Mais da metade dos brasileiros fica sem dinheiro após despesas básicas
Pesquisa da Deloitte mostra que 54% dos brasileiros dizem não ter dinheiro extra no fim do mês para gastos além das contas do dia a dia
atualizado
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A maioria dos brasileiros está chegando ao fim do ano praticamente sem dinheiro sobrando após o pagamento das contas básicas. É o que mostra a pesquisa “Global State of the Consumer Tracker”, realizada pela Deloitte com exclusividade para o Metrópoles.
O levantamento entrevistou 3 mil consumidores no Brasil entre agosto e outubro de 2022 (mil pessoas foram entrevistadas em cada mês).
De acordo com o levantamento, que monitorou tendências de comportamento, situação financeira e intenção de consumo dos brasileiros, 54% dos entrevistados disseram não ter dinheiro extra no fim do mês para gastos além das contas do dia a dia.
A pesquisa aponta ainda que 40% dos brasileiros têm uma situação financeira atual pior do que no ano anterior.
“Este foi um ano de muitas dificuldades, e não apenas no Brasil. Tivemos uma escalada da inflação há alguns meses, além de uma elevada taxa de juros, o que dificulta para as pessoas conseguirem crédito. Por isso, o endividamento está tão alto. As pessoas começam a entrar em financiamentos com taxas muito maiores do que no passado”, explica o sócio-líder da área de consumo da Deloitte, Ricardo Balkins, em entrevista ao Metrópoles.
Segundo Balkins, além da inflação e dos juros altos, a piora na condição financeira dos brasileiros é reflexo do desemprego ou da simples preocupação das pessoas em serem dispensadas.
“Quando se junta tudo isso, não me surpreende que as pessoas estejam chegando ao final do mês com menos dinheiro do que tinham no ano anterior, mal conseguindo pagar suas contas”, afirma.
Menos comida na mesa
A pesquisa da Deloitte também mostra que as pessoas têm diminuído a quantidade de comida que compram: 27% dos entrevistados afirmaram que estavam comprando menos alimentos do que desejavam. Apenas 28% adquiriram a quantidade de comida que julgavam necessária.
Quase quatro de cada 10 entrevistados (37%) afirmaram que têm comprado carnes de cortes de menor custo, enquanto 33% adquirem ingredientes mais baratos. Pouco mais de um terço dos brasileiros (35%) comprou apenas mantimentos essenciais.

“É um quadro preocupante. Sempre pensamos que, quando falta dinheiro, as famílias cortam o que é mais supérfluo. Em tese, alimentação é o que as pessoas tendem a manter no mesmo padrão. Mas, como consequência do efeito de fatores como inflação, juros altos e desemprego, o cenário mudou um pouco”, diz Balkins.
Para o responsável pela pesquisa da Deloitte, no entanto, não é possível medir se as pessoas compraram menos comida entre os itens considerados essenciais à alimentação.
“Talvez, no ano passado, essas pessoas tenham comprado carne de primeira, mas não conseguiram fazer isso neste ano”, explica. “As pessoas não necessariamente deixam de comprar o essencial. Mas, comparativamente ao ano passado, estão comprando menos. É um fato.”
Compras que trazem alegria
A pesquisa da Deloitte mediu ainda a disposição e as condições necessárias para que os brasileiros gastem com compras que tragam alegria, prazer ou satisfação pessoal – como uma ida ao cinema ou ao teatro, um jantar em um restaurante bem conceituado ou uma viagem.
Em outubro, 42% dos entrevistados disseram ter meios para gastar com coisas que lhes trouxessem alegria, percentual inferior aos 47% registrados no mês anterior.
De acordo com o levantamento, 60% afirmaram ter comprado algo que lhes trouxesse satisfação pessoal (ante 64% em setembro).
Entre os que presentearam a si mesmos, 31% compraram roupas. Outros presentes foram itens de cuidados pessoais (19%), alimentos e bebidas (14%) e eletrônicos (13%).
Impacto emocional
O estudo da Deloitte apontou um aumento no percentual dos brasileiros que se sentiam mais ansiosos em relação à semana anterior, muito por causa da instabilidade financeira.
Em outubro, esse índice chegou a 53%, superando pela primeira vez a marca dos 50%. No mês anterior, eram 46% os que se diziam mais ansiosos (ante 49% em julho e agosto).
“Sem dúvida, há um impacto direto da questão financeira sobre a emocional. O volume de pessoas que têm tido problemas emocionais, principalmente a ansiedade, têm aumentado”, diz Balkins.
“É complicado quando chega o fim do mês e não sobra dinheiro para o lazer, por exemplo, ou para comprar os itens de alimentação que se comprava há um ano. As pessoas estão trabalhando, literalmente, para matar a fome”, conclui.
A pesquisa
Além do Brasil, a pesquisa “Deloitte Global State of the Consumer Tracker” envolveu outros 23 países: Austrália, Bélgica, Canadá, China, Dinamarca, França, Alemanha, Índia, Irlanda, Itália, Japão, México, Holanda, Noruega, Polônia, Coreia do Sul, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Emirados Árabes, Reino Unido e Estados Unidos.















