Namorados em Auschwitz se reencontraram 72 anos depois nos EUA

David Wisnia tinha uma pergunta a fazer para Helen Spitzer: se ela era responsável por ele ter escapado com vida

Evan Schneider/ UN

atualizado 09/12/2019 8:42

A primeira vez que eles se falaram, em 1943, no crematório no campo de concentração de Auschwitz, David Wisnia percebeu que Helen Spitzer não era uma prisioneira qualquer. Zippi, como era conhecida, era limpa e sempre estava arrumada. Ela vestia uma jaqueta e cheirava bem. Eles foram apresentados por um conhecido, também prisioneiro, a pedido dela.

A presença dela era por si só fora do normal: uma mulher que estava fora da ala feminina, conversando com um prisioneiro homem. Antes que Wisnia percebesse, eles ficaram sozinhos, todos os colegas haviam ido embora. Isso não foi uma coincidência. Eles planejaram se encontrar novamente na semana seguinte.

Na data combinada, Wisnia foi, como planejado, encontrar Spitzer nas barracas entre os crematórios 4 e 5. Ele subiu uma escada improvisada, feita de pacotes com uniformes de prisioneiros. Spitzer conseguiu um espaço no meio de centenas de pilhas de roupas, grande o suficiente para somente os dois. Ele tinha 17 anos, e ela, 25.

Ambos eram prisioneiros judeus no campo de Auschwitz, na Polônia, o maior controlado pelo regime nazista alemão durante a Segunda Guerra.

Tanto Wisnia quanto Spitzer tinham certos privilégios. Ele, inicialmente forçado a coletar os corpos de prisioneiros que cometiam suicídio, havia sido escolhido para entreter os soldados nazistas, após descobrirem que ele era um cantor talentoso.

Já ela tinha uma posição melhor: era a designer gráfica do campo. Eles tornaram-se amantes, se encontrando no local combinado cerca de uma vez por mês. Depois do receio inicial de saberem que estavam colocando suas vidas em risco, o casal começou a criar mais expectativas para seus encontros. Wisnia sentia-se especial: “Ela me escolheu”, ele pensava.

Durante alguns meses, eles conseguiram ser a válvula de escape um do outro, mas sabiam que essas visitas não perdurariam. A morte estava em todo lugar. Mesmo assim, os amantes planejavam uma vida juntos, um futuro fora de Auschwitz. Eles sabiam que seriam separados, mas tinham um plano, após o fim da guerra, para se reunirem.

Isso levou 72 anos.

Numa tarde no fim de 2019, Wisnia estava em sua casa de 67 anos na cidade de Levittown, estado americano da Pensilvânia, olhando fotografias antigas. Ainda um cantor passionante, Wisnia cantou na congregação local por décadas.

Agora, cerca de uma vez por mês, ele dá palestras onde conta histórias da guerra, normalmente a estudantes e algumas vezes em livrarias ou congregações. “Restam poucas pessoas que sabem os detalhes”, ele aponta.

Spitzer estava entre as primeiras judias a chegar em Auschwitz, em março de 1942. Devido a sua habilidade em falar alemão, design gráfico e uma pitada de sorte, ela assegurou um trabalho não braçal.

Conforme suas responsabilidades aumentavam, ela ficava livre para circular por locais diferentes do campo, e às vezes tinha permissão para fazer excursões. Ainda assim, Spitzer nunca foi uma colaboradora nazista ou kapo, que era o termo utilizado a um judeu que tinha a obrigação de observar os prisioneiros. Ao invés disso, ela usava sua posição para ajudar aliados e os prisioneiros.

Após virar cantor do campo, Wisnia conseguiu um novo posto para trabalhar no prédio que a SS chamava de “Sauna”. Ele devia desinfetar as roupas dos novos prisioneiros com o mesmo pesticida Zyklon B utilizado pelos nazistas para matar prisioneiros nas câmaras de gás.

Spitzer, que já havia notado Wisnia na Sauna, começou a fazer visitas especiais. O relacionamento deles durou vários meses. Em uma tarde em 1944, eles perceberam que aquela deveria ser o último encontro. Os nazistas estavam transportando os últimos prisioneiros do campo em marchas da morte e destruindo as evidências de seus crimes.

Durante o último encontro, o casal fez um plano. Eles iriam se encontrar em Varsóvia ao fim da guerra, em um centro comunitário. Era uma promessa.

Wisnia deixou o campo antes de Spitzer, em um dos últimos trens para sair de Auschwitz. Ele foi transferido para o campo de Dachau em dezembro de 1944.

Logo depois, durante uma marcha da morte saindo de Dachau, ele encontrou uma pá; acertou um guarda da SS e correu. No dia seguinte, enquanto se escondia em um celeiro, Wisnia escutou o que pensou ser tropas soviéticas, e correu em direção aos tanques, torcendo pelo melhor. Na verdade, eram soldados americanos.

Apesar de, por ser um polonês, ele nunca poder se tornar um legítimo soldado americano, Wisnia exerceu diversos cargos no Exército Americano após a Guerra. Após ter se unido aos americanos, seu plano de encontrar Spitzer na Varsóvia deixou de ser uma opção. A América era o seu futuro.

Spitzer foi uma das últimas a sair de Auschwitz com vida. Ela foi enviada ao campo feminino em Ravensbrück e a um sub-campo em Malchow antes de ser mandada para uma marcha da morte. Ela e uma amiga escaparam ao retirarem a listra vermelha que havia sido pintada em seus uniformes, o que permitiu que elas se camuflassem entre a população local que estava migrando.

Entre o caos, Spitzer chegou ao primeiro campo para judeus deslocados na zona americana da Alemanha ocupada, que recebeu na primavera de 1945 ao menos 4 mil sobreviventes.

Logo depois, Spitzer se casou com Erwin Tichauer, o chefe da polícia do campo. Novamente, Spitzer, agora conhecida como Tichauer, estava em uma posição privilegiada. Apesar de também serem deslocados, o casal Tichauer morava fora do campo.

Eventualmente, eles se mudaram para os Estados Unidos, primeiro para Austin, no Texas, e em 1967 chegaram a Nova York, onde ela se tornou professora de bioengenharia na Universidade de Nova York.

Algum tempo após o fim da guerra, Wisnia escutou de um ex-companheiro em Auschwitz que Tichauer estava viva. Neste momento, ele estava profundamente envolvido no Exército Americano, baseado em Versailles, na França, onde esperava para poder imigrar aos EUA.

Quando seus tios o buscaram no porto de Hoboken, em fevereiro de 1946, eles não podiam acreditar que o rapaz de 19 anos, vestido em um uniforme americano, era o pequeno David que haviam visto pela última vez em Varsóvia.

Na pressa para compensar o tempo perdido, Wisnia se adaptou ao estilo de vida nova-iorquino, indo a diversas festas. Em um casamento, em 1947, ele conheceu sua futura esposa, Hope.

Com o passar dos anos, Wisnia recebia atualizações de Tichauer por meio de um amigo em comum. Ao mesmo tempo, sua família cresceu – ele teve quatro filhos e seis netos.

Em 2006, ele tentou contato com a amiga Zippi. Ao compartilhar a história dos dois com sua família, seu filho, que agora era um rabino em uma sinagoga em Princeton, Nova Jersey, iniciou o contato para ele. Finalmente, ela concordou em uma visita.

Havia passado 72 anos desde a última vez que ele havia visto sua ex-namorada. Ele havia escutado que a saúde dela estava debilitada, mas sabia pouco sobre sua vida. Ele suspeitava que ela havia ajudado a mantê-lo vivo, e queria saber se era verdade.

Quando Wisnia e seus netos chegaram ao apartamento de Tichauer em Manhattan, eles a viram deitada em uma cama de hospital, rodeada de estantes cheias de livros. Ela estava sozinha desde a morte de seu marido, em 1996, e eles nunca tiveram filhos. Com o passar dos anos, presa à cama, ela desenvolveu cegueira e surdez.

Em um primeiro momento, ela não o reconheceu. Então, Wisnia se aproximou.

“Seus olhos arregalaram, como se a vida estivesse de volta dentro dela”, disse Avi Wisnia, neto de Wisnia. “Todos nós ficamos surpresos”.

O reencontro durou cerca de duas horas. Ele finalmente perguntou: ela tinha algo a ver com o fato de que ele conseguiu sobreviver em Auschwitz?

Ela levantou a mão e mostrou os cinco dedos. Sua voz saiu alta, com o sotaque eslovaco carregado. “Eu te salvei cinco vezes de remessas ruins”, ela disse.

“Eu sabia que ela tinha feito isso”, disse Wisnia a seus netos. “É absolutamente incrível. Incrível”.

E havia mais. “Eu estava esperando por você”, disse Tichauer. Wisnia quase caiu para trás. Após ela ter conseguido escapar da marcha da morte, ela o esperou em Varsóvia. Ela seguiu o plano. Mas ele nunca apareceu.

Ela havia o amado, disse a ele em tom baixo. E ele também havia a amado, ele confidenciou.

Wisnia e Tichauer nunca mais se viram de novo. Ela morreu em 2018, aos 100 anos. Em sua última tarde juntos, antes de Wisnia deixar seu apartamento, ela pediu para que ele cantasse para ela. Ele pegou sua mão e cantou a canção húngara que ela havia o ensinado em Auschwitz. Ele queria mostrar que se lembrava das palavras.

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