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Moradora da pacata Parkland, cidade de 30 mil habitantes no sul da Flórida (EUA), a brasileira Kemily dos Santos Duchini, de 16 anos, estava dentro da sala de aula, na escola pública Marjory Stoneman Douglas, quando um atirador, de 19 anos, disparou contra estudantes, deixando ao menos 17 mortos na quarta-feira (14/2). Expulso do colégio por “motivos disciplinares” e proibido, inclusive, de entrar na instituição portando mochila, Nikolas Cruz é apontado como o responsável pelo ataque e está preso.

Durante o tiroteio, Kemily se comunicou com a mãe, Fabiana Santos, por meio do celular. “Mãe, tem alguém na minha escola atirando”, dizia a primeira mensagem de texto enviada pela adolescente. As informações são do site BBC Brasil.

“Ela disse que tinha um atirador e depois passou muito tempo em silêncio. Eu fiquei desesperada e achei que o pior tinha acontecido. Depois, ela reapareceu, disse que estava bem e que não podia usar o celular”, contou Fabiana. “Só me tranquilizei mesmo quando nos encontramos.”

Estudantes fizeram vídeos do ataque à escola Marjory Stoneman Douglas. Em um deles, são ouvidos vários disparos e os gritos de desespero de alunos escondidos atrás das carteiras. Em outro, as imagens foram gravadas após o tiroteio. Colegas choram enquanto policiais socorrem uma adolescente aparentemente ferida. Há pessoas no chão e sangue na sala de aula e no corredor do colégio.

Kemily relatou à BBC Brasil os momentos de desespero dentro da escola. Ela narrou a chegada da polícia à sala de aula e uma intensa circulação de fotos, vídeos e mensagens entre alunos do colégio enquanto o tiroteio acontecia nos corredores. Veja o depoimento:

“Eu estava em um prédio chamado Freshment Building, que foi o primeiro onde ele entrou. Estávamos fazendo tarefa e a primeira coisa que escutamos foram quatro tiros e barulhos altos, como se alguém estivesse jogando algo muito pesado no chão.

Nós ouvíamos homens gritando e não entendíamos. Os tiros estavam se aproximando da minha sala. Eu estava no segundo andar e percebia que ele estava subindo as escadas, chegando cada vez mais perto.

Então, ouvimos: “Ponha as mãos na cabeça!”. Era a polícia falando com alguém.

Mas continuamos ouvindo muitos tiros depois disso.

Enquanto tudo acontecia, a escola não fez nenhum aviso no sistema interno de alto-falantes. O sinal do fim da aula também não tocou.

Às 15h, bateram na porta da sala de aula dizendo que era a polícia. Por protocolo, regra da escola nesse tipo de situação, nós não podíamos abrir.

Então, eles quebraram a janela, pediram para todos colocarem as mãos na cabeça e começaram a fazer perguntas. “Tem alguém armado?” “Tem alguém ferido?”

Eles pediram para todos nós sairmos com as mãos nos ombros das pessoas da frente. Lá fora, eram mais de dez homens da SWAT com armas enormes, gritando para nós: “Corram!”, “Andem rápido!”, “Não olhem para trás!”.

O policial disse para não olharmos, mas uma amiga virou e viu uma menina morta no chão.

Nessa hora, eles pediram para colocarmos as mãos na cabeça. Andamos até a esquina da escola e lá fora encontramos a polícia, pais e mães chorando.

Encontrei uma amiga do terceiro andar, onde aconteceu a maior parte da destruição. Ela contou que viu quatro mortos — duas meninas caídas na entrada do banheiro.

No primeiro e no terceiro andares, os banheiros estavam trancados e elas não conseguiram entrar.

Todos os tiros foram na cabeça.

Eu estava calma. Não sou muito de ficar desesperada. As meninas todas choravam, tremiam muito.

A professora estava muito preocupada, você via na cara dela. Mas ela fazia de tudo para nos tranquilizar e dizia que o que estava acontecendo era um tipo de teste, uma encenação. Isso acontece às vezes.

Eu mandava mensagens para a minha mãe enquanto os tiros aconteciam. Eu dizia que estava bem, mas não conseguia escrever o tempo todo porque a professora mandou não usarmos os celulares.

Ela falava para ninguém mandar mensagens, mas estava todo mundo desesperado.

Recebi uma foto de uma menina lá fora na ambulância e um vídeo com um corpo ensanguentado em outra sala de aula.

Não mostrei para os meus colegas porque eles já estavam muito desesperados.

Na minha sala ninguém gritou excessivamente ou fez escândalo. Mas soube que em outra sala teve um menino que teve um ataque de pânico muito forte.

O encontro com a minha mãe foi muito bom. Ela estava muito feliz por me encontrar bem.

O que fica dessa experiência? Bom, eu nunca tinha prestado atenção em gun control (controle de armas), achava que não tinha a ver comigo.

Mas, agora que bateu na minha escola e aconteceu comigo, a gente vê de um jeito diferente. Esse menino provavelmente não tinha idade para ter uma arma. Depois soubemos que ele foi expulso da escola porque encontraram balas na mochila dele.

Eu não era antes contra o controle. Nem contra nem a favor. Agora eu acho que tem que ser mais regulado.”