Uma noite na balada com Bia Leite

A exposição Frank misturou arte e música na deCurators

Bernardo Scartezini/Especial para o MetrópolesBernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

atualizado 15/03/2019 15:03

Bia Leite foi convidada pela artista Mariana Destro para participar do ciclo Olho Selvagem na galeria deCurators. Pontuado por performances e intervenções, de janeiro até março, o evento idealizado por Mariana apresentou alternativas às narrativas masculinas dentro da arte contemporânea.

Fechado o ciclo, na noite da sexta-feira oito de março, Dia Internacional da Mulher, estava encerrando-se também a exposição Frank, de Bia Leite, que ocupava a pequenina sala interna da deCurators.

Pontuando uma das paredes, nove recentes pinturas amarravam a mostra e davam motivo para a visitação. Mas todos detalhes do ambiente interno da galeria foram cuidados pela artista como partes integrantes da exposição.

Seguindo no embalo da trilha sonora especialmente montada para a ocasião, o visitante podia se dar conta do tanto de autobiografia, de memórias pessoais ali sendo compartilhadas pela artista – para muito além das pinturas.

 

Frank, o título da exposição, cabe tanto para o simpático Frankenstein retratado em uma das telas de Bia Leite quanto como referência ao nome do primeiro disco da cantora Amy Winehouse, lançado em 2003. (E o adjetivo, em inglês, tem sentido de honesto, direto, franco.)

Bia Leite conta como as canções de Amy Winehouse e outras tantas que ouvia na adolescência, em Fortaleza, sua terra natal, de repente surgiram novamente para ela em pleno processo criativo como pintora. Junto vieram as experiências vividas na boate Noise 3D em meados da década passada.

“Os títulos de algumas músicas foram combinando com as pinturas e fui percebendo que músicas eram essas. Todas se referiam a um mesmo tempo, um mesmo lugar. Era algo que estava inconsciente na minha memória e no fazer da imagem também. Realmente estar lá naquela boate era algo muito imagético: a escuridão, o globo de luz no teto, o ambiente apertado, pequeno, cheio de gente dançando.”

Tocando pop e indie rock, passando por funk e electro, a boate Noise 3D marcou a noite de Fortaleza entre 2005 e 2007. Marcou especialmente a adolescente Bia Leite. Aos quinze anos, ela tinha conquistado junto à sua mãe uma permissão para se divertir na casa noturna – mesmo que, eventualmente, tivesse de apresentar uma carteirinha adulterada na porta de entrada.

A dupla Montage, formada por Daniel Peixoto e Leco Jucá, surgiu naquele mesmo ambiente e logo ganharia repercussão nacional via São Paulo. Bia conta que era fã, acompanhava as postagens no Fotolog e ficava encantada quando reconhecia os rapazes dançando entre as luzes cambiantes da Noise 3D.

Na playlist que Bia montou para embalar Frank, e aqui emprestada para a coluna Plástica, entraram um tanto de músicas que tocavam na boate – e algumas outras que, surgidas mais tarde, ela tem certeza que teriam agradado aquela pista de dança.

 

A ideia de Bia para Frank foi montar uma ambientação que lembrasse a Noise 3D. A amiga Thalita Perfeito emprestou o globo de luz. Do lado oposto da parede interna de cobogós, uma luz azulada vaza do banheiro ao fundo do corredor.

Um garrafão de água, especialmente trazido por Bia de Fortaleza, servindo de abajur nesta cenografia, deitado no canto da sala, compondo ao rés do chão com par de almofadas e um tapetinho. Sobre a mesa, o notebook disparando as músicas – e também garrafas de conhaque e de cachaça que sobreviveram à vernissage.

E deixado com estudada displicência sobre a mesa, encadernado em discreta capa dura, eis o motivo para tudo isso estar aqui – o diário da adolescente Bia Leite…

 

Pouco mais tarde naquela noite, Bia toma em mãos o diário e chama para dentro os amigos que conversavam do lado de fora. Todos então se sentam para a leitura de algumas passagens do caderno. Cumplicidade e camaradagem, risadas gerais. “Eu leio o diário para as pessoas terem noção da besteirinha que era”, sorri Bia.

A descoberta da sexualidade, os encontros com outras meninas, uma certa sensação de proibido, uma curiosidade enorme, e o primeiro beijo. “Você não vai acreditar: rolou. Finalmente senti a boca de outro ser em minha. Senti o calor do outro mais próximo”, escreveu Bia, fevereiro de 2006, num dos trechos do diário gentilmente cedidos a esta reportagem.

Aquela Bia de quinze anos sentava-se à escrivaninha para registrar os últimos acontecimentos em letra corrida miudinha, ocupando linha a linha as páginas pautadas, acrescentando pequenos detalhes nas margens. Bia não desenhava, ainda não pintava.

 

Após o fechamento da Noise 3D, clima de consternação geracional, os amigos do ensino médio se dispersando, espalhando-se por outras casas noturnas de Fortaleza. Em cinco, seis anos, a família de Bia chegaria a Brasília – e aqui ela encontraria sua carreira artística.

De lá para cá, Bia cumpriu graduação do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, trabalhou em desenho e pintura, gravura e monotipia, apropriando-se de imagens da internet e de antigos filmes, valendo-se de diferentes suportes, levando suas obras para lugares como A Pilastra e Alfinete Galeria.

Bia já participou de mostras em outras cidades do país, sendo uma das protagonistas da histórica exibição Queermuseu de 2017. Mas ela ainda não apresentou seus trabalhos em Fortaleza. “Como ainda não consegui expor por lá, esta mostra funciona também como a memória da cidade para mim.”

Além de Bia Leite e da idealizadora Mariana Destro, participaram do ciclo Olho Selvagem as artistas brasilienses Alla Söub, Beatriz Perrini, Carli Ayô, Gabriela Mutti, Kabe Rodríguez, Laura Fraiz-Grijalba, Manoela Morgado, Maria Léo Araruna, Martha Suzana, Mile Lemos, Nebulosa Stoppa, Sarah Alvim e Thalita Perfeito.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Detalhe da exposição Frank

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