Bolsonaro no Chile: “Alguns não querem largar a velha política”

Durante encontro com empresários e o presidente chileno, o chefe do Executivo nacional também defendeu a reforma da Previdência

Cristina Serra/MetrópolesCristina Serra/Metrópoles

atualizado 23/03/2019 15:03

Enviada especial a Santiago (Chile) — A crise com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a dificuldade de articulação para aprovação da reforma da Previdência no Congresso foram temas do discurso do presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante café da manhã com empresários chilenos, em Santiago, neste sábado (23/3).

Bolsonaro admitiu “atritos” no encaminhamento da reforma na Câmara e os atribuiu ao que chama de velha política, explicação que tem desagradado Rodrigo Maia. Ao falar da crise com o Legislativo, o presidente não citou nominalmente o democrata, mas deixou claro que se referia aos problemas que está enfrentando no decorrer da viagem ao Chile.

“Os atritos que acontecem no momento, mesmo estando calado fora do Brasil, acontecem na política lá dentro porque alguns, não são todos, não querem largar a velha política, que infelizmente nos colocou numa situação bastante critica em que nos encontramos”, disse Bolsonaro. O chefe do Executivo nacional associou as dificuldades de tramitação da reforma à permanência da política do “toma lá dá cá”.

O presidente disse acreditar na aprovação das mudanças na Previdência, mas ressaltou que o texto deverá sofrer alterações. “A reforma não é uma questão desse governo, sim de Estado, e tem de ser aprovada para que não aconteça no Brasil o que ocorreu com países da Europa, por exemplo”, salientou.

Conforme avaliação de Bolsonaro, ele encontra resistências na Câmara por ter contrariado políticos ao montar uma equipe ministerial técnica. “Escolhemos pessoas que queriam participar do governo por patriotismo. Isso desagradou os políticos tradicionais, porque pegamos o Brasil em uma profunda crise ética, moral e econômica. Hoje, somos os campeões de corrupção”, afirmou aos empresários.

Na política tradicional existem essas reações por parte de alguns da classe politica. Mas acredito que a maioria não esteja contaminada pela velha politica. Nós precisamos fazer as reformas

Jair Bolsonaro

Ao falar das relações trabalhistas, frisou que a legislação deve “beirar à informalidade”. “A equipe econômica também trabalha uma forma de desburocratizar o governo, desregulamentar muita coisa. Tenho dito à equipe econômica que, na questão trabalhista, nós devemos beirar à informalidade porque a nossa mão de obra é talvez uma das mais caras do mundo”, destacou Bolsonaro.

Encontro com Piñera
Depois do café com os empresários, o chefe do Executivo brasileiro foi recebido pelo presidente chileno, Sebastián Piñera, no Palácio de La Moneda para uma visita de Estado. Ao discursar sobre os acordos assinados entre os dois países, Bolsonaro voltou a falar da Previdência.

“Queremos aprová-la. É o único caminho para alavancar o Brasil para o lugar de destaque que merecemos. A responsabilidade está com o Parlamento brasileiro. Essa não é uma questão de governo. É uma questão de Estado, para que não aconteça com o Brasil o que houve em outros países, como alguns da Europa”, disse o Bolsonaro.

O almoço no palácio foi motivo de polêmica no país andino. Um grupo de parlamentares recusou o convite de Piñera para participar da homenagem ao presidente – entre eles, os presidentes do Senado, Jaime Quintana, e da Câmara, Ivan Flores.

Os ânimos entre os parlamentares do Chile se acirraram ainda mais com a declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que justificou a ditadura chilena, comandada por Augusto Pinochet, em entrevista a uma rádio. Conforme afirmou Onyx, houve um “banho de sangue no Chile”, mas Pinochet fixou as “bases macroeconômicas” no país e nenhum governo de esquerda conseguiu mudá-las.

Os chefes do Legislativo chileno consideraram as declarações uma afronta ao país, às vítimas da ditadura e a todos que sofreram violações de direitos humanos. Um grupo de deputados apresentou projeto de resolução para que Bolsonaro seja declarado persona non grata no Chile.

Os protestos também ganharam as ruas. Uma manifestação no centro de Santiago, com o mote “Fora Bolsonaro”, no começo da noite dessa sexta-feira (22), terminou em violenta repressão da polícia chilena e com cinco pessoas presas. Durante o protesto, Bolsonaro estava passeando num shopping de Santiago.

Por outro lado, quem se animou com a presença do mandatário brasileiro foi um grupo de condenados que cumpre pena na cadeia de Punta Peuco por violação de direitos humanos durante a ditadura Pinochet. O advogado do grupo, Raúl Meza Rodrigues, ficou encarregado de entregar a Bolsonaro uma carta escrita por seus clientes, pedindo que o presidente brasileiro fosse visitá-los para ver as condições da prisão.

Segundo publicou a imprensa chilena, os condenados se dizem perseguidos política e judicialmente e afirmam que alguns têm morrido na prisão por doenças crônicas sem direito ao indulto presidencial. Bolsonaro já expressou várias vezes sua admiração pelo ditador Augusto Pinochet.

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