Rússia é acusada de doutrinar e militarizar crianças ucranianas
Segundo investigação da OSCE, Rússia militariza crianças da Ucrânia que estão sob seu domínio desde os 6 anos de idade

A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) acusou a Rússia de doutrinar, e militarizar, crianças ucranianas que vivem sob influência de forças russas em território ocupados e aquelas deportadas ilegalmente da Ucrânia. A informação consta em um relatório com mais de 140 páginas lançado nesta quinta-feira (9/7), consultado pelo Metrópoles.
Segundo investigações do Mecanismo de Moscou — que permite o envio de missões da OSCE para investigar possíveis abusos de direitos humanos —, a situação é uma política de Estado da Rússia. A mesma ferramenta foi acionada em meados de 2023, quando a organização acusou o governo russo de deportar à força crianças ucranianas.
Especialistas enviados para analisar os casos afirmam que Moscou adota um sistema organizado voltado para a doutrinação e militarização de crianças. O relatório aponta que a estrutura é uma combinação de educação, burocracia, coerção familiar, propaganda e preparação para o serviço militar.
A investigação, aberta após 41 países acionarem a OSCE, aponta que crianças ucranianas são expostas a propaganda de guerra desde os 6 anos, e ao apagamento de suas identidades, ainda nas salas de aula. Entre os 13 e 18 anos elas recebem treinamento militar que inclui combates, manuseio de armas, operação de drones e medicina tática.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAos 16 anos, os adolescentes da Ucrânia que vivem sob influência da Rússia passam a receber notificações de alistamento militar — que pode acontecer aos 18 anos.
Estimativas apontam que as crianças ucranianas mais afetadas pela doutrinação, cerca de 1,6 milhões, são aquelas que vivem em áreas no território da Ucrânia ocupadas pela Rússia, como a Crimeia, Donetsky, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia.
O outro grupo é composto por menores de idade que foram deportados ilegalmente para o território russo.
Crianças deportadas
- A Ucrânia e organizações internacionais acusam a Rússia de deportar mais de 20 mil crianças ucranianas desde o início da guerra, em 2022.
- Investigações apontam que os menores são levados por militares de áreas ocupadas pelos russos na Ucrânia.
- As acusações culminaram em um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e a comissária russa para os direitos da criança, Maria Lvova-Belova.
“Durante anos, a Rússia vem transformando crianças ucranianas sob ocupação em soldados: ensinando-as a manusear armas e operar drones de combate em sala de aula, além de emitir notificações de alistamento a partir dos 16 anos. A missão da OSCE mostrou, pela primeira vez, que isso não é uma série de crimes isolados, mas um sistema único, construído deliberadamente pelo Estado”, disse Maksyum Maksymov, chefe da Bring Kids Back, iniciativa criada pelo governo da Ucrânia para atuar no resgate de crianças levadas para a Rússia à força.
Apagamento de identidades
A organização europeia ainda acusou o governo Vladimir Putin de manter um ambiente de pressão extrema contra famílias que vivem sob a ocupação. A coação incluí a exigência de documentos russos, e não ucranianos, para o acesso à educação, saúde, bancos e empregos.
Pais também são ameaçados quando não matriculam os filhos em escolas russas, e professores que rejeitam o currículo imposto pelo Kremlin correm o risco de demissão e até mesmo detenção.
Para o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, as ações da Rússia têm como objetivo apagar a identidade de jovens ucranianos.
“Militarização, doutrinação, assimilação forçada e deportação servem a um único objetivo: destruir a identidade de uma geração inteira de ucranianos. Isso constitui crime contra a humanidade. O destino das crianças ucranianas deve ser parte central de qualquer negociação de paz, e todos os envolvidos nesses crimes devem ser responsabilizados”, disse o chanceler.
Até o momento o governo da Rússia, que não colaborou com a missão da OSCE, não se pronunciou sobre o assunto.


