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Mundo

Em crise, contestada e sob pressão, ONU elege novo secretário-geral

Eleição ocorre enquanto a ONU enfrenta críticas por dificuldade de responder a guerras, pressão das potências e ataques ao multilateralismo

03/08/2026 04:30
Bruce Yuanyue Bi/Getty Images
Imagem colorida mostra Salão da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) - Metrópoles

A Organização das Nações Unidas (ONU) iniciou a corrida para escolher seu próximo secretário-geral em um momento de forte desgaste. Pressionada por guerras, contestada por líderes mundiais e sob críticas à sua capacidade de mediação, a entidade busca uma nova liderança para enfrentar um cenário de crescente instabilidade internacional.

Na última quinta-feira (30/7), o Conselho de Segurança realizou a primeira votação informal e secreta para medir o apoio aos candidatos que disputam a sucessão do português António Guterres, cujo segundo mandato termina em 31 de dezembro. O novo secretário-geral assume o cargo em 1º de janeiro de 2027.


Entenda o processo

  • A escolha do novo secretário-geral começa no Conselho de Segurança da ONU, órgão formado por 15 países-membros, incluindo cinco permanentes com poder de veto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
  • Durante o processo, os integrantes realizam votações informais, conhecidas como straw polls, para avaliar o apoio aos candidatos. Nessas consultas, cada país indica se incentiva, desencoraja ou permanece neutro em relação a cada nome.
  • Para avançar na disputa, um candidato precisa obter pelo menos nove votos favoráveis e, principalmente, não receber veto de nenhum dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança.
  • Após chegar a um acordo sobre um nome, o Conselho de Segurança encaminha uma recomendação à Assembleia Geral da ONU, que reúne os 193 países-membros.
  • A Assembleia Geral realiza a votação formal para confirmar a escolha. O secretário-geral eleito tem mandato de cinco anos, com possibilidade de uma única recondução.

Entre os principais cotados para suceder Guterres estão a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet; o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi; a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan; a ex-chanceler do Equador María Fernanda Espinosa; a ex-ministra das Relações Exteriores da Guiana Carolyn Rodrigues-Birkett; e o ex-presidente do Senegal Macky Sall.

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O Diretor-Geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, faz sua declaração na reunião do Conselho de Governadores na sede da Agência em Viena
Economista e ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan lidera a UNCTAD desde 2021
Diplomata equatoriana, María Fernanda Espinosa presidiu a Assembleia Geral da ONU entre 2018 e 2019
Diplomata da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett representa o país nas Nações Unidas desde 2020
Ex-presidente do Senegal, Macky Sall liderou o país entre 2012 e 2024 e figura entre os possíveis candidatos à Secretaria-Geral da ONU
Michelle Bachelet é ex-presidente do Chile, e também foi diretora da ONU Mulheres e alta comissária para Direitos Humanos da ONU
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Michelle Bachelet é ex-presidente do Chile, e também foi diretora da ONU Mulheres e alta comissária para Direitos Humanos da ONU

Carlos Garcia Granthon/Fotoholica Press/LightRocket via Getty Images
O Diretor-Geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, faz sua declaração na reunião do Conselho de Governadores na sede da Agência em Viena
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O Diretor-Geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, faz sua declaração na reunião do Conselho de Governadores na sede da Agência em Viena

D. Calma/IAEA
Economista e ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan lidera a UNCTAD desde 2021
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Economista e ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan lidera a UNCTAD desde 2021

Reprodução/Internet
Diplomata equatoriana, María Fernanda Espinosa presidiu a Assembleia Geral da ONU entre 2018 e 2019
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Diplomata equatoriana, María Fernanda Espinosa presidiu a Assembleia Geral da ONU entre 2018 e 2019

Reprodução/ONU
Diplomata da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett representa o país nas Nações Unidas desde 2020
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Diplomata da Guiana, Carolyn Rodrigues-Birkett representa o país nas Nações Unidas desde 2020

Reprodução/ONU
Ex-presidente do Senegal, Macky Sall liderou o país entre 2012 e 2024 e figura entre os possíveis candidatos à Secretaria-Geral da ONU
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Ex-presidente do Senegal, Macky Sall liderou o país entre 2012 e 2024 e figura entre os possíveis candidatos à Secretaria-Geral da ONU

Reprodução/Internet

O que está em jogo

A eleição do próximo secretário-geral vai além da simples sucessão de António Guterres. O processo é encarado como uma oportunidade para a ONU demonstrar sua capacidade de recuperar parte do protagonismo perdido nos últimos anos.

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Criada em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, a organização nasceu para promover a cooperação entre os países e evitar novos conflitos. O cenário geopolítico, porém, mudou profundamente nas últimas décadas.

As guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, os conflitos no Sudão e no Haiti e o aumento da rivalidade entre Estados Unidos, China e Rússia expuseram as limitações da ONU para construir consensos e responder rapidamente às crises.

Para o cientista político Gustavo Menon, é justamente esse contexto que torna a eleição mais relevante. “O que realmente se decide é a capacidade da organização de recuperar legitimidade política em um contexto de crise do multilateralismo, guerras prolongadas e disputas entre as grandes potências. Há uma erosão da confiança no sistema internacional e pressões crescentes sobre o direito internacional.”

Segundo o especialista, a disputa também funciona como um indicativo dos rumos que os países pretendem dar à organização nos próximos anos. “A disputa pelo próximo secretário ou secretária funciona como um teste sobre qual perfil de liderança a ONU quer para 2027: mais reformista, mais diplomático ou mais alinhado aos interesses dos Estados Unidos.”

Uma ONU cada vez mais contestada

Embora continue sendo o principal espaço de diálogo entre os países, a ONU enfrenta dificuldades para cumprir uma de suas principais missões: evitar ou interromper conflitos internacionais.

Nos últimos anos, a organização foi criticada pela dificuldade de produzir respostas efetivas para guerras. Em muitos casos, decisões importantes acabaram bloqueadas dentro do próprio Conselho de Segurança.

Grande parte desse impasse está relacionada ao funcionamento do órgão. Das 15 cadeiras do Conselho, cinco pertencem aos membros permanentes – Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido –, que têm poder de veto sobre qualquer resolução.

Na prática, basta que um desses países vote contra para impedir a aprovação de medidas sobre paz e segurança internacional, mesmo que elas tenham apoio da maioria dos integrantes. Para Menon, “o poder de veto não elimina a missão da ONU, mas compromete fortemente sua capacidade de cumpri-la em temas substantivos de segurança internacional.”

O cientista político ressalta que a organização continua atuando em áreas como ajuda humanitária, cooperação internacional e mediação diplomática. Ainda assim, quando o Conselho de Segurança fica paralisado, as alternativas disponíveis têm menor peso político e jurídico.

“A ONU não perdeu totalmente sua relevância, mas vive uma crise de protagonismo. Continua sendo o principal fórum universal de negociação, porém enfrenta dificuldades para responder com rapidez às crises, muitas vezes travadas pelos conflitos entre os membros permanentes do Conselho de Segurança. É preciso reformá-la, não eliminá-la”, justifica.

Críticas de diferentes lados

A crise de protagonismo da ONU também aparece no discurso de líderes de diferentes espectros políticos, ainda que por motivos distintos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por exemplo, tem defendido uma reforma do Conselho de Segurança e afirma que a estrutura criada após a Segunda Guerra Mundial já não reflete a atual correlação de forças no cenário internacional. O governo brasileiro também reivindica uma vaga permanente no órgão.

Já o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a adotar uma postura crítica aos organismos multilaterais em seu segundo mandato. Sua administração reduziu recursos destinados a entidades internacionais e reforçou uma política externa voltada para negociações bilaterais, movimento interpretado por analistas como um fator de pressão sobre a ONU.

Para Menon, o desafio da organização passa justamente por adaptar sua estrutura a uma realidade internacional diferente daquela que existia quando a ONU foi criada.

“É preciso fortalecer e reformar, de forma equitativa, os canais diplomáticos e de cooperação, fazendo com que a organização represente uma tentativa de construir uma ordem internacional multipolar. É preciso refletir, nas estruturas herdadas após a Segunda Guerra Mundial, uma correlação de forças que já não corresponde ao século XX.”

O desafio do próximo secretário-geral

Embora ocupe o principal cargo da estrutura administrativa da ONU, o secretário-geral não tem poder para impor decisões aos Estados-membros nem substituir o Conselho de Segurança.

Seu papel é conduzir negociações, atuar como mediador em conflitos, representar politicamente a organização e buscar consensos entre países com interesses muitas vezes divergentes.

“O sucessor de Guterres precisará combinar experiência multilateral, credibilidade política e capacidade de negociação em ambientes de disputa. Também será importante ter perfil de reforma institucional, disposição para enfrentar a burocracia e sensibilidade para crises humanitárias e de segurança, sem perder legitimidade entre o Norte e as demandas do Sul Global”, explica Gustavo Menon.

Segundo o cientista político, outro diferencial será a capacidade de dialogar com diferentes polos de poder sem transmitir a imagem de favorecimento a qualquer um deles. Ele também avalia que a comunicação pública ganhou peso para a legitimidade do cargo.

“A disputa atual mostra que a legitimidade do cargo já não vem apenas da diplomacia silenciosa, mas também da transparência, da paridade de gênero, da representatividade regional e da capacidade de dar sentido político à organização em meio a este período de cruzamento de crises na contemporaneidade.”