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Trump busca na América Latina saída para crise hegemônica dos EUA

Durante crise interna e em meio a embates com Petro e Maduro, Trump foca na América Latina para recompor o poder dos EUA no cenário global

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1 de 1 Imagem colorida de arte de Donald Trump, Gustavo Petro e Nicolás Maduro - Foto: Arte Metrópoles/Gabriel Lucas

Em meio a ataques militares no Caribe e acusações contra o presidente colombiano Gustavo Petro, o norte-americano Donald Trump volta atenção à América Latina, como peça central para recompor o poder dos Estados Unidos no tabuleiro geopolítico. A nova ofensiva de Washington ocorre em um momento em que o país enfrenta uma própria crise de hegemonia e tenta conter a expansão econômica e diplomática da China.

Os EUA enfrentam hoje duas crises: uma interna, causada pela divisão política do país, e outra externa, marcada pela dificuldade em manter a influência no cenário global. Ao lidar com esse cenário, Trump recorre a América Latina na tentativa de se “reestruturar”.


Ofensiva no Caribe e pressão sobre vizinhos

  • A escalada recente teve como palco as águas do Caribe. Na última semana, Trump acusou o presidente colombiano Gustavo Petro de “liderar o tráfico de drogas” e anunciou a suspensão de subsídios de Washington a Bogotá.
  • Poucas horas depois, o secretário de Guerra norte-americano, Pete Hegseth, confirmou um novo ataque militar contra uma embarcação colombiana supostamente ligada ao grupo guerrilheiro ELN — classificado pelos EUA como organização terrorista.
  • Segundo o Pentágono, o barco transportava “quantidades substanciais de drogas”, mas nenhuma prova concreta foi apresentada.
  • Em resposta, Petro acusou os Estados Unidos de violarem a soberania colombiana, afirmando que um pescador civil foi morto pelas forças norte-americanas.
  • Nessa terça-feira (21/10), o colombiano chegou a acusar Trump de planejar um golpe de Estado contra o governo dele.

Ao Metrópoles, o historiador Roberto Moll, da Universidade Federal Fluminense (UFF), avaliou que o movimento de Trump deve ser lido a partir de um contexto mais profundo.

Para legitimar a intervenção e a exploração da América Latina, o governo recuperou a ‘Guerra contra as Drogas’ como justificativa moral. Isso cria uma narrativa de que o problema da drogadição nos Estados Unidos é responsabilidade dos latino-americanos”, diz.

Interesse econômico

A estratégia do republicano combina pressão militar, chantagens econômicas e negociações seletivas com governos da região. Além da Colômbia, o presidente norte-americano intensificou as ameaças à Venezuela, impôs tarifas ao Brasil e anunciou apoio financeiro à Argentina, onde aposta no alinhamento de Javier Milei.

Na visão de Moll, a política externa serve a múltiplos interesses internos. “O avanço de Trump sobre a América Latina busca abrir caminho para investimentos transnacionais assegurados pelos EUA, sobretudo na exploração de recursos naturais e de trabalho de baixo custo. A região é um manancial de terras raras e petróleo, elementos fundamentais diante do desenvolvimento tecnológico acelerado”.

Disputa com a China e riscos para o Brasil

A presença chinesa na América Latina é outro fator central. Nas últimas duas décadas, Pequim ampliou investimentos em infraestrutura, energia e mineração na região, áreas antes dominadas por Washington.

“A China concorre com os Estados Unidos como centro articulador do capital transnacional, oferecendo um projeto alternativo, contrário ao liberalismo”, explica Moll. “Por isso, Trump tenta afastar Pequim de setores estratégicos, como o acesso a terras raras e petróleo em condições favoráveis.”

No tabuleiro latino-americano, o Brasil ocupa uma posição delicada: enfrenta a imposição de tarifas por parte do governo Trump, que busca, ao mesmo tempo, garantir apoio político e ampliar a liberdade de atuação das Big Techs no país.

Segundo o historiador, o custo político de cada escolha é alto: apoiar a Venezuela significaria uma nova escalada com Washington, já apoiar os EUA colocaria o Brasil como avalista de uma intervenção na soberania de um país vizinho.

“Se o Brasil não agir, pode ser visto como uma liderança frágil. Mas se apoiar os Estados Unidos, será percebido como conivente com uma agressão internacional”, avalia. “O caminho mais coerente é ampliar parcerias internacionais e atuar como mediador, sem interferir na soberania venezuelana.”

Trump busca recompor a hegemonia, controlando a narrativa

Ao adotar uma política externa agressiva, combinada a um discurso “moralista” e à defesa de interesses econômicos, o governo Trump busca reagir à crise que atinge o centro do poder norte-americano.

Os Estados Unidos já entraram na quarta semana de shutdown, tornando-se a terceira paralisação mais longa da história do país.

A estratégia, no entanto, vai além da retórica contra o narcotráfico e reflete uma tentativa de recompor a hegemonia interna e externa dos Estados Unidos, criando conflitos entre aliados que querem intervenções e investimentos e a população que rejeita os custos dessas ações.

“De um lado, há aliados que pedem intervenções e investimentos; de outro, há uma base trabalhadora empobrecida, que rejeita esses gastos. A América Latina é o caminho mais fácil para equilibrar essas tensões”, analisa Moll.

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