
Apaixonados pelo Brasil, haitianos buscam resultado histórico na Copa
Ao Metrópoles, embaixador do Haiti no Brasil, Jean-Victor Harvel Jean-Baptiste, falou sobre as expectativas para a Copa e a crise no país

De volta a uma Copa do Mundo depois de 50 anos, o Haiti enfrenta o Brasil pela segunda rodada do grupo C nesta sexta-feira (19/6). Fora de campo, as duas nações são amigas e apresentam um laço bem estreito no âmbito diplomático.
A partida no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, é decisiva para as duas seleções, que precisam vencer para seguir sonhando com a classificação para o mata-mata.
Enquanto espera pela primeira vitória da seleção nacional em Mundiais, a população do Haiti convive em um cenário de extrema fragilidade e insegurança, provocado pela violência de gangues. O cenário no país caribenho foi descrito pelo chefe da Organização das Nações Unidas (ONU), António Gueterres, como a pior crise humanitária das Américas.
Em entrevista ao Metrópoles, o embaixador do Haiti no Brasil, Jean-Victor Harvel Jean-Baptiste, falou sobre as expectativas para a Copa do Mundo, e a relação de amor que haitianos mantêm com o Brasil, que se estende ao futebol.
Na conversa, realizada na sede da representação diplomática haitiana em Brasília, o diplomata também conentou sobre temas sensíveis, como a atual crise e a atuação da comunidade internacional no país.
Leia a íntegra da entrevista:
Qual é a sensação de estar voltando para uma Copa do Mundo depois de 50 anos?
É um prazer, o maior prazer. Nos últimos anos, o Haiti está numa situação realmente difícil, a insegurança, o desemprego, tudo muito difícil. De repente, chegou uma boa notícia: estamos na Copa. Isso é um alívio. É muito bom saber que estamos na Copa. Uma boa notícia para o povo.
Como é a relação do povo haitiano com o futebol? O esporte pode ser uma forma de contornar a crise que passa pelo país há anos?
Somos um país especial. Sabe? Ao lado, na República Dominicana jogam beisebol. Nós nunca jogamos beisebol, não é um esporte popular. Basquetebol e voleibol nas escolas, trazido pelos franceses e canadenses, muito menos. Mas todo mundo sempre joga futebol na rua. No verão, por exemplo, fecham as ruas para jogar futebol. Realmente é o esporte-rei, porque é fácil de se fazer uma bola, é fácil de jogar.
O senhor vê a participação nesta Copa como um fator de união para os haitianos que deixaram o país, inclusive os milhares que vivem hoje no Brasil?”
Eu me lembro quando o Haiti ganhou de Costa Rica [que abriu o caminho para a classificação nas eliminatórias da Copa]. Eu estava em Ruanda, em Kigali, em uma reunião de países francófonos. No outro dia, quando eu tomei a palavra, e falei a todos os francófonos: “Eu tenho uma boa notícia, Haiti está na Copa”, todo mundo ficou feliz.
Mas me lembro daquela noite. Os haitianos fizeram uma festa a noite toda, até o amanhecer do sol. Muito mais fora da capital, porque a insegurança da capital é forte. Mas no interior, no sul e no norte, até às 8 horas da manhã, as ruas estavam festejando. Foi uma boa noite.
Como está o clima no país durante a Copa do Mundo? As pessoas conseguem se reunir para assistir as partidas como aqui no Brasil?
O governo está distribuindo kits, com um telão, gerador e equipamento de internet para os haitianos assistirem aos jogos. O governo comprou centenas destes kits, que serão distribuídos nas seções comunais do país.
Todos vão ter um kit com uma grande televisão, e também outras pessoas estão distribuindo TVs para que o povo assista.
Quais são as expectativas para o jogo contra o Brasil?
Vai ser difícil, difícil pelos corações dos haitianos. Teve um presidente que uma vez falou: “O Haiti é o único país que está sempre nas Copas porque o Brasil sempre está”. Sempre que temos que escolher um país para representar o Haiti é o Brasil.
Mas sabe o que é mais importante para nós hoje? É que o Haiti já ganhou. Isso é o mais importante. O Haiti já ganhou porque estamos na Copa.
Nós não estamos na Copa para trazer a o troféu. Porque isso é a obrigação do Brasil. Nós já ganhamos por estamos no torneio.
Mas, estar no mesmo grupo do Brasil, e ter que enfrentar o Brasil na situação dos dois times precisando vencer, é muito duro.
A missão da ONU liderada pelo Brasil entre 2004 a 2017 foi um dos fatores que influenciaram essa ligação tão forte entre os dois países?
Isso aconteceu muito antes… Em 2004, George Bush pegou o telefone, chamou o presidente Lula, e disse “eu preciso do Brasil para liderar a missão [da ONU]”. O presidente Lula falou que sim.
Sabe por que Bush chamou Lula? Vocês têm que se lembrar que em 2004, Estados Unidos, Canadá, França e Chile [que pressionavam pela saída do então presidente Jean-Bertrand Aristide] chegaram para fazer o golpe de Estado. Eles foram rejeitados pela população, e deram lugar à missão da ONU. O único país que poderia ser aceito pelos haitianos, naquele momento, era o Brasil. Os haitianos gostam dos brasileiros.
O futebol reforçou essa essa união?
Não, é além do futebol. Os haitianos no Brasil são sempre bem recebidos. O Brasil dá carteira de trabalho, legaliza a situação dos haitianos. O que significa que essa relação entre haitiano e brasileiro sempre existiu. O Brasil foi um dos primeiros países a reconhecer o Haiti depois da independência. Enquanto França [uma das potências que colonizou o país] exigia que pagássemos por uma liberdade que conquistamos no sangue, e não reconheceu. O Brasil foi um dos primeiros. Foi por causa desse amor que o Brasil liderou a missão.
Atualmente, vários países estão fechando as embaixadas no Haiti devido à crise, mas o Brasil continua. O Haiti sempre designou aqui embaixadores importantes, e igualmente o Brasil para o Haiti. Não tenho em mente um embaixador brasileiro no Haiti que não seja gente boa.
A ONU já enviou três missões para o Haiti desde 2004. Ao longos das últimas décadas, elas foram efetivas para garantir paz para, por exemplo, a população haitiana assistir o jogo contra o Brasil?
Não. A situação tá difícil, ou até pior, especialmente para a classe média. Os sequestros voltaram com tudo há uns 3 meses. E por que eu falei da classe média?
A elite tem dinheiro para construir sua própria segurança privada, já o povo pobre não tem dinheiro para pagar se você sequestrar ele. Enquanto isso, a classe média são médicos, engenheiros, agrônomos, técnicos que representam a coluna vertebral do país
Quando um bandido sequestra alguém, toda a família se junta para pagar o resgate. Eles começam a pedir, por exemplo, 2 milhões de dólares, e aí entram as negociações, para finalmente abaixar o valor para entre US$ 200 a 500 mil. É muito dinheiro, tem gente que vende a casa, vende o carro, vende tudo o que tem, porque a solidariedade familiar no Haiti é uma coisa forte.
Tem gente que tem que vender a casa, vender o carro, vender tudo que tem, porque a solidariedade familiar no Haiti é uma coisa forte. É fortíssima. E nesse sentido, ter um membro da família sequestrada e você não contribuir para soltá-lo é mal visto.










