
Adversário do Brasil na Copa, Haiti enfrenta a pior crise das Américas
Haiti enfrenta grave onda de violência, que começou em 2021 e provocou a maior crise humanitária das Américas, segundo a ONU

Ao mesmo tempo em que jogadores haitianos se preparam para enfrentar a Seleção do Brasil na Copa do Mundo de 2026, a população do Haiti enfrenta um desafio ainda maior há mais de duas décadas: a grave situação humanitária e de segurança classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a mais grave das Américas.
Marcado por um histórico de conflitos internos, a mais nova onda de violência no país começou em 2021, e culminou no assassinato do ex-presidente Jovenel Moïse. O político chegou ao cargo após vencer as eleições presidenciais do país em 2016, e fez parte da lista daqueles que passaram pelo processo de redemocratização e estabilização do país.
O que está acontecendo no Haiti?
- O Haiti enfrenta uma crise prolongada desde meados de 2004, quando a violência de gangues e grupos armados avançou no país, e motivou na renúncia do então presidente Jean-Bertrand Aristide.
- Naquele ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou esforços militar para ajudar o país. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), liderada pelo Brasil, durou de 2004 a 2017.
- Ela foi sucedida por outras duas missões semelhantes, que não alcançaram grandes resultados ou provocaram mudanças no país.
- Atualmente, o Haiti enfrenta uma nova grave crise de segurança e humanitária provocada pela atuação de gangues.
- Estimativas apontam que 90% da capital do país, Porto Príncipe, pode sob o controle de organizações criminosas.
- No último ano, a ONU aprovou o envio de tropas estrangeiras para conter o avanço de gangues no país. Tropas da Força de Repressão a Gangues (GSF) começaram a chegar ao Haiti em abril de 2026.
- Ainda existe a previsão de que eleições gerais sejam realizadas em agosto deste ano, o primeiro pleito desde 2016.
Gangues haitianas formaram alianças nos últimos cinco anos, e entraram em confrontos entre si pelo controle de bairros e cidades inteiras no país. Com o avanço dos grupos armados, estimativas recentes da ONU apontam que entre 85% a 90% da capital do país, Porto Príncipe, esteja sob domínio de tais organizações.
Atualmente, metade dos membros de gangues haitianas é formada por menores de idade. O dado alarmante foi divulgado pela representante especial da ONU para Crianças e Conflitos Armados, Vanessa Frazier.
Durante visita ao país, Frazier disse ter constatado que crescer como uma criança haitiana é uma “luta diária” não só para sobreviver a crise humanitária, mas também para não se tornarem vítimas de organizações criminosas que “se aproveitam da vulnerabilidade dessas crianças”.
Métodos violentos
Ao Metrópoles, o embaixador do Haiti no Brasil, Jean-Victor Harvel Jean-Baptiste, revela que um dos principais métodos que gangues têm utilizado para levantar fundos são sequestros e pedidos de resgate, que afetam principalmente a classe média do país.
“A elite têm dinheiro para construir sua própria segurança privada, já o povo pobre não tem dinheiro para pagar se você sequestrar ele. Enquanto isso, a classe média são médicos, engenheiros, agrônomos, técnicos que representam a coluna vertebral do país”, explica o diplomata.
“Quando um bandido sequestra alguém, toda a família se junta para pagar o resgate. Eles começam a pedir, por exemplo, 2 milhões de dólares, e aí entram as negociações, para finalmente abaixar o valor para entre 200 a 500 mil dólares. É muito dinheiro, tem gente que venda a casa, vende o carro, vende tudo o que tem, porque a solidariedade familiar no Haiti é uma coisa forte”, acrescenta.

Além da violência, a tomada do país por parte de gangues também desencadeou outros problemas para o Haiti.
Dados recentes do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) mostram que 5,8 milhões de haitianos enfrentam fome aguda, devido a fatores combinados: colapso econômico, instabilidade política e o bloqueio na circulação de produtos e ajuda humanitária em áreas controladas por grupos criminosos.
Neste cenário, muitos haitianos continuam deixando suas casas em busca de mais segurança e melhores condições de vida. Somente no último ano, 574.300 pessoas foram deslocadas à força dentro do próprio país por conta da crise.
Já o número de pedidos de asilo no exterior chegou a casa dos 84.600 mil, segundo número divulgados neste mês no relatório Tendências Globais: Deslocamento Forçado em 2025, produzido pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur).
Apesar disso o embaixador Jean-Victor Harvel Jean-Baptiste afirma que a população haitiana encontrou no esporte, desde novembro de 2025, uma boa notícias em meio a tantas ruins. Naquele mês, a seleção do Haiti se classificou para o Mundial junto de Curaçau pelas eliminatórias da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf).
“Eu me lembro quando o Haiti ganhou da Costa Rica [jogo que encaminhou a classificação para a Copa]”, afirmou o chefe da Embaixada do Haiti no Brasil. “Me lembro que nesta noite os haitianos fizeram festa a noite toda, até o amanhecer do sol. Muito mais fora da capital, porque a insegurança ainda é forte, mas principalmente no interior, no Sul e o Norte, até 8 horas da manhã estavam festejando. Foi uma boa notícias, necessitávamos dessa boa notícia nesta época”, disse.








