemente, de promover manutenção nesse trecho, sob pena de ele cair. Dito e feito.

Com tantas vozes que reuniram coro antecipando sobre o desastre dessa terça-feira, é bizarro imaginar que os governos, sucessivamente, deram de ombros para as advertências de engenheiros, arquitetos e até de políticos. Vamos imaginar que houvesse a necessidade de uma chancela oficial sobre o problema. Pois ela veio do Tribunal de Contas do Distrito Federal.

Nesse episódio, quem teve o carro massacrado, um restaurante soterrado ou viu a morte acenar por entre as fissuras de uma obra condenada poderia, com muita boa vontade, ponderar: será que, então, não vale a pena sustentar até a casa daqueles que protegem a nós e ao nosso patrimônio, com essa margem de acerto?

O TCDF tem registrado em seus autos que, no caso, cumpriu com perícia a parte que lhe cabia. Ótimo. Mas do que adiantou, se os governos ignoraram solenemente? De nada. Na prática, o Estado mais uma vez falhou em uma de suas etapas. É nestas horas que se leva a sério até piada de internet. Deixa que a gente mesmo se organiza e resolve essa confusão, em um grupo de WhatsApp.

 
 


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