É hora de comprar? Dólar abaixo de R$ 5 favorece viagem ao exterior
Câmbio mais favorável aumenta poder de compra dos brasileiros fora do país. Mas é preciso ter cautela e planejamento, alertam especialistas
atualizado
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O pregão desta sexta-feira (17/4) consolidou o cenário observado no mercado financeiro ao longo da semana, com o dólar chegando a operar abaixo de R$ 5 e se mantendo no menor valor desde março de 2024.
Com o real ganhando força diante da moeda norte-americana, um dos setores mais diretamente beneficiados é o do turismo, favorecido pela oportunidade de os brasileiros viajarem mais ao exterior, aproveitando uma “janela de oportunidade” que não se abria havia mais de dois anos.
Com a moeda brasileira mais valorizada diante do dólar, deve aumentar a demanda por destinos internacionais e intercâmbios. Graças ao câmbio mais favorável, aumenta o poder de compra dos brasileiros fora do país. Ao mesmo tempo, o Brasil se torna mais competitivo para turistas estrangeiros, principalmente na América Latina, o que também ajuda o turismo.
No último pregão desta semana, o dólar operava em queda com o mercado financeiro de olhos voltados para o Oriente Médio, diante da trégua no conflito entre Israel e Líbano, da reabertura do Estreito de Ormuz e do avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã em torno de um possível acordo de paz.
Ormuz é o canal marítimo estratégico localizado entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, considerado o “gargalo” mais importante do mundo para a energia por concentrar cerca de 20% a 30% do petróleo mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL). O estreito é crucial para a economia global.
Às 11h01, o dólar caía 0,62%, a R$ 4,962. Mais cedo, às 10h25, a moeda norte-americana recuava 0,66% e era negociada a R$ 4,96.
O que explica a queda do dólar
De acordo com Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, a valorização do real frente ao dólar observada nesta semana é explicada por uma série de fatores, entre os quais a perda de força da moeda dos EUA globalmente e o aumento do fluxo de dólares com a venda de commodities como petróleo, minério e soja – das quais o Brasil é um dos principais produtores e exportadores.
Fatores pontuais relacionados aos conflitos envolvendo Estados Unidos, Irã, Israel e Líbano também pesam. Nesta sexta, o regime iraniano anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz, um dia depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, informar que Israel e Líbano acertaram um cessar-fogo de dez dias.
“O dólar vem recuando nas últimas sessões, abaixo de R$ 5,00, mesmo quando o ambiente ainda era de alta do petróleo e ainda não havia avanços nas negociações entre EUA e Irã. Diferentemente de outros momentos, esse cenário não gerou uma aversão a risco mais ampla, com os mercados globais relativamente estáveis”, explica Shahini.
“Nos últimos dias, o DXY até ganhou força após uma sequência de pregões consecutivos de queda, mas sem intensidade suficiente para sustentar alta do dólar frente ao real. No cenário doméstico, o diferencial de juros elevado, o fluxo estrangeiro ainda presente – reforçado pela demanda por ativos locais – e o suporte das commodities vêm sustentando a força do real. O resultado foi um câmbio em queda, ainda que moderada, em um ambiente ainda incerto, mas sem deterioração relevante para os ativos de risco”, afirma o analista.
O DXY (U.S. Dollar Index) é o índice que mede a força do dólar norte-americano em relação a uma cesta de seis moedas fortes. Criado em 1973, o indicador funciona como um termômetro da valorização ou desvalorização do dólar no mercado global.
Segundo Shahini, no Brasil, “o real tem mostrado resiliência, sustentado pelo diferencial de juros elevado, pelo fluxo externo e pelo patamar ainda alto do petróleo – que favorece os termos de troca – o que limita uma alta mais expressiva da moeda norte-americana”.
É hora de comprar dólar para viajar?
Segundo especialistas do mercado, a “janela de oportunidade” para viagens ao exterior, com o dólar abaixo de R$ 5 e o real se tornando mais competitivo em relação à moeda norte-americana, pode ser aproveitada – mas é preciso ter cautela e, principalmente, planejamento estratégico.
Embora o momento atual seja propício para a compra de dólares com o objetivo de tirar do papel viagens internacionais, o ideal é adotar uma estratégia de compra gradual, mirando no chamado “preço médio” – o que permite a diluição do risco e um valor mais equilibrado para a moeda ao longo dos próximos meses. Comprar dólar de forma fracionada, ao fim e ao cabo, evita as volatilidades próprias do mercado financeiro, especialmente em um contexto geopolítico incerto e ainda muito instável.
Além disso, a moeda deve sofrer influência do processo eleitoral neste ano. O Brasil terá eleições presidenciais em outubro – período que, historicamente, gera oscilações maiores sobre o mercado de câmbio.
“Olhando pelo histórico da cotação, trata-se de um bom momento. A última vez que o dólar operou em patamares próximos ao atual foi em fevereiro de 2024, ou seja, são mais de dois anos com a moeda negociando acima de R$ 5”, destaca Shahini. “Vale lembrar também que o dólar cai pelo segundo ano: aproximadamente 11% em 2025 e cerca de 8% no acumulado deste ano”, prossegue o analista.
“Os fundamentos para o real são positivos: diferencial de juros elevado, fluxo estrangeiro robusto, dólar mais fraco globalmente e impulso das commodities. Esses fatores têm sido os principais responsáveis pela queda do dólar e poderiam até justificar a moeda americana negociando sistematicamente abaixo de R$ 5. Por outro lado, 2026 é ano eleitoral, e esse ciclo costuma trazer volatilidade cambial, o que precisa ser levado em conta”, explica Shahini.
“A melhor estratégia para o turista é ir comprando aos poucos, formando um preço médio até a data da viagem. Em movimentos de alta do dólar, o investidor acaba chegando à viagem com um custo médio inferior à cotação do momento, o que suaviza o impacto no bolso.”
De acordo com dados da operadora e agência de viagens CVC, maior holding de turismo da América Latina, já foi registrada uma alta de cerca de 20% na procura por destinos desde que o dólar começou a perder força frente ao real.
O Airbnb, plataforma digital global que conecta pessoas que desejam alugar acomodações a viajantes buscando hospedagens, também reporta um crescimento de 20% nas buscas de brasileiros por viagens para fora do país durante o feriado da Semana Santa deste ano. Entre os destinos mais procurados, aparecem capitais europeias como Madri, Barcelona e Lisboa.
“A proporção ideal entre dinheiro vivo e saldo digital varia conforme a infraestrutura do destino: em locais altamente digitalizados como os EUA e Europa Ocidental, o recomendado é manter cerca de 90 a 95% na sua conta global, deixando apenas uma pequena reserva física para imprevistos”, recomenda Shahini. “Já em países com sistemas de pagamento menos desenvolvidos, vale aumentar um pouco a fatia de papel-moeda para garantir que você não fique na mão em estabelecimentos menores ou áreas rurais.”
