Um giro no Palácio Itamaraty para encontrar Fayga Ostrower

Exposição de obras da artista polonesa pode ser conferida durante breve temporada, até 20 de fevereiro

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

atualizado 01/02/2019 14:16

As obras do Palácio Itamaraty, cá na nova capital, ainda estavam por terminar naqueles idos de 1967. Encarregado da transferência do Ministério das Relações Exteriores, o embaixador Wladimir Murtinho não deixou a cidade do Rio de Janeiro sem ter feito um último e mui especial arranjo.

Fayga Ostrower, cidadã polonesa de origem judaica, criada e amadurecida como artista no Rio de Janeiro, tinha assumido uma posição singular no cenário nacional das artes plásticas. Em suas mãos, a gravura lentamente deixava de ser linguagem de apoio ao universo regionalista brasileiro e ia muito além de sua vocação para servir à denúncia política e social.

Com Fayga Ostrower, uma gravurista que também trabalhava como aquarelista, a gravura assumia cores e manchas, derivava em definitivo para o abstracionismo.

Wladimir Murtinho sentia que Fayga Ostrower era a artista que o Palácio Itamaraty precisava, naquele final de anos 1960, para melhor amarrar seu acervo de quadros e esculturas, tapetes e móveis, passando por diferentes estilos, tendências e épocas.

Eis a origem do Políptico do Itamaraty, obra em xilogravura de Fayga Ostrower. Mantido distante dos olhos do público por décadas, o conjunto acabou destinado a enfeitar distintos gabinetes a portas fechadas. Mas agora pode ser visitado lá mesmo no Palácio Itamaraty – em breve temporada, até 20 de fevereiro.

Para o prezado visitante ter acesso à obra de Fayga Ostrower, precisa se dispor a percorrer todo o habitual roteiro de visitação da instituição. Então vamos lá…

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Como tudo o que acontece no Itamaraty, as visitas guiadas também seguem um protocolo. O interessado deve vestir um par de calças compridas e aparecer num dos horários marcados: 9h, 11h, 14h, 15h, 17h. Desde que os eventos palacianos e/ou os esquemas de segurança assim o permitam.

Se não for uma autoridade em agenda oficial, o senhor visitante deve se dirigir à entrada lateral, servindo-se da estreita rua de serviço entre o palácio e o Ministério da Saúde.

O site da instituição está razoavelmente aparelhado, mas o telefone costuma dar sinal de ocupado ou tocar em vão até a ligação cair.

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Seguindo os passos do guia, o grupo de visitantes adentra o lendário átrio do Itamaraty por uma singela passagem lateral. De toda forma, o impacto é inevitável. Aqui se encontra a arquitetura de Oscar Niemeyer em seu grau máximo: o amplo vão livre, desimpedido de colunas ou pilastras, a escada circular que sobe ao mezanino ao mesmo tempo em que fura o piso num negativo que dá acesso ao andar inferior.

De fora a fora, numa das paredes laterais de mármore, revela-se um baixo-relevo de Athos Bulcão. E a parede de trás, na real, ela sequer existe, substituída pelo Jardim Aquático de Roberto Burle Marx. Escapando por entre a vegetação, toda importada da Amazônia, enxerga-se um resquício de urbanidade, o prédio conhecido como Submarino Amarelo, um anexo ao palácio.

O Itamaraty também tem um outro edifício anexo de arquitetura peculiar, o Bolo de Noiva, permitindo que o Palácio em si fique um tanto desabitado mesmo em um dia de trabalho normal para o funcionalismo público, como esta manhã de quarta-feira. Seus dois andares são destinados, em grande parte, a salões oficiais para eventos de magnitude realmente palaciana – além de três salas de jantar de variados tamanhos.

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Aos visitantes é dado conhecer boa parte dessa estrutura, apenas com o cuidado para não usar flashes e pedindo-se o favor de não pisar nos tapetes persas. Nosso guia chama a atenção para as mobílias, que algumas delas pertenceram à Princesa Isabel, outras tantas ao Barão do Rio Branco, e se mostra obsequioso ao dar tempo para selfies mil.

E depois de percorrido o tour oficial – aí sim – entra a exposição de Fayga Ostrower, valendo como faixa bônus após meia hora de visita. A porta que dá acesso à mostra temporária intitulada Entre Cores e Transparências faz com que o visitante se depare imediatamente com o Políptico do Itamaraty, a principal contribuição de Fayga ao acervo do Ministério das Relações Exteriores. Mas outras tantas gravuras em madeira ou pedra também fazem parte da coleção.

Olhando ao redor, o visitante se dá conta de que à Fayga coube um cantinho modesto do Itamaraty. Sua mostra, a rigor, está montada num corredor – um tanto amplo, pois foi feito dentro da escala Niemeyer para palácios – mas de toda forma, um corredor de serviço, que volta e meia é atravessado por garçons e copeiros, secretárias e funcionários tentando dar conta de suas incumbências.

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Não obstante, eis a comprovação do tino de Wladimir Murtinho e da transcendência de Fayga Ostrower. Que sua poética se mostre viva e saltitante, mesmo meio século após a encomenda do embaixador. Mesmo aqui, neste momento, um tanto eclipsada depois de o visitante passar meia hora percorrendo salões e reencontrando obras canônicas, de Jean-Baptiste Debret a Pedro Américo, de Cândido Portinari a Alfredo Volpi.

Também cabe Fayga Ostrower no cânone pátrio, como não? Basta seguir com os olhos o Políptico do Itamaraty, feito em matriz de madeira, mesmo material de um Oswaldo Goeldi (em cartaz na Caixa Cultural neste exato momento), para se perceber a manha muito particular de Fayga com as nuances de cor, emprestando ritmo, emprestando movimento, como um deslizar de superfícies, uma paisagem a se revelar. Talvez a monumentalidade, aqui, se passe atrás dos olhos do observador.

O mesmo Políptico do Itamaraty, cabe lembrar, esteve em cartaz há três anos no Museu Nacional Honestino Guimarães, subindo a Esplanada. Na ocasião, o conjunto fez parte de uma curadoria de Bené Fonteles. A vizinhança com obras de Luiz Sacilotto e Rubem Valentim apenas reforçando a singularidade de Fayga Ostrower.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Palácio do Itamaraty, manhã de quarta-feira

Desta vez, apresentada aqui no Palácio Itamaraty como epílogo para um trajeto histórico-institucional que percorre a civilização brasileira, a obra de Fayga Ostrower ajuda a entender, mais uma vez, o papel da arte na criação de uma nação.

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