Aperto financeiro dos brasileiros é o maior em mais de uma década

Pesquisas mostram que o alto endividamento da população está fazendo sumir o dinheiro que sobra para o consumo das famílias no fim do mês

atualizado

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1 de 1 Imagem colorida, Mulher comprando em uma loja de conveniência e verificando seu recibo - Metrópoles - Divulgação de inflação e Selic - Foto: GettyImages

Duas pesquisas divulgadas nesta semana mostram que a situação financeira dos brasileiros é a mais apertada das últimas duas décadas.

Um dos levantamentos tem como fonte o Banco Central (BC). Ele mostrou que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas atingiu 29.7% em fevereiro (sendo 19% para quitar o principal e o restante para juros). O percentual foi o maior da série histórica do indicador, coletado desde 2005 – há 21 anos, portanto.

A outra análise foi produzida pela consultoria Tendências. Ela indica que o dinheiro que sobra no bolso das famílias brasileiras para consumo, depois do pagamento das principais contas, é o mais curto desde 2011 (há 15 anos), quando a análise começou a ser feita.

Em fevereiro, essa renda disponível ficou em 21% do total dos ganhos. Isso depois de quitadas despesas essenciais (habitação, transporte, comunicação, saúde, cuidados pessoais, educação e alimentação no domicílio), dívidas (principal e juros) e impostos (Imposto de Renda e contribuição previdenciária).

Retrato do aperto

O que esses dois levantamentos mostram é que o aperto financeiro das famílias brasileiras é o maior em mais de uma década. A renda disponível é a menor em 15 anos e o comprometimento dessa mesma renda com dívidas é o mais elevado em 21 anos.

E essas duas pesquisas conectam-se em um ponto. Quem explica essa relação é a economista Alessandra Ribeiro, diretora da Tendências: “O principal fator que leva à redução da renda disponível das famílias é o peso do serviço das dívidas”, diz. Ou seja, o endividamento é o vilão que corrói o dinheiro que poderia sobrar no bolso dos brasileiros para o consumo.

Quem paga mais

Outro estudo, este realizado por pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), acrescenta um fato importante a esse cenário. Ele explica por que os encargos com dívidas pesam cada vez mais na renda.

A análise mostra que o crédito está em expansão no Brasil, mas faz isso de forma desigual. Esse avanço deixa o custo e os riscos concentrados justamente nas dívidas das famílias.

Famílias dependentes

Isso ocorre, observa João Mário Santos de França, pesquisador do FGV Ibre, porque, por um lado, grandes empresas conseguem reduzir sua dependência do sistema bancário convencional acessando o mercado de capitais, por meio da emissão de títulos privados como debêntures, por exemplo. O setor público faz algo semelhante ao ampliar sua captação via títulos públicos.

“Mas as famílias permanecem dependentes do crédito bancário tradicional, concentradas em linhas com juros elevados, como cartão de crédito (cujos juros no rotativo chegam a 430% ao ano) e cheque especial”, diz França.

O trabalho dos pesquisadores do FGV Ibre aponta ainda que, enquanto as empresas acessam o crédito no Brasil pagando taxas de juros de 24% ao ano, as famílias enfrentam um custo mais elevado. Na prática, ele é de 62% ao ano – e registrou um aumento de 5,4 pontos percentuais nos últimos 12 meses.

Explicação

E como a situação chegou a esse ponto? Na avaliação de França, o problema começou a agravar-se na pandemia. “Naquela época, as famílias tiveram uma forte redução de renda e se endividaram”, afirma o pesquisador. “Logo depois da covid-19, a taxa de juros básica do Brasil, a Selic, que influencia todo o crédito bancário, também teve uma queda muito grande. Ela chegou a 2%. O que tornou os empréstimos mais atrativos.”

A questão é que a conjuntura mudou. A Selic chegou a 15% em junho de 2025 e, agora, está em 14,50%. “Os juros subiram demais”, diz o pesquisador do FGV Ibre. “E as pessoas entraram numa espiral em que não conseguiram pagar as dívidas, o que as levou para modalidades de crédito cada vez mais arriscadas, como o rotativo do cartão.”

O estudo da Getulio Vargas observa que o endividamento, que oscilava entre 37% e 42% das famílias no período anterior à pandemia, aproximou-se de 50% a partir de 2022, mantendo-se elevado desde então. De forma ainda mais significativa, o comprometimento de renda avançou de cerca de 22%–23% para níveis próximos a 30% em 2026.

Mudanças regulatórias

Além disso, destaca França, o Brasil passou por recentes mudanças regulatórias, que permitiram o aumento do número de instituições que oferecem empréstimos, como os bancos digitais e as fintechs. Os produtos ligados ao crédito, como cartões de benefícios associados ao consignado, também proliferaram. “Mas isso é feito em meio a muitas falhas de comunicação”, diz o economista.

“Por um lado, as entidades que emprestam dinheiro não conseguem ter informações claras a respeito da real capacidade de pagamento dos clientes”, afirma França. “Por outro, os dados que os clientes recebem sobre essas operações, como a incidência de juros, nem sempre são claros e eles não entendem o que realmente estão contratando. O fato é que o Banco Central promoveu a flexibilidade regulatória, mas ela não veio acompanhada por um sistema de monitoramento e supervisão compatíveis com a mudança.”

Os juros altos completam esse quadro, ampliando a voracidade dos encargos das dívidas. “Mas a política monetária (que define o patamar de juros no país), é reativa à política fiscal (o resultado da relação entre receitas e despesas do governo), que é expansionista”, diz França. “Isso quer dizer que, para baixar os juros, o governo tem de diminuir gastos.”

Consequências

Esse quadro geral tem ao menos duas consequências. Uma delas é o impacto negativo sobre o crescimento do país. “Ao reduzir a renda disponível das pessoas, a capacidade de compra da população diminui”, diz o pesquisador. “E o consumo das famílias representa cerca de 60% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.” Ou seja, com menos gastos, o produto avança menos.

O outro reflexo é o aumento do mau humor dos endividados com a economia, que tem forte potencial de invadir o debate eleitoral. O intrigante é que tal situação – com queda da renda disponível e endividamento extremo – formou-se em meio a dados macroeconômicos positivos: o desemprego é o mais baixo em mais de uma década e a economia cresce, embora em menor ritmo do que em anos anteriores.

Alívio arriscado

Não por acaso, o governo federal finaliza a proposta de uma nova fase do programa de renegociação de dívidas, agora conhecido como Desenrola 2.0 (o primeiro foi lançado em 2023). Ele poderá oferecer descontos de até 90% sobre débitos de pessoas físicas, permitindo o uso de parte do saldo do FGTS para a quitação dos valores. Na quinta-feira (30/4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse em rede nacional que a medida será anunciada na segunda-feira (4/5).

“Mas existe um risco embutido nesse eventual alívio”, afirma França. “O programa pode ser usado para provocar um novo endividamento, ao repetir padrões que já não deram certo até agora. O projeto não pode servir como um incentivo para que as pessoas tomem ainda mais crédito.”

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