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Lilian Tahan

Com saúde não se brinca e nem se briga. Ibaneis e distritais precisam buscar consenso

Lilian Tahan
 

O ano legislativo sequer começou. Os distritais ainda não tomaram assento em seus mandatos. Apenas 20 dias separam as gestões de Rodrigo Rollemberg (PSB) e Ibaneis Rocha (MDB). Mas já assistimos ao primeiro quebra-pau entre Executivo e Legislativo no DF.

Com ímpeto comum aos que chegam, Ibaneis tomou uma série de providências: mandou cortar a grama, tapar buracos, desentupir bocas de lobo. Convocou secretariado, fez e recebeu visitas de cortesia. Distribuiu cargos, abrigou aliados. Usou suas credenciais de chefe de poder para pedir dinheiro. Um punhado de milhões para bancos e ministérios. Experimentou a delícia de ser governo. Mas já provou, também, a dor desse exercício: ter de caber nos limites.

Nesta semana, ainda testando até onde seus superpoderes alcançam, Ibaneis avançou sobre território que não lhe compete. A despeito de ter criticado o Instituto Hospital de Base (IHB) na campanha, o governador, agora de posse de informações estratégicas, está convencido de que o modelo é o mais adequado para a gestão da saúde pública. Na visão do emedebista, falta protocolo para a compra de insumos e medicamentos, o que pode abrir brechas à corrupção. Uma vez que essas rotinas sejam estabelecidas, o modelo estará pronto para ser replicado em toda a rede. Tá ok? Diria o presidente de turno.

“Não”, gritaram os distritais da base e da oposição, em uníssono.

Um projeto como esse precisa passar pela apreciação da Câmara Legislativa. Daí a investida em terreno pantanoso.

Ibaneis sugeriu que os parlamentares se reunissem em sessão extraordinária durante as férias. Apelou para o mais forte dos argumentos: são casos de vida ou morte. Cada dia de descanso de suas excelências é um dia a mais de padecimento para quem precisa dos serviços na rede pública.

Se milhares de brasilienses se sacrificam, por que os deputados não podem mostrar boa vontade e adiantar o debate sobre o tema?

Arriscaríamos dizer que distrital (em sua maioria) não abre mão de privilégio. Imagina de férias!

Mas, com honestidade, neste caso, o problema não passa por fazer os nossos representantes interromperem o excelentíssimo recesso (os distritais que se reelegeram estão descansando desde 18 de dezembro, e o ano legislativo só começa em 1º de fevereiro) e iniciarem logo os trabalhos.

Está em jogo alteração radical no sistema de manutenção dos hospitais públicos do DF. Seria virar do avesso a forma como hoje a rede está organizada. Não restam dúvidas de que o modelo atual não funciona. E, como o Metrópoles mostrou em detalhes no último domingo (13/1), o funcionamento do Hospital de Base melhorou muito com relação às travas para a compra de medicamentos. Mas está longe de ser uma ilha de excelência.

Sem dúvidas, algo precisa ser feito com toda a celeridade. Foi, talvez, esse senso de urgência que impulsionou Ibaneis a usar do expediente da ameaça para convencer os distritais sobre a necessidade de providências.

A intenção pode ser a melhor possível, mas o método não funciona. Não é eficiente. A forma como os poderes estão, legitimamente, organizados confere autonomia aos distritais para barrarem projetos, como o da replicação do Instituto Hospital de Base pata toda a rede.

Além do mais, os sindicatos, que representam interesses corporativos, temem a mudança e precisam ser ouvidos. Também não se trata de escolha. É uma necessidade tácita. Fazer uma guinada de 180º na área sem o apoio dos filiados dificulta a implementação de qualquer mudança. Afinal, esses profissionais atuam na ponta. E são em milhares. Juntos, podem ser fundamentais para garantir o sucesso do projeto ou imprimir o fracasso da medida.

Essas considerações precisam ser levadas em conta. Mas isso não significa que o debate pode se estender por anos, que pessoas doentes devam ter paciência e aguardar que todos os distritais negociem o voto com o governo. Sim, eles fazem isso sempre. Mesmo quando motivados por bons propósitos.

Portanto, o resultado da primeira arenga entre GDF e Câmara passa pela capacidade de diálogo. Não é hora, ainda, de medir força. Em quatro anos de gestão, serão muitos os embates que levarão governo ou deputados às cordas. Mas, quando o assunto for de vida ou morte, o que se espera dos gestores e legisladores é que trabalhem juntos em torno de um consenso. E que seja o mais rapidamente possível.

Nesses episódios, não é razoável que o governo passe o trator para alcançar seus objetivos, e nem que distritais oportunistas tentem crescer forçando uma crise entre poderes. Com saúde não se brinca, já diziam nossas sábias avós.

 
 


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