Bolsonaro enfrenta problemas nos Parlamentos do Chile e do Brasil

Legislativo daqui critica presidente por falta de diálogo pró-nova Previdência. O de lá, por falas de apoio a Pinochet e contra minorias

Marcos Corrêa/PRMarcos Corrêa/PR

atualizado 23/03/2019 11:12

Enviada especial a Santiago (Chile) – O presidente Jair Bolsonaro (PSL) enfrenta problemas nos Parlamentos do Brasil e do Chile, no momento em que faz uma visita de Estado ao país andino. De Santiago, Bolsonaro está tendo que administrar a pior crise com o Legislativo brasileiro desde que assumiu a Presidência da República, em 1º de janeiro, por conta da tramitação da reforma da Previdência. No Legislativo chileno, o problema é com deputados e senadores que se recusam a participar de um almoço em sua homenagem e querem transformá-lo em “persona non grata”.

Para convencer os congressistas brasileiros a apreciar com celeridade a proposta que muda as regras de aposentadoria da população, contando com o apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), Bolsonaro chegou a dizer nessa sexta-feira (22/3) que vai procurar o democrata como quem o faria com “uma namorada” que quis ir embora.

Contrariado com um post do vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC), filho do presidente, e críticas do ministro da Justiça, Sergio Moro, Maia avisou ao titular da Economia, Paulo Guedes, que está fora da articulação para aprovar a reforma da Previdência. Não bastasse, até correligionários do chefe do Executivo federal têm criticado a falta de interlocução do governo com o Congresso Nacional.

Das redes às ruas
No Chile, os protestos contra a presença de Bolsonaro começaram nas redes sociais de parlamentares e agora os presidentes do Senado, Jaime Quintana, e da Câmara, Iván Flores, decidiram boicotar a homenagem que o presidente Sebastián Piñera fará a Bolsonaro neste sábado (23).

Os ânimos entre os parlamentares chilenos se acirraram ainda mais com a declaração do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que justificou a ditadura comandada por Augusto Pinochet, em entrevista a uma rádio. Onyx afirmou que houve um “banho de sangue no Chile”, mas o general fixou as “bases macroeconômicas” no país e nenhum governo de esquerda as mudou.

Os chefes do Legislativo chileno consideraram as declarações uma afronta à nação, às vítimas da ditadura e a todos que sofreram violações de direitos humanos nos anos de chumbo. Um grupo de deputados apresentou projeto de resolução para que Bolsonaro seja declarado “persona non grata” no Chile.

Os protestos também ganharam as ruas. Uma manifestação no centro de Santiago com o mote “Fora Bolsonaro”, no começo da noite dessa sexta-feira (22), terminou em violenta repressão da polícia chilena e com cinco pessoas presas. Durante a manifestação, Bolsonaro estava passeando num shopping de Santiago.

Veja imagens do protesto e da visita do presidente ao Chile:

Nem tudo foi hostilidade. O presidente foi festejado por alguns populares enquanto passeava em um shopping da capital chilena. Veja vídeo que ele postou no TT:

Também há fãs
Por outro lado, quem se animou com a presença do mandatário brasileiro em terras andinas foi um grupo de condenados por violação de direitos humanos durante a ditadura Pinochet que cumprem pena no presídio de Punta Peuco. O advogado do grupo, Raúl Meza Rodrigues, ficou encarregado de entregar ao presidente brasileiro uma carta escrita por seus clientes, pedindo que ele os visitasse para ver as condições da prisão.

Segundo publicou a imprensa chilena, os condenados se dizem perseguidos política e judicialmente e afirmam que alguns têm morrido na prisão por doenças crônicas sem direito ao indulto presidencial. Bolsonaro já expressou várias vezes sua admiração pelo ditador Augusto Pinochet.

Neste sábado, Jair Bolsonaro terá encontro com empresários chilenos, no Hotel Intercontinental, onde está hospedado. Depois, irá para o Palácio de La Moneda, para reunião bilateral com o presidente do país, Sebastián Piñera, seguido do almoço alvo da ira de deputados e senadores do Chile.

Saia justa em entrevista

Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro durante gravação de entrevista ao jornalista Ivan Leonardo Nunes, da TV chilena TVN

 

Esta é a segunda viagem internacional de Bolsonaro em uma semana. Antes, esteve nos Estados Unidos. Nas duas missões oficiais, o presidente tem tentado atenuar a imagem – em sua avaliação equivocada – de que é machista, racista, preconceituoso e misógino. Ele foi bastante questionado a esse respeito em uma entrevista para a TVN, do Chile, transmitida na noite dessa sexta-feira, e quase perde a linha com o entrevistador.

O repórter fez cinco perguntas sobre esses temas. Quando quis saber se o presidente garante os direitos das minorias sexuais no Brasil, Bolsonaro, aparentando irritação, respondeu:

Está escrito na sua testa que você é homossexual? Nem na minha. Não sei se você é homossexual e você também não sabe se eu sou. Então, cada um deve ser feliz como é

Jair Bolsonaro, à TV chilena

Sem responder diretamente a pergunta do jornalista, ele ligou a defesa dos direitos da população homoafetiva à disputa política. “Esse tema LGBT surgiu contra mim em 2010, quando o PT queria divulgar livros nas escolas em que crianças iriam ver outras se acariciando. Nenhum pai quer isso, nem os homossexuais. Então, como não tinham provas contra mim, começaram a me chamar de homofóbico”, concluiu.

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