
Relembre as vezes em que os EUA influenciaram a política no Brasil
Da Segunda Guerra à disputa entre Lula e Trump, a atuação americana mudou de estratégia, mas seguiu influenciando os rumos políticos do país

Em um ano eleitoral no Brasil, em que a política externa ocupa um espaço crescente no debate sobre os rumos do país, os Estados Unidos voltaram a assumir um papel central na política brasileira.
A influência norte-americana ganha novos contornos em meio à escalada de tensões entre Brasília e Washington, marcada por tarifas comerciais, sanções, disputas diplomáticas e manifestações sobre a política interna do país.
Essa atuação, no entanto, está longe de ser um fenômeno recente.
EUA x Brasil
- Ao longo das últimas décadas, Washington atuou em diferentes frentes e com diferentes objetivos: financiou grupos políticos durante a Guerra Fria, preparou apoio logístico para uma eventual intervenção militar no país, exerceu pressão econômica e diplomática, cooperou com autoridades brasileiras em investigações e, em 2022, adotou uma postura pública de defesa da preservação das instituições democráticas.
- Agora, sob o segundo governo de Donald Trump, a relação voltou a ser marcada pelo confronto direto.
- A aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros, a defesa política do ex-presidente Jair Bolsonaro e a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras abriram novas frentes de tensão entre os dois países.
Relembre alguns dos principais episódios da relação entre Estados Unidos e Brasil:
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegunda Guerra Mundial
A primeira grande aproximação política entre Brasil e Estados Unidos ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.
Na década de 1940, o governo Franklin D. Roosevelt colocou em prática a chamada Política da Boa Vizinhança, estratégia destinada a ampliar a influência americana sobre a América Latina e impedir o avanço político e econômico das potências do Eixo na região.
No Brasil, o governo de Getúlio Vargas negociou empréstimos e investimentos que viabilizaram a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Em contrapartida, aproximou-se militarmente dos Estados Unidos, autorizou bases aéreas no Nordeste e enviou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para lutar ao lado dos Aliados na Europa.
Guerra Fria e o apoio ao golpe de 1964
Quase 20 anos depois, durante a Guerra Fria, a influência norte-americana atingiu seu ponto mais controverso.
Após a posse de João Goulart, em 1961, Washington passou a enxergar o governo brasileiro com crescente desconfiança diante das propostas de reformas estruturais e da aproximação diplomática com países socialistas.
Em março daquele ano, a Casa Branca preparou a Operação Brother Sam, que previa o envio de porta-aviões, destróieres, navios-tanque, combustíveis, armamentos e apoio logístico aos militares brasileiros caso houvesse resistência à deposição de Goulart.
Como o golpe foi rapidamente consolidado, a operação nunca precisou ser executada integralmente. Ainda assim, os Estados Unidos reconheceram imediatamente o novo regime militar e ofereceram apoio financeiro e diplomático ao governo do marechal Humberto Castello Branco.
Ditadura e posterior distanciamento
Nos primeiros anos da ditadura militar, Brasil e Estados Unidos mantiveram estreita cooperação política, econômica e militar.
A partir da década de 1970, entretanto, essa relação começou a se deteriorar. A pressão internacional pelas denúncias de tortura e violações de direitos humanos, especialmente durante o governo Jimmy Carter, levou Washington a adotar postura mais crítica em relação ao regime brasileiro.
Décadas depois, documentos desclassificados entregues pelo governo americano à Comissão Nacional da Verdade confirmaram que autoridades dos Estados Unidos tinham conhecimento das práticas sistemáticas de tortura realizadas pelos órgãos de repressão brasileiros.
O governo Fernando Henrique Cardoso manteve forte interlocução com Washington, enquanto os governos Lula passaram a adotar uma política externa mais independente, fortalecendo o Mercosul, os Brics e as relações com países emergentes.
Espionagem da NSA e documentos da ditadura
Durante o governo Dilma Rousseff, a relação entre Brasília e Washington passou por um dos momentos de maior desgaste desde a redemocratização.
Em 2013, durante o governo de Barack Obama, documentos revelados pelo ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden mostraram que os Estados Unidos espionaram comunicações da então presidente Dilma, de ministros e da Petrobras.
A revelação levou Dilma a cancelar uma visita de Estado a Washington e provocou uma crise diplomática entre os dois países.
No ano seguinte, porém, houve um movimento de reaproximação. Em junho de 2014, o então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, entregou a Rousseff documentos desclassificados sobre a ditadura militar brasileira.
O material foi utilizado pela Comissão Nacional da Verdade e revelou que autoridades americanas tinham conhecimento das violações de direitos humanos cometidas pelo regime militar, incluindo casos de tortura, execuções e desaparecimentos forçados.
Biden e a defesa das eleições de 2022
A atuação norte-americana voltou ao centro da política brasileira durante as eleições presidenciais de 2022.
Diante das declarações do então presidente Jair Bolsonaro questionando o sistema eleitoral brasileiro, integrantes do governo Biden intensificaram contatos com autoridades brasileiras e reforçaram publicamente a confiança nas urnas eletrônicas e nas instituições democráticas.
Autoridades do Pentágono, do Departamento de Estado, da CIA e do Congresso americano defenderam o respeito ao resultado das eleições e sinalizaram que uma eventual ruptura institucional teria consequências para a relação bilateral.
Logo após a proclamação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Casa Branca reconheceu imediatamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nova era Trump
O retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, inaugurou uma nova etapa da influência americana sobre a política brasileira.
Diferentemente da lógica predominante durante a Guerra Fria ou da estratégia institucional adotada pelo governo Biden, a atual administração passou a utilizar instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar Brasília.
Posteriormente, a tarifa foi substituída por novas alíquotas decorrentes de investigações comerciais conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), incluindo uma taxa adicional de 25% sobre determinados produtos e nova sobretaxa de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado.
Paralelamente, Washington intensificou críticas ao Brasil em temas ligados ao comércio digital, ao Pix, à propriedade intelectual e à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF), além de incluir o PCC e CV na lista de organizações terroristas estrangeiras e aplicar sanções financeiras contra empresas e cidadãos brasileiros apontados como integrantes de esquemas ligados ao crime organizado.
Em meio às negociações comerciais, Lula e o secretário de Estado, Marco Rubio, passaram a trocar críticas públicas.
Em resposta, o presidente brasileiro afirmou que o chefe da diplomacia americana poderia participar livremente da campanha eleitoral de 2026 e apoiar o senador Flávio Bolsonaro, dizendo que a disputa seria vencida “em nome da democracia”.









