Caso Vanilma: todo feminicídio é um crime premeditado

A pena de oito anos estipulada para o assassino de Vanilma Martins dos Santos deixa todas nós, mulheres, mais vulneráveis

atualizado 22/01/2020 22:15

Arquivo pessoal

Divulgado nesta quarta-feira (22/01/2020), o resultado do julgamento de Tiago de Souza Joaquim, que matou Vanilma Martins dos Santos, é uma dura punhalada para aqueles que militam pelos direitos das mulheres. A história tem um sabor extremamente amargo para a família e para mim, que investiguei a vida do casal em janeiro de 2019, dentro do projeto Elas por Elas, do portal Metrópoles.

Tiago vinha tratando Vaninha com indiferença pelo menos desde o nascimento do filho dos dois: a dona de casa, entretanto, relutava em abrir os problemas do casal para os familiares. Aqui e ali, alguém percebia uma mancha roxa no corpo dela, um machucado sem explicação. Aqui e ali, ela corria para a casa de uma tia ou de uma amiga para fugir dele.

O ciclo de violência estava presente na vida dos dois: o ciúme de Tiago, as desconfianças infundadas, o afastamento dela da família, a vida restrita ao mundo doméstico, o filho pequeno testemunhando discussões, as marcas roxas. Os sinais de que o pior viria estavam ali  mas, ao que parece, foram ignorados por todos e até por ela. De tão naturalizada, a violência contra a mulher muitas vezes não é percebida, se desenrola como um aceitável pano de fundo da vida a dois.

Mas um homem nunca mata uma mulher “sem querer”, por que perdeu a cabeça durante uma briga de casal. Um homem mata uma mulher porque acredita que é superior a ela, que é dono de seus desejos e senhor de suas frustrações. Um homem mata uma mulher porque o machismo é a regra na nossa sociedade.

No dia do assassinato, Tiago havia passado o dia bebendo com amigos, quando retornou e ouviu as queixas da Vanilma, a atacou com uma faca. Por que um homem pega uma faca para reagir a uma discussão? Por que um homem se revolta quando uma mulher reclama de algo que a incomoda? Porque considera que a palavra dela vale menos do que a dele, que a vida dela vale menos do que a dele.

Vanilma foi assassinada aos 30 anos. O crime de Tiago roubou-lhe pelo menos 40 anos da vida – considerando a expectativa de vida média das mulheres. Também roubou-lhe a possibilidade de ver o filho crescer, que parecia ser o seu maior desejo.

Pela morte de Vanilma, Tiago foi condenado a oito anos de prisão em regime semiaberto. De feminicídio, o crime passou para lesão corporal seguida de morte. Desceu vários degraus em relação à gravidade e à pena.

A justa punição é um dos antídotos mais eficientes contra a violência. Ela inibe comportamentos que se espelham no do agressor. O resultado do julgamento de Tiago vai na contramão desse princípio e deixa todas nós, mulheres, mais vulneráveis. A mensagem é a de que a violência na vida a dois é tolerável, de que um homem pode “perder a cabeça” durante uma briga e se armar com uma faca.

O crime de Tiago não foi sem querer. Nunca é sem querer. Todo feminicídio é um crime premeditado pelo autor e pelo machismo.

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