ONU: número de pessoas deslocadas à força cai pela 1ª vez em 10 anos
Quantidade deslocadas à força diminuiu em 2025, a primeira queda em 10 anos, mas 117,8 milhões de pessoas ainda continuam em tal condição

O número de pessoas deslocadas à força ao redor do mundo, devido a guerras ou crises humanitárias, caiu pela primeira vez em 10 anos, e atingiu a marca de 117,8 milhões de pessoas em tais condições em 2025. No ano anterior, a quantidade era de 123,3 milhões.
Os dados constam no relatório Tendências Globais: Deslocamento Forçado em 2025, divulgado pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) nesta quinta-feira (11/6).
Dos 117,8 milhões que estavam deslocados 2025, grande parte deles, 68,6 milhões, foram indivíduos que deixaram suas casas, mas permaneceram dentro das fronteiras de seus próprios países. Eles são classificados pela Acnur como Pessoas Deslocadas Internamente (IDPs).
Somente no Sudão, que enfrenta uma guerra civil esquecida desde 2023, 9,1 milhões fogem da violência dentro do próprio país.
O conflito, envolvendo as Forçadas Armadas Sudanesas (SFA) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), é considerado pela ONU como a maior crise humanitária do planeta atualmente. Estimativas recentes apontam que quase 19,5 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda no país, provocada pela onda de violência que busca o controle do poder no país.
O segundo maior grupo são de pessoas refugiadas, que buscaram proteção em outros países. Eles somaram 40,2 milhões no último ano, levando em conta aqueles sob proteção da Acnur, da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) e pessoas com necessidades de proteção internacional.
Somente no último ano, 5,4 milhões de pessoas foram forçadas a deixarem seus países, sendo que oito nações foram responsáveis por quase seis em cada dez casos: Sudão (952.700), Ucrânia (788.100), Venezuela (455.300), Sudão do Sul (232.800), Burkina Faso (221.300), Afeganistão (191.400), Mali (177.200) e Mianmar (165.400).
Do total de refugiados no mundo em 2025, 56% deles pessoas entre 18 e 59 anos. Enquanto isso, o número de crianças entre com idades de 0 a 17 anos bateu a casa dos 39%.
Enquanto isso, 9 milhões de pessoas se enquadraram em solicitantes de asilo, que aguardavam uma decisão sobre seus pedidos até o fim de 2025.
O que explica a queda?
De acordo com a agência da ONU, a queda foi motivada, principalmente, pelo retorno de deslocados a seus países de origem. Ao todo, 14,7 milhões de pessoas, entre refugiados e deslocados internamente, retornaram a seus países ou residências no último ano — um aumento de 50% quando comparado com 2024.
Cerca de 92% desses retornos se concentraram em apenas seis países, sendo quatro deles alvos de guerras ainda ativas.
- República Democrática do Congo (RDC) – 3,6 milhões de retornos, sendo a maioria de deslocados internos.
- Sudão – 3,6 milhões de retornos, dos quais 2,9 milhões eram deslocados internos, e 651.500 refugiados em outros países.
- Síria – 3,3 milhões de retornos, cujo 2 milhões eram deslocados internos.
- Afeganistão – 2,0 milhões de retornos, com a maioria, 1,9 milhões, sendo refugiados.
- Ucrânia – 718.300 mil retornos, incluindo 579 mil pessoas que foram deslocadas à força dentro do próprio país.
- Mianmar – 415.200 mil retornos.
O relatório, no entanto, destaca que boa parte dos retornos não aconteceram de forma voluntária, e foram provocados por circunstâncias adversas.
No Afeganistão, por exemplo, grande parte deles aconteceram após mudanças em políticas de países vizinhos que antes abrigavam refugiados afegãos. Segundo estimativas da Acnur, somente em abril de 2025 mais de 280 mil cidadãos foram pressionados a voltar ao país, ou deportados pelos governos do Paquistão e Irã.
Em 2023, cerca de três anos após o Talibã retomar o controle do Afeganistão, o governo paquistanês iniciou uma política de deportação que visava, principalmente, afegãos. As medidas afetaram também aqueles que estava no país com documentação regular.
Os recentes conflitos e tensões entre Paquistão e Afeganistão também aceleraram o retorno forçado de milhares de afegãos, sob a justificativa paquistanesa de questões de segurança.
“Muitos desses retornos ocorreram não em condições de segurança e estabilidade, mas sob pressão e para países onde a insegurança persiste, onde a infraestrutura foi danificada e onde serviços básicos e oportunidades econômicas continuam escassos”, explica o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados, Barham Salih.
“Retornos voluntários para uma Síria pós-conflito e retornos sob pressão para o Afeganistão não são a mesma coisa. Precisamos ser honestos sobre essas diferenças, pois misturá-las corre o risco de enfraquecer o próprio princípio do retorno voluntário, seguro e digno, que está no centro das soluções duradouras”, acrescenta Salih.


