Trump e América Latina: entre a força e o “quintal” estratégico
Entre ameaças, gestos diplomáticos e disputas por influência, Trump reativa a lógica da Doutrina Monroe na relação com a América Latina
atualizado
Compartilhar notícia

A América Latina voltou ao centro da política externa dos Estados Unidos, não como prioridade de cooperação, mas como espaço de disputa, pressão e demonstração de força.
Sob o segundo mandato de Donald Trump, ofensivas militares, sanções econômicas e ameaças diretas a governos latino-americanos reacendem uma lógica histórica: a de que o continente segue sendo tratado por Washington como uma zona natural de influência, um “quintal estratégico” a ser controlado em nome da segurança nacional.
Embora a retórica de Trump seja mais explícita e agressiva, o fundamento dessa política não é novo.
Desde a Doutrina Monroe, formulada em 1823, passando pelo Corolário Roosevelt, em 1904, os Estados Unidos se reservaram o direito de intervir política e militarmente na região sempre que seus interesses estratégicos estivessem em jogo.
O que muda agora é o contexto: um mundo multipolar, a crescente presença da China e da Rússia na América Latina e o uso do discurso antidrogas e antimigração como justificativa para ações de força.
Ameaça como política
- No início de dezembro, Trump elevou o tom ao afirmar que países envolvidos na produção ou no tráfico de drogas destinadas ao mercado norte-americano poderiam ser alvo de ataques militares.
- “Qualquer um que fabrique isso e venda para o nosso país está sujeito a ataques. Não apenas a Venezuela”, declarou.
- A fala deixou de ser apenas retórica em 3 de janeiro de 2025, quando os Estados Unidos realizaram uma operação militar em Caracas que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores.
- Ambos foram levados a Nova York e indiciados por crimes ligados ao tráfico internacional de drogas — acusações que, até o momento, não foram acompanhadas da apresentação pública de provas.
Corolário Roosevelt, versão século 21
Para o Gustavo Menon, professor de relações internacionais e direito da Universidade Católica de Brasília, o que se observa é uma atualização explícita da política intervencionista dos EUA.
“A nova política de segurança nacional dos Estados Unidos reafirma a Doutrina Monroe reinterpretada como um ‘Corolário Trump’, priorizando a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”, analisa.
Segundo Menon, sob o pretexto de combater a migração ilegal, o narcotráfico e a influência de rivais estratégicos, Washington retoma a ideia da América Latina como área de controle direto.
“Trata-se de uma abordagem intervencionista, unilateral e, consequentemente, ilegal, que rompe com tratados de direito internacional e viola a Carta das Nações Unidas”, afirma.
Colômbia: do confronto ao afago
A ofensiva também atingiu a Colômbia, historicamente um dos principais aliados de Washington na região. Ao longo de 2025, Trump acusou o presidente Gustavo Petro de “liderar o tráfico de drogas”, suspendeu subsídios e autorizou ataques a uma embarcação colombiana supostamente ligada ao Exército de Libertação Nacional (ELN).
Petro reagiu com dureza e chegou a afirmar que o republicano estaria “planejando um golpe de Estado” contra seu governo.
O cenário, porém, mudou. Após um ano de choques diplomáticos, os dois presidentes se reuniram na Casa Branca. O encontro foi marcado por gestos públicos de cordialidade.
Petro publicou fotos apertando a mão de Trump e exibindo um livro autografado pelo republicano com a dedicatória: “Gustavo: uma grande honra. Eu amo a Colômbia.”
A reaproximação indica que, apesar da retórica hostil, o norte-americano também utiliza a via da diplomacia como instrumento tático, alternando pressão e afagos conforme o interesse estratégico do momento.
Cuba no radar
Agora, o foco se desloca para Cuba. Após endurecer sanções, cortar o fornecimento indireto de petróleo e autorizar tarifas contra países que abastecem a ilha, Donald Trump afirmou ver chances de um acordo para evitar uma ação militar.
A Casa Branca chegou a afirmar que Cuba vive seus “últimos momentos” e estaria à beira do colapso. Ainda assim, Trump sinalizou abertura ao diálogo.
O presidente Miguel Díaz-Canel reforçou que Cuba não está em estado de guerra, mas se prepara para essa possibilidade diante do cenário regional.
Brasil entre cautela e pragmatismo
Inserido nesse tabuleiro, o Brasil adota uma postura cautelosa. Após embates públicos no passado, o republicano passou a adotar um tom mais cordial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a quem frequentemente elogia e cita como possível articulador em iniciativas de paz.
Ainda assim, o Planalto evita confrontar diretamente Washington sobre Venezuela e Cuba, temendo retaliações comerciais e pressões econômicas, especialmente em setores estratégicos como comércio e tecnologia.
Hegemonia em disputa
Para Gustavo Menon, o discurso antidrogas funciona como um verniz para um objetivo mais amplo. “No fundo, trata-se de uma política de prevalência da força para conter o avanço sino-russo na América Latina e recompor a hegemonia norte-americana em um sistema internacional em transformação”, avalia.
Segundo ele, a ausência de mecanismos regionais fortes aprofunda a vulnerabilidade latino-americana. “A região está profundamente dividida, em crise de multilateralismo e sem instrumentos eficazes de resposta às ações ilegítimas dos Estados Unidos”, conclui.






