Uma tarde na W3 Sul com Zuleika de Souza

Em cartaz no Espaço Cultural Renato Russo, exposição W3 – Divergentes Brasílias integra imagens da fotógrafa ao ambiente urbano da capital

atualizado 11/01/2019 16:37

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Numa cidade toda cartesiana, desenhada e levantada dentro do quadradinho, a W3 Sul surge como um ruído. No ritmo dos coletivos a sacolejarem na avenida. Na ginga dos pedestres a desviarem dos buracos na calçada.

Zuleika de Souza é íntima da W3 há tempos. Sua família mora na 305 Sul desde 1975 e foi a partir daquele cantinho que ela começou a viver Brasília, a entender Brasília. Entre suas mais vívidas memórias de infância, ela guarda as vitrines coloridas da Slaviero e o cortejo que conduzia o corpo de Juscelino Kubitschek.

Nesses últimos dois anos, desde que deixou a redação do Correio Braziliense, onde trabalhou como fotojornalista por três décadas, Zuleika vem tentando cumprir a pé seus compromissos diários. Caminhando, reencontrou a W3 Sul.

Pode-se entender, portanto, a exposição fotográfica de Zuleika de Souza ora em cartaz no Espaço Cultural Renato Russo, W3 – Divergentes Brasílias, como uma crônica de vizinhança. Um olhar cúmplice e afetuoso sobre uma das mais degradadas avenidas do Plano Piloto. Um gesto político de acolher e entender a cidade como ela é – e não mais aquela nova capital sonhada há meio século.

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O sofá abandonado no canteiro central da avenida. O buraco na calçada que uma boa alma sinalizou com um galho. A parada de ônibus pintada, grafitada, coberta de cartazes, pintada novamente, descascada no sol e na chuva. Os restos de um rato esmagado sobre o asfalto, mil vezes atropelado.

Para juntar essa coleção de flagrantes urbanos, Zuleika usou suas duas câmeras profissionais (Nikon D750 e D500) e também seu celular. “O iPhone libertou as pessoas da técnica. Tem alguns telefones com dispositivos que você precisa regular a cada vez, mas não é isso que eu quero quando uso um iPhone. O que quero é plá, plá, plá! Tirar o aparelho do bolso e, rapidamente, registrar o que estou vendo naquele instante.”

Zuleika agora tira do bolso seu iPhone para melhor ilustrar outra praticidade extrema da mídia: seu aparelho armazena na memória – até o fechamento desta reportagem – 60.181 fotos.

Percorrendo a exposição e analisando as próprias fotografias, ampliadas em plotagens para formar a atual mostra, Zuleika aponta ainda um terceiro fator que lhe convém. “A própria ideia desta exposição subverte a técnica. Há um ruído, uma tosquice na imagem feita pelo celular, que gera outra estética.”

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Aquele sofá mofado e rasgado, Zuleika encontrou na altura da 505 Sul. Não muito longe de seu apartamento. Ficou encardindo por lá algumas semanas. Estava ao relento até dias antes da abertura da exposição. Agora pode ser visitado na Galeria Parangolé, na 508 Sul. A fotografia do móvel ocupa a parede dos fundos da sala e meio que amarra conceitual e esteticamente todas as imagens ao redor.

É a única foto que, nas plotagens feitas para esta mostra, foi integralmente mantida em sua composição original. As demais imagens foram rearranjadas por tema, por cor, por similaridade formal. Até mesmo sobrepostas, numa dinâmica criada em computador pela designer Clarissa Teixeira.

Assim, Zuleika e a curadora Paula Simas tentam emular aqui dentro da sala o caráter caótico da avenida ali fora. Por isso, a sobreposição de imagens e de informações numa polifonia intencional. E trabalhar com plotagem, neste caso, não significou apenas uma necessária adequação ao apertado orçamento da exposição. As imagens ampliadas, no entender de Zuleika, permitem que o visitante se sinta imerso na avenida.

As paredes de vidro da Galeria Parangolé e sua vitrine, que se oferece para a rua lá fora, são ainda mais potentes nesse sentido. Atravessando a exposição, os sons que chegam da avenida, a luz natural que invade a sala, a paisagem que se enxerga através do vidro, o movimento dos carros e das pessoas ampliam sensorialmente a experiência para muito além da metalinguagem.

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Esta é a terceira exposição de Zuleika de Souza em quatro anos. No Centro Cultural Banco do Brasil, montou Chão de Flores, apresentando as casinhas e os muros coloridos que fotografou pelas cidades do Distrito Federal. Na Alfinete Galeria, com Entre Quadras ao lado de José Roberto Bassul, trouxe uma coleção de intervenções feitas por moradores dentro da arquitetura das superquadras. E esta atual mostra, novamente, se desenrola no ambiente urbano.

Zuleika recupera uma avenida que, senso comum, vem sendo tratada como decadente, esvaziada. A W3 Sul se tornou símbolo tanto do descaso do poder público com a cidade que deveria preservar quanto do desinteresse dos cidadãos de classes média e alta, que se mantêm distantes das ruas e preferem o ambiente seguro de um shopping center.

Mas a W3 não para. Até por nunca ter deixado de ser um pesado corredor de ônibus, a circulação de pessoas é intensa, e um tanto rara, numa cidade que privilegia muito mais os veículos do que os pedestres. Com a tarimba de quem palmilha aquelas quadras de ponta a ponta, Zuleika conta que certas lojas seguem movimentadas: A Festiva, Rei das Embalagens, Yoga. A Casa do Pão atrai estudantes no intervalo das aulas. Assim como a Vitamina Central. E o restaurante Manara, tradicional na Asa Norte, recentemente abriu ponto na Asa Sul.

A própria 508 Sul, nota Zuleika, depois de permanecer fechada por anos e anos em reforma, não para de receber pessoas. Muitos que apenas cortam caminho entre a W3 e a 308 Sul nesta tarde de terça-feira se deixam desviar por um momento ou dois, entrando na Galeria Parangolé, buscando informações sobre a programação que o Espaço Cultural Renato Russo lentamente volta a fazer funcionar.

Integrando sua exposição à cidade aqui fora, Zuleika de Souza ajuda a 508 Sul a reencontrar sua razão de ser.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles
Foto de Zuleika de Souza na Galeria Parangolé

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