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Eleições acirradas no Peru em 2026 tiveram mais de uma virada

Com cerca de 35 mil votos separando os dois candidatos, a eleição peruana teve reviravoltas até nesta reta final da apuração

17/06/2026 02:00
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Artes/ Metrópoles
Eleições acirradas no Peru em 2026 tiveram mais de uma virada

A disputa presidencial no Peru em 2026 entrou para a história como uma das mais apertadas do país. Ao longo da apuração, o candidato de esquerda Roberto Sánchez e a candidata de direita Keiko Fujimori alternaram a liderança mais de uma vez, em uma disputa separada por poucos milhares e, em alguns momentos, por apenas centenas de votos.

O fenômeno das sucessivas viradas não foi resultado de erro na contagem, mas de uma combinação de fatores que transformaram a reta final da eleição em uma disputa voto a voto. À medida que as urnas continuavam sendo contabilizadas, Fujimori passou a consolidar vantagem, ampliando a diferença sobre Sánchez.

Com pouco mais de 99% das urnas apuradas, dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) indicavam uma frente superior a 35 mil votos para a candidata direitista, reduzindo as chances de uma nova mudança na liderança e aproximando o país da definição oficial do resultado.

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Keiko Fujimori, candidata à presidência pelo partido Fuerza Popular
Roberto Sanchez e Keiko Fujimori, candidatos a presidente do Peru
Roberto Sánchez, candidato à presidência pelo partido Juntos por el Perú
 Keiko Fujimori e Roberto Sánchez
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Keiko Fujimori e Roberto Sánchez

Raul Sifuentes/Getty Images e Jesus Saucedo/Getty Images
Keiko Fujimori, candidata à presidência pelo partido Fuerza Popular
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Keiko Fujimori, candidata à presidência pelo partido Fuerza Popular

Raul Sifuentes/Getty Images
Roberto Sanchez e Keiko Fujimori, candidatos a presidente do Peru
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Roberto Sanchez e Keiko Fujimori, candidatos a presidente do Peru

Klebher Vasquez/Anadolu via Getty Images
Roberto Sánchez, candidato à presidência pelo partido Juntos por el Perú
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Roberto Sánchez, candidato à presidência pelo partido Juntos por el Perú

Jesus Saucedo/Getty Images

A ordem de chegada dos votos mudou o cenário

As sucessivas viradas registradas durante a apuração das eleições peruanas não refletiram mudanças repentinas na preferência dos eleitores, mas sim a dinâmica da contagem dos votos. Nos primeiros resultados, Roberto Sánchez aparecia à frente impulsionado pelo desempenho em regiões rurais e do interior.

Com o avanço da apuração, porém, passaram a ser incorporados votos de grandes centros urbanos e de peruanos residentes no exterior, segmentos que favoreceram Keiko Fujimori.

Segundo o cientista social Rogério Pereira, doutor em Ciências Sociais pela UNESP, as oscilações revelam uma divisão histórica do eleitorado peruano. “As regiões rurais possuem uma base mais voltada à esquerda, enquanto as grandes cidades apresentam maior alinhamento à direita. O tempo de apuração e o peso de cada zona eleitoral acabam gerando essa flutuação”, afirma.

O equilíbrio extremo da disputa ampliou esse efeito. Com diferenças de apenas alguns milhares e em certos momentos de poucas centenas de votos, cada novo lote apurado tinha potencial para alterar a liderança. Os votos do exterior, que costumam demorar mais para serem validados, reforçaram essa dinâmica ao entrarem na contagem apenas nas etapas finais.

Conhecido como “efeito da contagem tardia”, o fenômeno ocorre quando diferentes grupos de eleitores têm seus votos contabilizados em momentos distintos. Em uma eleição decidida por margem mínima, essa dinâmica foi suficiente para provocar múltiplas viradas e prolongar a indefinição do resultado.

Os votos do exterior fizeram a diferença

Os votos dos peruanos que vivem no exterior tiveram papel decisivo nas viradas registradas durante a apuração. Enquanto a disputa dentro do país permanecia equilibrada, Keiko Fujimori construiu ampla vantagem entre os eleitores da diáspora, conquistando mais de 63% dos votos válidos desse segmento.

Como essas cédulas passam por um processo mais demorado de coleta e validação em consulados e embaixadas, seus resultados só ganharam peso nas etapas finais da contagem. A entrada gradual dos votos vindos de países como Estados Unidos, Japão, Espanha, Chile e Argentina reduziu a diferença entre os candidatos e impulsionou a virada de Fujimori.

De acordo com cientista político Rogério Pereira, o comportamento do eleitorado no exterior também é influenciado pela forma como acompanha a política peruana.

“Os votos do exterior sofrem influência sob um ponto de vista com menor profundidade, pois recebem informações disponibilizadas por jornais que também possuem alinhamentos por interesses de grupos”, afirma.

O especialista destaca ainda a forte concentração dos meios de comunicação no Peru e observa que muitos eleitores residentes no exterior tendem a priorizar temas como estabilidade econômica, investimentos e segurança jurídica.

“O Peru possui um grupo de comunicação quase hegemônico, que controla grande parte da mídia, e como tal um peso enorme na disposição das informações. também possui um forte alinhamento com uma elite de perfil agrário exportador, algo comum na estrutura social da América do Sul”, explica.

Em uma eleição decidida por margem mínima, os votos da diáspora acabaram exercendo influência decisiva no resultado, tornando-se um dos principais fatores por trás das sucessivas mudanças de liderança observadas durante a apuração.

Votos contestados atrasaram o resultado

Além da entrada tardia dos votos do exterior, a apuração foi impactada por milhares de votos e atas eleitorais sob contestação. Em uma disputa decidida por margens mínimas, qualquer inconsistência tinha potencial para influenciar o resultado.

As contestações envolviam assinaturas consideradas irregulares, divergências nos registros eleitorais, erros de preenchimento e questionamentos sobre a validade de determinadas cédulas. Enquanto aguardavam análise das autoridades eleitorais, esses votos permaneciam fora da contagem oficial, retardando a definição do vencedor.

O impacto foi ampliado pelo equilíbrio da disputa. Com a diferença entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez variando entre algumas centenas e poucos milhares de votos, cada decisão técnica ou jurídica podia alterar a liderança temporariamente e manter a eleição em aberto por vários dias.

Para o cientista político, as disputas em torno das atas e votos contestados evidenciaram divisões mais profundas da sociedade peruana.

“Os aspectos técnicos apenas deixam mais clara essa divisão bem demarcada da sociedade peruana. De um lado há a defesa de interesses internos e tradicionais e, do outro, uma elite com forte influência externa”, afirma.

Segundo o especialista, essas diferenças possuem raízes históricas e remontam ao período colonial, deixando marcas que ainda influenciam a política peruana contemporânea.

Polarização extrema deixou a disputa indefinida

As sucessivas viradas registradas durante a apuração também refletem a forte polarização que marcou as eleições peruanas de 2026. O segundo turno colocou frente a frente dois projetos políticos distintos: de um lado, Keiko Fujimori e o fujimorismo, corrente ligada ao legado do ex-presidente Alberto Fujimori; do outro, Roberto Sánchez, apoiado por partidos de esquerda e movimentos que defendem maior atuação do Estado na economia.

A divisão ficou evidente no mapa eleitoral. Enquanto algumas regiões concentraram apoio em Sánchez, outras registraram ampla vantagem para Fujimori, evidenciando um país dividido entre diferentes visões sobre economia, segurança e o papel do Estado.

O cientista político afirma que a disputa expôs projetos de desenvolvimento econômico e social com raízes históricas profundas. O resultado foi uma eleição extremamente equilibrada, marcada por uma distribuição quase simétrica dos votos e diferenças mínimas entre os candidatos durante boa parte da apuração.

Nesse cenário, a entrada de cada novo lote de votos tinha potencial para alterar a liderança, contribuindo para as constantes oscilações observadas ao longo da contagem. Mais do que uma disputa eleitoral, o segundo turno se transformou em um retrato das divisões políticas do Peru contemporâneo e ajudou a produzir uma das eleições mais imprevisíveis da história recente do país.

A quarta tentativa de Keiko Fujimori

A eleição de 2026 também teve um forte peso simbólico por marcar a quarta tentativa de Keiko Fujimori de chegar à Presidência do Peru. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela voltou ao segundo turno após disputar as eleições de 2011, 2016 e 2021, consolidando-se como uma das figuras mais influentes da política peruana nas últimas décadas.

Apesar de manter uma base eleitoral fiel e alcançar repetidamente a fase decisiva da disputa, Keiko acumulou derrotas apertadas nas três eleições anteriores. Por isso, o pleito de 2026 foi encarado como mais uma oportunidade de romper a sequência de fracassos e finalmente conquistar o principal cargo do país.

Ao mesmo tempo em que o fujimorismo continua associado por parte do eleitorado à estabilidade econômica e ao combate ao terrorismo nos anos 1990, a candidata também enfrenta resistência de setores que criticam o legado autoritário e os casos de corrupção ligados ao governo de seu pai.

Para Rogério, a influência política da família Fujimori ainda está fortemente ligada à figura do ex-presidente.

“Apesar dos diversos casos de corrupção e dos desmandos ditatoriais, Alberto Fujimori ficou marcado pela destruição e desarticulação do Sendero Luminoso. Ele colocou o combate ao crime organizado e a estabilização econômica como marcas de sua administração”, afirma.

Para o especialista, porém, Keiko não conseguiu herdar integralmente esse capital político.

“Sua filha não possui essa marca e também não tem o carisma e a oratória de seu pai. Ela traz apenas parte desse capital político, muito mais apoiado pelo nome que carrega do que por eficiência e representatividade política”, diz.

Em 2026, a candidata voltou a protagonizar uma disputa decidida nos detalhes, reforçando seu papel central em uma das eleições mais acirradas da história recente do Peru.

Resultado segue cercado de tensão

Mesmo com a vantagem obtida por Keiko Fujimori na reta final da apuração, o processo segue cercado por questionamentos, recursos e análises de votos contestados. A confirmação oficial do resultado ainda depende da conclusão das revisões solicitadas pelas campanhas e das decisões dos órgãos eleitorais.

As múltiplas viradas registradas ao longo dos 10 dias da contagem foram resultado de uma combinação rara: diferença mínima entre os candidatos, entrada tardia dos votos do exterior, contestação de atas eleitorais e um país profundamente dividido entre projetos políticos distintos.

O cenário transformou a eleição peruana de 2026 em uma das mais imprevisíveis da história recente da América Latina.

Mais do que definir quem ocupará a Presidência, o pleito expôs as divisões que atravessam a sociedade peruana. Para o cientista social Rogério Pereira de Campos, independentemente do resultado final, o principal desafio do próximo governo será construir consensos entre grupos que compartilham problemas semelhantes, mas possuem prioridades diferentes.

“O grande desafio está na unificação do país, entre setores populacionais que possuem demandas similares, porém com intensidades e momentos diferentes”, afirma.

Segundo o especialista, o Peru enfrenta um momento de desaceleração econômica após anos de crescimento e terá de equilibrar interesses sociais e econômicos em temas estratégicos, como a exploração de recursos naturais e a integração regional.

“O Peru precisa definir quais diretrizes são prioridade na economia e na sociedade, buscar o equilíbrio entre grupos tão diferentes e potencializar um processo de liderança dentro da Comunidade Andina, o que pode trazer benefícios econômicos regionais ao país”, conclui.