*
 

Esther Wojcicki, líder, educadora e jornalista norte-americana, veio a Brasília para conduzir uma palestra no UniCeub nessa quarta-feira (16/5). Determinada a inovar as escolas, Wojcicki é líder da Google Teacher Academy e defende um modelo de ensino que dá mais autonomia ao aluno e trabalha confiança, respeito, independência e colaboração entre estudante e professor.

Enquanto ainda estudava, casou-se e teve três filhas: Susan, hoje CEO do YouTube; Janet, antropóloga e atual professora de pediatria na Universidade da Califórnia; e Anne, fundadora da companhia biotecnológica e de genômica pessoal 23andMe.

Nos anos 1980, iniciou um programa de educação para jovens que hoje tem cerca de 600 alunos. Ela começou a carreira como educadora em um ensino médio em Palo Alto, na Califórnia, onde lecionou jornalismo, inglês e até matemática. Porém, não se contentou com o currículo que lhe foi dado para a aula de comunicação.

“Percebi que as crianças não aprendem lendo um livro e fazendo exercícios no final de cada capítulo”, explica. Esther decidiu, então, fazer uma aula diferente, com um currículo completamente à parte do programado.

Daniel Fama Fotografia/Divulgação

Com a ajuda de seis professores de jornalismo e 600 alunos, Esther Wocjicki começou uma revolução na educação de jovens mentes

“Quando fiz [essa mudança], os alunos realmente gostaram”, relembra. O programa aumentou de 18 alunos, no primeiro ano, para 30, no segundo. O número continuou crescendo até Esther lecionar para 80 estudantes. Foi quando decidiu criar um programa separado, no qual os alunos aprenderiam lições na prática.

Quis mudar o papel do professor: ele não é mais o rei da informação. Todos nós conseguimos conteúdos on-line. Basta procurar no Google"
Esther Wojcicki

Envolvendo-se em notícias e na educação de jovens, ela admite ter muitas discussões sobre fake news. “Atualmente, é mais fácil identificar informações falsas, porém, em contrapartida, publica-se conteúdo mentiroso de forma mais rápida. Os textos não passam mais por editores e revisores. A tecnologia impulsionou essa prática”, diz.

Daniel Fama Fotografia/Divulgação

Esther começou a trabalhar como jornalista aos 14 anos e hoje carrega com si uma formação em ciências sociais e inglês e tem um mestrado em jornalismo pela Universidade de Berkeley, na Califórnia. Ela também se formou em história pela Universidade de Sorbonne após morar em Genebra por pouco menos de um ano onde conseguiu completar o equivalente a um ano de estudo

Como podemos identificar as fake news? Há alguma coisa que o Estado possa fazer para ajudar a população nesse trabalho?
 A única solução ao problema é a educação. Criam bots para tentar cessar as fake news, mas, em breve, alguém inventará outra coisa para burlar essa barreira. O Estado, definitivamente, tem de investir no ensino! Se uma pessoa lê algo muito estranho, ela precisa conhecer as ferramentas para identificar se aquilo é verdadeiro ou não. Por exemplo, se o site termina com “.co” em vez de “.com”, a suspeita é grande.

Nos Estados Unidos, o presidente Trump fez muitas afirmações sobre a CNN e diversos sites de notícias serem fake news. Recentemente, outros líderes mundiais começaram a seguir seus passos. Qual sua avaliação disso?
Sim, há um impacto negativo no jornalismo. Acho que o Trump fez um desserviço ao jornalismo e à democracia – não dá para ter uma democracia sem uma boa imprensa. Hoje em dia, muitos não conseguem diferenciar um artigo, um editorial e uma matéria de fôlego. Precisamos ensinar a diferença entre eles. Acho que o Trump também não conhece a distinção dos gêneros. Quando ele se zanga com algo, chama de fake news.

A única coisa boa feita pelo Trump é tornar a política algo emocionante. Antigamente, era um assunto tedioso. Hoje, as pessoas acordam de manhã e logo querem saber o que ele fez.

Daniel Fama Fotografia/Divulgação

Enquanto morava na França, Wojcicki trabalhava e era paga secretamente por jornais em inglês, pois como uma americana não podia trabalhar legalmente

Os cliques são como os jornais, conseguem ser pagos. Como eles podem manter a relevância e o interesse do público sem apelar para o clickbait?
Todas as páginas têm, ao final delas, algum tipo de clickbait. Haverá a foto de alguma atriz famosa com os dizeres “você não acreditará em como ela está!”. Isso acontece em todos os grandes jornais.  Não acho que precisamos voltar ao periódico impresso. Na verdade, devemos aprender com a tecnologia e criar algo novo e melhor.

As pessoas deveriam assinar os veículos com reputação. O New York Times e o The Washington Post cobram pelo conteúdo para pagar os jornalistas em busca de fatos. É preciso pagar por informação confiável. Não dá para apenas consumir gratuitamente.

Como a política de publicidade mudou nos jornais ao longo dos anos?
Antigamente, em publicações impressas, o departamento de publicidade era completamente separado do departamento editorial (que se encarrega das notícias). Ficavam em prédios distintos. Hoje em dia, essa linha não é tão clara. A ética que aprendi tem sido arruinada. Não dá para confiar em muitos artigos de jornais e revistas patrocinados por tal produto ou tal evento.