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Preocupado – e até irado, por ter sido enganado em alguns casos, como dizem assessores próximos –, o papa Francisco nomeará nesta quinta-feira (14/06) uma nova comissão de peritos para investigar abusos na Igreja. Nesta quarta-feira (13), uma operação policial contra 14 sacerdotes mirou o Tribunal Eclesiástico de Santiago. Enquanto isso, quase 2 mil casos de denúncias contra o clero por abuso sexual se acumulam no Vaticano, sem definição.

Oficialmente, a Santa Sé afirma continuar trabalhando nos casos do Chile e destaca nova comissão a ser enviada para “investigar e aprofundar as investigações sobre os abusos”.

As denúncias de abuso em Santiago datam de 2007 e há poucas provas a respeito – por isso, a busca e apreensão envolvem até o Tribunal Eclesiástico. “Ninguém está à margem da lei”, afirmou o fiscal regional de O’Higgins, Emiliano Arias. O caso voltou a público na semana passada e, preventivamente, a Santa Sé suspendeu os 14 religiosos.

Ainda em Santiago, como enviado do papa para acompanhar a situação naquele país, o arcebispo de Malta, Charles Scicluna, defendeu colaboração da Igreja com a sociedade civil. “O abuso de menores não é somente um delito canônico, também é um delito civil.” Como resposta conjunta, será aberto um escritório somente para receber denúncias de abuso.

Escândalo
A discussão sobre o tema foi ampliada este ano. Em janeiro, Francisco defendeu o bispo Juan Barros Madrid, acusado de acobertar crimes de outro religioso, Fernando Karadima. Antes, em 2015, ele já havia escolhido Barros para liderar uma importante diocese no país e passou a insistir que não existiam provas contra ele.

Karadima foi quem supostamente abusou do chileno José Andres Murillo, ainda em sua infância. Outra vítima, o britânico Peter Saunders contou que, ainda em 2015, levou o caso para a atenção do Vaticano. “A resposta dos cardeais falava sobre falta de tempo na agenda do papa para avaliar uma situação em um lugar obscuro do mundo”, disse. “Esse tal lugar obscuro hoje está causando um problema enorme”, completou.

Em maio, o líder da Igreja mudaria seu tom. Devido a uma investigação encomendada pelo papa Francisco em total sigilo criou-se um documento com 2,3 mil páginas de uma detalhada avaliação. Ao concluir a leitura do informe, o pontífice enviou carta aos bispos sul-americanos, descrevendo sua “dor e vergonha”.

Dentro do Vaticano, aliados do papa insistem que ele foi enganado. Tal ira foi traduzida em um comunicado no qual ele reconhece ter cometido “sérios erros de avaliação e de percepção sobre a situação, especialmente por causa da falta de informação verdadeira e equilibrada”. Em público, ele pediria perdão pelos “graves erros” – responsáveis pela renúncia coletiva dos bispos chilenos. Três renúncias foram aceitas nesta semana: Juan Barros, de Osorno, Gonzalo Duarte e Cristian Caro de Puerto Montt.

Orgulho
Apenas em 2012, último ano antes da posse de Francisco, a Santa Sé recebeu informações sobre 612 casos de abusos – 418 deles eram contra crianças. Nos anos entre 2006 e 2012, 3 mil casos contra o clero foram apresentados à cúpula da Igreja. Em 2014, no segundo ano de Francisco, muitos começaram a ver uma resposta para a questão dos abusos.

Uma das vítimas de abusos por padres na adolescência, o britânico Peter Saunders diz ter se sentido orgulhoso da Igreja quando Francisco decidiu criar uma comissão a respeito. E ainda mais impressionado quando o Vaticano o convidou a fazer parte da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores. “Eu sinceramente acreditei que algo seria feito”, disse.

“Mas eu fazia muitas perguntas e, um dia depois de um ano e meio, perguntei ao Vaticano sobre o real avanço das investigações”, afirmou ele. No dia 16 de fevereiro de 2015, Saunders foi convidado a se retirar da comissão, sob o pretexto que ele deveria “refletir melhor” sobre como iria ajudar nos trabalhos. “Até aquele momento, o papa nunca tinha ido a uma reunião da comissão e, em uma das oportunidades, indaguei sobre sua ausência.”

Quanto ao trabalho da Comissão para a Proteção de Menores, o Vaticano indica que, em seus primeiros quatro anos, o órgão “trabalhou com mais de 200 dioceses e comunidades religiosas no mundo para criar uma consciência e educar pessoas sobre a necessidade de proteção em casas, paróquias, escolas, hospitais e outras instituições”. Para a entidade, introduzir uma cultura de prevenção continua sendo “o objetivo e maior desafio”.

Punições
Para as vítimas, o incômodo é na falta de austeridade das punições. Em 2014, Silvano Tomassi, embaixador do Vaticano na ONU, declarou que a Santa Sé investigou 3,4 mil casos desde 2004 e 848 padres foram destituídos. Porém, apenas outros 2,5 mil foram enviados a mosteiros para terem uma vida de “oração e penitência”.

Para o francês François Devaux, também vítima de abuso sexual em sua infância em uma Igreja de Lyon, a estimativa é de que entre 4% e 5% dos padres no mundo podem estar envolvidos em algum tipo de crime. Na Austrália, os dados oficiais de uma investigação apontaram para 7% dos padres.

A avaliação de Devaux é de que a pressão popular tem obrigado o Vaticano a reagir. “Mas pedimos medidas urgentes”, disse. “Não temos a intenção de destruir a Igreja. A questão agora é como o papa vai lidar com o assunto reconhecido por ele mesmo como um problema”, completou.

O chileno José Andres Murillo, vítima de abusos e um dos delatores da situação em seu país ao papa Francisco, confirmou à reportagem a resistência ainda existente dentro do Vaticano para tratar do assunto.

“Em um encontro meu com o papa, eu sugeri um olhar dele também para a África. Em resposta, ele me disse não considerar o país era um problema grande. Eu lhe disse: o senhor está errado.”

Lição
Murillo ainda rejeita a tese do papa Francisco não ter conhecimento sobre as ocorrências no Chile. “É impossível. Eu mesmo lhe entreguei tudo.” Mas a esperança, interna e entre as vítimas, é que o caso sirva de “lição” ao papa e o ajude a mudar de uma forma permanente sua convicção.

 

 

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