Afinal, a quantas anda a saúde do Hospital de Base?

Um ano após o maior centro de saúde do DF virar instituto, o Metrópoles mostra detalhes do modelo que será implantado em outras unidades

Julia Bandeira/MetrópolesJulia Bandeira/Metrópoles

atualizado 13/01/2019 13:43

O novo modelo de gestão implementado no Hospital de Base fez aniversário no sábado (12/1). Na mesma data de 2018, a maior unidade de saúde do Distrito Federal passou a operar como instituto, sem administração direta do GDF. Sob a bandeira da desburocratização em contratações e compras para melhorar o atendimento, o governo implantou a controversa medida, com anuência da Câmara Legislativa. O embate com sindicatos foi ferrenho e a queda de braço avançou pelas eleições de 2018. Agora, volta à pauta com a declaração do governador Ibaneis Rocha (MDB) de que vai ampliar a iniciativa para outras instituições.

Mas, afinal, o que mudou no hoje chamado Instituto Hospital de Base (IHBDF)? Para entender como está a unidade de saúde em comparação à realidade antes de janeiro de 2018, o Metrópoles passou três dias no local, conversou com dezenas de pacientes, médicos, enfermeiros e terceirizados. A reportagem também entrou nas áreas de acesso restrito e esteve nos locais onde ocorrem atendimentos complexos e internações.

De fato, as novidades no dia a dia vão muito além da simples inclusão da palavra “instituto” no nome do hospital. Mas não há resposta simples para explicar como as mudanças impactaram as rotinas de servidores, pacientes e visitantes.

Ao mesmo tempo que o IHBDF apresentou números positivos em 2018 se comparado ao ano anterior, não escapa das mazelas arraigadas na saúde pública. Superlotação no pronto-socorro, falta de vagas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), filas de espera para cirurgias, consultas e exames ofuscam o ambiente limpo, reformado e organizado da instituição. Como o hospital recebe, diariamente, centenas de cidadãos que não conseguem atendimento em outras unidades da rede, acaba sobrecarregado.

Dados apresentados pela Secretaria de Saúde (SES-DF) mostram que houve aumento de 13% a 28% no número de cirurgias, atendimentos de urgência, internações e consultas. Ao mesmo tempo, o gasto com a folha de pagamento – principal peso no orçamento repassado pelo DF, de R$ 602 milhões – diminuiu 8% em comparação a 2017. A economia chegou a R$ 35 milhões. O IHBDF funciona, hoje,  com 3.635 servidores: 1.329 celetistas, 2.005 estatutários e 301 residentes.

Durante a campanha, o então candidato Ibaneis Rocha questionou o modelo de instituto. O tema motivou debates acalorados com o agora ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Hoje, com a caneta na mão, o emedebista tem outra impressão do IHBDF.

“Critiquei muito, mas era sobre a falta de transparência dele. Pedi ao Rollemberg que me explicasse, mas o modelo é de excelência e tem de se estender a todos os hospitais”, afirmou. Ibaneis alegou que haverá transparência nas contas públicas, na contratação e nas compras.

Segundo o chefe do Palácio do Buriti, a ideia é verticalizar rapidamente o formato de gestão. “Não podemos ter ilhas de excelência na Saúde. O instituto tem um modelo muito bom, principalmente no que diz respeito à gestão de pessoas e a cirurgias. Ele vai ser estendido desde o atendimento mais básico até o último”, garantiu.

 

Terceirizados
A opinião de Ibaneis é, em parte, endossada por quem vive a rotina do IHBDF. Sob a condição de anonimato, funcionários falaram sobre a dinâmica hospitalar e relataram que a aparência, a organização e a higiene melhoraram. Um dos fatores que contribuíram para essa mudança foi a chegada de trabalhadores terceirizados.

Pela quantia de R$ 4,8 milhões, a empresa Levebrás Gestão de Têxteis S.A. fica por conta do serviço de camareiras e lavanderias por um ano. A limpeza é de responsabilidade da Apecê Serviços Gerais LTDA., que firmou contrato anual de R$ 19 milhões.

A empresa Exact Clean, que garante mão de obra de maqueiros e pessoas responsáveis por distribuir medicamentos da farmácia do hospital durante o mesmo período, cobrou R$ 7,7 milhões pelo serviço. Livre dessas atribuições, a equipe de enfermagem não fica sobrecarregada e os procedimentos são feitos de maneira mais ágil.

Uma parcela dos médicos é mais cautelosa ao falar das melhorias. Para eles, ainda há um longo caminho a ser percorrido. “O governo apresenta números positivos, mas aqui chegam desde pacientes com gripe àqueles com câncer. É uma falsa melhora”, opinou um. “Eu diria que estamos em uma fase de transição. Mas, no governo Agnelo (PT), faltava até gaze no pronto-socorro”, contou outra médica.

Recém-empregado no IHBDF, um médico celetista não consegue fazer um comparativo, mas afirma que não identificou nenhuma falha que chame atenção. Para ele, o hospital funciona bem. Contratado no mesmo regime, um funcionário da área social disse enxergar uma melhora drástica. “Não dá para comparar o Instituto Hospital de Base com o Hospital Regional de Ceilândia, por exemplo. Você vê a limpeza, a organização, o cuidado. Para mim, quem ganha com isso são os pacientes”, declarou.

Compra de materiais
Na avaliação dos profissionais, a contratação com base na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), sem realização de concurso público, está conseguindo suprir o déficit de pessoal. As compras sem necessidade de licitação, com o regime jurídico flexibilizado, deram conta de manter o abastecimento de medicamentos e insumos hospitalares, o que impacta diretamente a dinâmica hospitalar.

O modelo traz uma capacidade de gerir as demandas de uma forma mais uma rápida, sem prejudicar os pacientes

Rodrigo Caselli, diretor de Atenção à Saúde do IHBDF, que trabalha no hospital há 14 anos

Outro ponto positivo, segundo o gestor, é a eficiência e agilidade na compra de materiais. De acordo com Caselli, antes do instituto, o abastecimento de medicamentos e insumos hospitalares ficava em torno de 40%. Agora, ultrapassa 95%. O Centro de Abastecimento Farmacêutico (CAF) registra a entrada e saída de itens rigorosamente.

Veja:

A Secretaria de Saúde apresentou números que demonstram êxito na economia. O primeiro pregão de órteses e próteses gerou gasto 50% inferior quando comparado aos preços praticados anteriormente. A cifra utilizada na compra de enxovais foi 32% menor. As aquisições de medicamentos oncológicos pelo IHBDF representaram uma economia de 11% e, para quimioterápicos de uso hospitalar, de 12,6%.

Mas nem tudo são melhorias. Ainda há gargalos, como a espera por vagas na unidade de terapia intensiva. Na sexta-feira (11), cerca de 40 pacientes aguardam um leito. “Infelizmente, a quantidade de leitos de UTI que nós temos não é suficiente para atender a demanda do Distrito Federal e do próprio hospital”, disse Rodrigo Caselli.



Avaliação dos pacientes
Embora alguns pacientes não vejam melhora significativa no IHBDF, boa parte dos entrevistados pela reportagem notou aprimoramento. Há 15 anos fazendo acompanhamento no hospital após ficar doente, Vanda Ferreira, 44 anos, reconhece as melhorias, mas achava os funcionários antigos mais cordiais. “Eu valorizo mais a essência do que a aparência. Isso é fantasia”, avaliou. A opinião é semelhante à de outra paciente. “A única mudança que vi, de fato, foi a limpeza”, disse Aurineia Alves da Silva, que trata um nódulo na cabeça.

Depois de quatro anos de espera, a advogada Maria do Socorro Rios Campelo, 55, conseguiu uma consulta com um médico otorrinolaringologista: em maio de 2018. Na quinta-feira (10), estava retornando pela terceira vez. “Alguma coisa melhorou”, comentou. A expectativa é de fazer uma cirurgia para corrigir um desvio de septo.  

O corretor de imóveis Paulo Cézar Nascimento, 69, elogiou o funcionamento. Em abril de 2018, ele foi atropelado e recebeu atendimento no IHBDF. “Não mudou da água para o vinho, mas houve uma melhora razoável. O que espero é lisura e transparência na gestão.” Mesmo tomando remédio à base de morfina para conseguir andar, ele espera por uma cirurgia no joelho há cinco meses.

Dividindo o espaço do quarto de enfermaria com outros três pacientes e seus respectivos acompanhantes, Nilsa Turci, 58, estava prestes a finalizar seu ciclo de quimioterapia após sete dias de internação, na sexta (11). A irmã, Marta Amélia dos Santos, 50, é entusiasta do instituto. “Todos os hospitais tinham que ser instituto”, declarou. “Pelo atendimento, pela estrutura… Se fossem todos nesse modelo, a população agradeceria muito”, complementou.

A banca próxima ao ambulatório ainda se chama HBDF. Para a dona, que passa boa parte do dia ali há mais 20 anos, ainda há dificuldades para quem busca o hospital. “O atendimento lá dentro melhorou, mas muita gente reclama do acesso”, observou a mulher, que pediu para não ter o nome divulgado.

Marcação de exames
Nelson de Couto Augusto, 61, tem diabetes e sofre com problemas hepáticos. Ele não consegue andar e passa por crises causadas pela amônia acumulada no sangue. Precisa fazer exames para entrar na fila de transplante de fígado. 

Ele faz o tratamento no IHBDF há cerca de dois anos. Desde agosto, após uma internação de 32 dias, estava aguardando uma consulta para o neurologista. Na quinta-feira (10), conseguiu agendar para a semana seguinte. “Ficamos até surpresos com a rapidez”, comentou a esposa, Silvia Santos, 47, que deixou o emprego, de caixa de supermercado, para acompanhá-lo nas batalhas diárias.

Histórias de luta como a de Nelson se repetem pelo hospital. Sem conseguir falar ou comer, Gilberto Moacir dos Reis aguardava por uma endoscopia deitado em um dos bancos externos do hospital. Ele tem um tumor no pescoço que já está gangrenado. Depois de idas e vindas, o paciente marcou o exame para a manhã de quinta-feira (10).

Os olhos marejados da mãe, Celi Almeida Reis, 65, representam o drama do momento. “É duro ver um filho, sangue do seu sangue, nessa situação”, lamentou. Um médico já havia afirmado que dificilmente o problema conseguiria ser tratado.

Cleonice Rosa de Jesus, 49, tem doença de chagas há cerca de 10 anos e, em novembro de 2018, descobriu que teve um derrame cardíaco. Na ocasião, o médico pediu um ecocardiograma. Com consulta marcada para o fim de janeiro, ela teme não conseguir fazer o exame a tempo no hospital.

Atualmente, ela sobrevive com um auxílio e precisa do laudo médico para dar entrada no pedido de aposentadoria no INSS. “O atendimento está bom, mas está muito demorado. Jogam a gente de um lado para o outro”, lamenta. A filha dela, de 15 anos, aguarda há mais de um ano por atendimento com oftalmologista.

Uma paciente que pediu para não ser identificada está insatisfeita com a mudança. Lutando contra um câncer de mama há dois anos no hospital, ela reclama da descontinuidade do tratamento. “Para mim, ficou pior. Quatro médicos já mudaram nesse período.”

 

Expansão do modelo
O atendimento de urgência do Instituto Hospital de Base serve como um termômetro para medir a eficiência do sistema público do DF como um todo. Quando o funcionamento das unidades de saúde espalhadas pelas regiões administrativas vai bem, sem intercorrências, o pronto-socorro do IHBDF fica menos cheio. Isso porque quem não consegue atendimento em outros locais acaba indo para a instituição.

Na sexta-feira (11), havia lotação superior a 40% devido à alta demanda. Ainda assim, a movimentação era considerada “tranquila” por funcionários. Durante a gestão atual, o IHBDF chegou a operar com o dobro da capacidade, acolhendo 199 pacientes na internação de urgência.

O secretário de saúde do governo Ibaneis, Osnei Okumoto, afirmou que a rede será reorganizada. A equipe faz um mapeamento que vai direcionar a atuação durante a gestão. Entre as ações, há a expectativa de expansão do modelo do IHBDF e planejamento para a liberação de cerca de 1 mil leitos bloqueados.

“Muitos dos pacientes não têm necessidade de atendimento de urgência. Desse fluxo, nós estaremos trabalhando com a comunicação aos usuários para que eles possam se dirigir a essas unidades de triagem. Quando a gente tem uma demanda muito grande, precisamos estruturar as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e os hospitais. Isso a gente pode fazer com o modelo jurídico instituído no Instituto Hospital de Base”, explicou.

Médico com ampla experiência de gestão hospitalar e professor da Universidade de Brasília (UnB), Cláudio Bernardo Pedrosa de Freitas defende a autonomia dos diretores de hospitais, com orçamento compatível às necessidades de cada unidade. No entanto, alerta que o modelo do Base pode se tornar mais caro do que se houvesse uma reformulação mantendo a administração direta. 

“O problema da saúde é político. É preferível que se transforme tudo em instituto a ficar brigando com governadores que não querem governar da maneira tradicional. A população que sofre”, declarou.

O Sindicato dos Médicos (Sindimédico-DF) avalia que a produtividade teve uma queda expressiva do início do século para cá, principalmente na gestão do ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB). Em 2000, por exemplo, segundo a entidade, houve registro de 247,7 mil consultas de emergência no pronto-socorro. Em 2017, o número caiu para 123 mil. A SES-DF, no entanto, contesta esses dados e diz que, apenas entre janeiro e outubro daquele ano, foram 159 mil. No mesmo período de 2018, subiu para 199 mil.

O Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde (SindSaúde-DF) vai se posicionar depois que se reunir com o governador e o secretário de saúde. O encontro, segundo a presidente, Marli Rodrigues, está agendado para os próximos dias.

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