Guerra da Ucrânia transforma Olimpíadas de Inverno em campo político
Caso de Vladyslav Heraskevych expõe disputa entre neutralidade olímpica e memória da guerra na Ucrânia, que já atravessa o esporte
atualizado
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A desclassificação do atleta ucraniano Vladyslav Heraskevych dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 rompe, mais uma vez, a narrativa de que o esporte pode existir como um território neutro. Ao tentar competir com um capacete em homenagem a atletas mortos na guerra contra a Rússia, o ucraniano levou para a pista olímpica uma memória que já não cabe apenas no front.
Quase quatro anos após a invasão russa, a guerra na Ucrânia já extrapola o campo militar e se projeta sobre arenas diplomáticas, culturais e esportivas, afetando diretamente atletas, instalações e o próprio ecossistema olímpico.
A ideia histórica de “paz olímpica” passa a colidir com a realidade do tabuleiro internacional atual.
Homenagem como gesto político
A Ucrânia criticou duramente o Comitê Olímpico Internacional (COI) após a decisão que impediu Heraskevych de competir nas provas de skeleton em Milão-Cortina 2026.
O atleta utilizava um “capacete memorial”, com imagens de esportistas ucranianos mortos desde o início da guerra em 2022.
Segundo comunicado da entidade, a exclusão ocorreu após o ucraniano se recusar a substituir o equipamento por uma braçadeira preta, alternativa considerada excepcional dentro das diretrizes sobre expressão dos atletas.
A decisão foi baseada na Regra 50.2 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas, religiosas ou raciais em locais oficiais de competição.
Tal medida é frequentemente utilizada para restringir manifestações durante competições e cerimônias. Pelas normas atuais, atletas podem se posicionar em entrevistas, redes sociais ou zonas mistas, mas não no momento da competição.
Em defesa do uso do capacete, Vladyslav Heraskevych afirmou que o adereço era utilizado como um ato de homenagem, e não político.
No entanto, a aplicação rígida da regra, em contextos de guerra, pode gerar assimetrias na interpretação do que é considerado manifestação política ou gesto humanitário.
Para o Comitê Olímpico, a medida buscou preservar o ambiente esportivo de “distrações políticas”.
A presidente da entidade, Kirsty Coventry, afirmou que as regras continuam sendo consideradas relevantes no cenário atual e que eventuais revisões dependem do próprio movimento olímpico e dos atletas.
Capacete memorial
- O capacete utilizado por Heraskevych exibia retratos de atletas, treinadores e até jovens esportistas ucranianos mortos durante o conflito.
- Entre os 24 homenageados, estavam nomes ligados ao movimento olímpico e às seleções nacionais, muitos dos quais morreram em combate ou em ataques a civis.
- O gesto, segundo o próprio atleta, era uma tentativa de lembrar que aqueles esportistas “poderiam estar nas Olimpíadas, mas não estão mais aqui”.
- Após a desclassificação, Heraskevych definiu a decisão como “o preço da nossa dignidade”, transformando sua exclusão em um símbolo político involuntário dentro da lógica institucional do esporte global.
- O atleta chegou a recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), exigindo sua reintegração.
Mais de 500 atletas ucranianos mortos
Dados oficiais divulgados pela Ucrânia em 2025 indicam a dimensão do impacto direto da guerra sobre o esporte nacional.
Segundo a chancelaria ucraniana, até março daquele ano, 591 atletas e treinadores haviam sido mortos desde o início do conflito no Leste Europeu, enquanto outros 22 permaneciam em cativeiro e 11 estavam desaparecidos.
Conforme anuncia o comunicado, 725 instalações esportivas foram danificadas ou destruídas por ataques russos, incluindo 17 centros de treinamento olímpicos, paralímpicos e voltados ao esporte para surdos.
Kiev acusa silenciamento
A reação ucraniana foi imediata e carregada de tom diplomático. O ministro das Relações Exteriores, Andrii Sybiha, declarou que o COI “baniu não o atleta, mas a própria reputação”, acusando a entidade de intimidar um gesto que, segundo Kiev, tinha caráter memorial, e não político.
Já o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também saiu em defesa do atleta, afirmando que o esporte não deveria significar “amnésia” diante da guerra.
Para ele, impedir a homenagem equivale a minimizar o impacto humano do conflito em um espaço que historicamente se apresenta como símbolo de paz e união internacional.
Zelensky concedeu ainda uma condecoração estatal ao atleta, afirmando que a coragem dele “vale mais do que qualquer medalha”.
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O governo ucraniano também afirmou que parte dos atletas russos que competiram sob bandeira neutra nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 teria manifestado apoio público à guerra ou mantido vínculos com as forças armadas russas.
Na mesma nota, a diplomacia ucraniana sustentou que o esporte russo não estaria dissociado do Estado, classificando-o como um instrumento de legitimação política da agressão militar.
Atletas russos na equação
Para Kiev, essa configuração reforça uma contradição estrutural. Enquanto manifestações memoriais são vetadas sob o argumento de neutralidade, representantes de países envolvidos diretamente no conflito seguem presentes, ainda que sem símbolos nacionais.
O próprio Ministério das Relações Exteriores ucraniano sustenta que o esporte russo não está dissociado do Estado e pode funcionar como ferramenta de legitimação política no cenário internacional.








