Bolsonaro quebra protocolo e vai ao Muro das Lamentações com Netanyahu

O presidente fica em Israel até a próxima quarta-feira (3/4) e cumpre uma série de compromissos oficiais

atualizado 01/04/2019 11:35

Alan Santos/PR

Enviado especial a Jerusalém (Israel) – Em uma tarde chuvosa, o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL) visitou na tarde desta segunda-feira (1º/4) o Muro das Lamentações, considerado um dos lugares mais sagrados do judaísmo. Ao lado dele, estava o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

A visita conjunta é vista com restrições pela comunidade internacional. O local, oficialmente, é partilhado entre os judeus e os palestinos. Ao se apresentar ao lado do líder dos judeus, o presidente brasileiro estaria ignorando a partilha do território. Apenas como comparação, o presidente norte-americano, Donald Trump, visitou o local sozinho, mesmo em visita oficial.

Bolsonaro estava acompanhado dos ministros da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes e das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o assessor especial Felipe Martins e os quatro parlamentares que acompanham a comitiva, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente. Ele acenou aos jornalistas, mas não parou para falar com a imprensa.

O muro, que fica entre o antigo templo de Herodes, do qual restou apenas a construção, divide a área dos judeus da chamada esplanada das mesquitas. Do lado muçulmano, essas mesquitas são igualmente sagradas, pois de uma delas teria partido Maomé ao céu.

Antes da ida ao local sagrado, Bolsonaro entregou a mais alta honraria da diplomacia brasileira, a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, ao agrupamento israelense que auxiliou no resgate às vítimas da tragédia de Brumadinho (MG), em janeiro.

Na cerimônia, que contou com a participação de boa parte dos militares que estiveram no Brasil, Bolsonaro agradeceu a assistência recebida e destacou que essa ação fortificou a relação entre os países.

“O trabalho dos senhores foi excepcional. Fez com que os laços de amizade de há muito se fortalecessem. Nós, brasileiros, nunca esqueceremos todo o apoio e ajuda humanitária de vocês”, disse.

Conflitos
O exército de Israel é considerado um dos mais eficientes de todo o mundo. Com conflitos abertos desde que o país nasceu, no fim dos anos 40, a tecnologia usada na área é considerada uma das melhores do planeta.

No discurso de recepção a Bolsonaro, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, destacou os confrontos entre árabes e israelenses que tiveram início no último sábado. “Presidente, o senhor veio a Israel em um momento tenso. Eu ordenei que as forças armadas ficassem totalmente posicionadas ao redor da Faixa de Gaza. Isso inclui tanques, artilharia, forças no solo e no ar. Nós estamos preparados para qualquer cenário e – se for necessário – até mesmo uma campanha extensa. Faremos o que for preciso pela segurança de Israel”, afirmou.

Os conflitos entre Israel e os países vizinhos têm uma longa história. O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), atualmente pesquisador da Universidade de Tel Aviv, Samuel Feldberg, lembra que a origem das disputas políticas na região tem a ver com o próprio nascimento de Israel.

“Quando, em 1949, o Estado é criado, os países árabes não aceitam e atacam Israel. Daí vem a Guerra de Independência”, conta Feldberg. A Organização das Nações Unidas (ONU), porém, reconheceu a nova nação. Assim como fez o Brasil.

Arte/Metrópoles

Novos conflitos vieram. A população que vivia no local e que não aceitava a formação dessa pátria acabou, pouco a pouco, sendo isolada em duas regiões: a Faixa de Gaza, no sul, e a Cisjordânia, no leste. Esse povo, que não tem um Estado próprio, é chamado de palestino.

“Quando fala-se da Palestina, temos um problema de definição. Temos que diferenciar o território da Autoridade Palestina, que é parte da Cisjordânia, e a Faixa de Gaza, dominada pelo Hamas e a jihad islâmica”, explica Feldberg.

Segundo o acadêmico, a Cisjordânia, dominada pelo grupo chamado Autoridade Palestina, é um território no qual há muita cooperação com Israel. Inclusive, com intercâmbio de trabalhadores e investimentos. Gaza, por outro lado, não aceita e prega a extinção do Estado judeu.

“Em Gaza existe um diálogo tenso, mas existe. A questão é que os grupos políticos que dominam têm um lado sectário”, prossegue o professor Samuel Feldberg.

Do lado israelense, igualmente, há setores que se recusam a conversar com os palestinos e, até o momento, o governo não conseguiu articular uma solução que contemple a coexistência dos dois países.

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