Galípolo defende autonomia do BC e fala em “cortar na própria carne”
“É importante completarmos o processo de autonomia do BC”, diz Galípolo. Segundo ele, instrumento também ajudaria na fiscalização do mercado
atualizado
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O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, voltou a defender a aprovação da autonomia financeira e orçamentária da autoridade monetária e disse que o instrumento ajudaria a autarquia no cumprimento de suas funções, entre as quais o monitoramento e a fiscalização do sistema financeiro.
As declarações do chefe do BC foram dadas na manhã desta quinta-feira (9/4), em um rápido pronunciamento na abertura da cerimônia de entrega dos prêmios aos vencedores de cada categoria anual do Top 5 da pesquisa Focus de 2025, em São Paulo.
Em seu discurso, Galípolo não falou sobre política monetária – não abordou temas relacionados à taxa básica de juros, atualmente em 14,75% ao ano, ou à inflação. O presidente do BC também não fez menções acerca do escândalo envolvendo o Banco Master, mas disse que a autoridade monetária precisa ter coragem de “cortar na própria carne”. No mês passado, dois servidores do BC foram afastados por suposto envolvimento com o caso Master.
“A palavra autonomia, às vezes, precisa de um ‘rebranding’ (estratégia de marketing para reformular a identidade de uma marca), mas é importante completarmos o processo de autonomia do BC”, defendeu Galípolo.
“Não por questão de comportamento, porque autonomia não vem de um dispositivo legal. Ela significa algo muito caro ao BC, que não está disponível para negociar o seu mandato. Existem questões de institucionalidade que estão acima de qualquer coisa”, afirmou o chefe da autoridade monetária.
O que é a autonomia financeira do BC
A autonomia financeira do BC consta da Proposta de Emenda à Constituição (PEC 65/2023), que tramita há três anos no Congresso Nacional. Em linhas gerais, a proposta transformaria o BC, uma autarquia federal com orçamento vinculado à União, em empresa pública com total autonomia financeira e orçamentária, sob supervisão do Parlamento. Com isso, o BC teria plena liberdade para definir, por exemplo, os planos de carreira e salários de seus funcionários, contratações e reajustes.
Na prática, a PEC amplia a autonomia operacional do BC instituída há cinco anos. Em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) sancionou o projeto, aprovado pelo Congresso, que tornou o BC autônomo em sua operação, o que limitou a capacidade de influência do Executivo sobre as decisões relacionadas à política monetária. Desde então, os mandatos do presidente do BC e do titular do Palácio do Planalto não são mais coincidentes. Agora, o chefe da autarquia assume sempre no primeiro dia útil do terceiro ano de cada governo.
“Estamos há praticamente uma década sofrendo com condições de trabalho que não são as mais adequadas para os servidores do BC, mas temos muito orgulho do Focus e esperamos que consigamos avançar em ter um arcabouço institucional mais adequado”, completou Galípolo.
“Cortar na própria carne”
No discurso em São Paulo, o presidente do BC não citou explicitamente o caso Master nem mencionou os ex-diretores da autoridade monetária afastados por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) após uma operação da Polícia Federal (PF), no âmbito da Operação Compliance Zero, em março deste ano, mas pregou a autonomia do BC para apurar e coibir eventuais malfeitos. Essa etapa das investigações atingiu o ex-diretor de fiscalização do BC Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-servidor Belline Santana.
“Quando tiver alguma coisa errada, é ter a coragem de apontar dentro do próprio BC e não só pedir desculpas, mas cortar na própria carne. Essa autonomia está dentro do BC”, afirmou Galípolo. “A luz do sol e a verdade são a única defesa que quem escolheu o caminho da honestidade tem.”
De acordo com a investigação, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana mantinham relação direta com o banqueiro Daniel Vorcaro e participavam de conversas nas quais eram discutidas estratégias do Banco Master diante da própria autoridade supervisora.
Galípolo celebra “divergências” do mercado
Em sua fala na abertura do evento sobre o Focus, Gabriel Galípolo defendeu a pluralidade de opiniões do mercado financeiro. O Focus é uma publicação semanal do BC, divulgada às segunda-feiras, que resume as projeções de mais de 100 instituições financeiras para os principais indicadores da economia, como inflação, taxa de juros, PIB e câmbio.
“Ainda que haja uma mediana nas opiniões de mercado, é importante mostrar que existem divergências, debates. Isso é importante para mostrarmos a pluralidade do debate e como essa junção de diversas opiniões é fundamental”, afirmou.
“Críticos da pesquisa Focus ressaltam questões como avaliações que podem ser menos objetivas e mais subjetivas ou algum comportamento de manada em alguma resposta. Mas esses componentes são tão importantes como qualquer outro componente mais objetivo e exato”, prosseguiu o presidente do BC.
Para Galípolo, o Focus traz “uma fotografia de como os agentes econômicos estão percebendo o futuro, como eles imaginam que o futuro será”. “São essas decisões tomadas a partir da percepção de hoje é que vão moldar o futuro”, disse.
“Em momentos como este, fica mais sublinhada a relevância de analisarmos as expectativas sobre o que vai acontecer no desdobramento da economia”, completou.
Na última edição do Focus, divulgada na segunda-feira (6/4), os analistas do mercado financeiro consultados pelo BC subiram a estimativa de inflação para 4,36% em 2026 – ou seja, abaixo do teto da meta. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), houve manutenção em 1,85%.
Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação para este ano é de 3%. Como há intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, a meta será cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.
