
Eleição: silêncio de Milei sobre Lula acirra crise entre Brasil e Argentina
Milei apoiou Flávio Bolsonaro e não felicitou Lula após a reeleição. Impasse ocorre em meio ao rebaixamento das relações diplomáticas
27/10/2026 04:30

O presidente da Argentina, Javier Milei, ainda não felicitou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela reeleição. A ausência de uma manifestação oficial prolonga a crise diplomática entre os dois países, que já tiveram suas representações rebaixadas em meio a uma sequência de ataques do argentino ao presidente brasileiro e a autoridades nacionais.
Lula venceu o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25/10), com 51,79% dos votos válidos. O senador Flávio Bolsonaro (PL), apoiado publicamente por Milei, recebeu 48,21% e, primeiramente, anunciou que pretendia contestar o resultado na Justiça Eleitoral.
Já no dia seguinte, o filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) recuou. Após conversas com aliados, o senador e integrantes de sua equipe jurídica passaram a descartar a possibilidade de pedir a anulação da eleição presidencial, afirmando que há “zero chance” de a medida ser adotada. Conforme vídeo divulgado pelo próprio parlamentar, a estratégia agora será pedir a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin (PSB).
Segundo relatos publicados na Argentina, integrantes do governo Milei chegaram a preparar uma mensagem de congratulação, mas a iniciativa foi abandonada após o questionamento da campanha derrotada.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO presidente argentino não explicou publicamente a decisão e compartilhou nas redes sociais uma publicação de um aliado que criticava Lula e os eleitores brasileiros.
Para o professor de relações internacionais Maurício Fronzaglia, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ouvido pelo Metrópoles, o silêncio não deve ser interpretado como uma falha de comunicação, mas como uma escolha política.
“É claro que é uma decisão política. Isso é óbvio, não é uma falha de comunicação”, afirmou.
Na avaliação do especialista, a decisão também está relacionada à polarização política que ultrapassa as fronteiras nacionais e influencia a condução das relações internacionais.
“Já que o candidato que eu apoiei não ganhou, eu não cumprimento aquele ganhador. Então, é uma infantilização das relações diplomáticas”, disse Fronzaglia.
Ataques de Milei antecederam a eleição
- A ausência de congratulações ocorre após meses de tensão entre Brasil e Argentina.
- Em julho, Javier Milei atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes durante um evento do PL em São Paulo, levando o Itamaraty a convocar o embaixador argentino e chamar de volta o brasileiro em Buenos Aires.
- No mês seguinte, as relações diplomáticas foram rebaixadas, e as embaixadas passaram a ser chefiadas por encarregados de negócios.
- Cinco dias antes do segundo turno das eleições brasileiras, Milei voltou a elevar a tensão ao questionar a lisura das eleições brasileiras e insinuar a possibilidade de fraude.
- O Itamaraty reagiu, classificando as declarações como uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro” e reafirmando que cabe exclusivamente aos eleitores decidirem o futuro político do país.
Silêncio afeta influência regional
Para Fronzaglia, a postura de Milei tem consequências que vão além do relacionamento pessoal entre os dois presidentes. Segundo ele, a derrota de Flávio Bolsonaro também representa um revés para o projeto de ampliar a influência de governos de direita na América Latina, associado ao alinhamento do argentino com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Ao comentar o resultado do processo eleitoral brasileiro, Trump questionou a legitimidade do pleito. “Bem, para mim, pareceu péssimo. Achei que foi uma situação de péssima aparência. Não tomei partido, mas, francamente, parecia mais uma eleição fraudulenta”, declarou.
O professor pondera, porém, que a Argentina tem capacidade de influência regional inferior à do Brasil. Nesse cenário, a ausência de reconhecimento da vitória de Lula pode dificultar as ambições políticas de Milei no continente.
O especialista também destaca que a tradição diplomática prevê o respeito à decisão eleitoral de países vizinhos, mesmo quando há divergências ideológicas entre os governantes.
“A regra clara era: você respeita o direito de autodeterminação dos povos. Então, você respeita a decisão que o povo do seu país vizinho tomou”, afirmou.
A falta de congratulações, portanto, aprofunda um distanciamento que já existia antes da eleição. Os dois presidentes vêm evitando encontros bilaterais em compromissos internacionais, enquanto as representações diplomáticas permanecem rebaixadas.
Comércio mantém relação entre os países
Apesar do impasse político, os vínculos econômicos entre Brasil e Argentina continuam funcionando. A integração comercial, especialmente na indústria e na cadeia automotiva, representa um dos principais fatores que limitam os efeitos da crise sobre a relação bilateral.
Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec) citados no levantamento mostram que, entre janeiro e setembro, o Brasil foi o principal parceiro comercial argentino. O mercado brasileiro recebeu 12,7% das exportações do país vizinho e respondeu por 21,4% de suas importações.
No mesmo período, as vendas argentinas ao Brasil cresceram 4,5%, enquanto as compras argentinas de produtos brasileiros caíram 17%.
A redução das importações argentinas ajuda a explicar o enfraquecimento recente das trocas comerciais. Não há, porém, evidência de que a ausência de congratulações de Milei tenha provocado diretamente a queda.
O risco está nos efeitos de médio e longo prazo. Sem diálogo político no mais alto nível, negociações podem perder ritmo, iniciativas de integração podem ser adiadas e a coordenação entre os dois governos pode ficar mais difícil, inclusive no âmbito do Mercosul.
Para Fronzaglia, a tendência é que os interesses econômicos preservem parte da cooperação, mesmo diante das divergências entre os presidentes.
“A agenda comercial continua porque ela é importante para a Argentina e é importante para o Brasil”, afirmou. Segundo o professor, as cadeias produtivas integradas e a complementaridade entre as duas economias favorecem a manutenção dos vínculos, ainda que a relação política permaneça distante.






