Um mês após incêndios, Maxakali enfrentam falta de água e roças destruídas
Após incêndios destruírem 65% da Terra Indígena Maxakali, campanha busca arrecadar R$ 100 mil para ajudar na recuperação das áreas atingidas

Belo Horizonte – Um mês após o início das intensas queimadas que atingiram a Terra Indígena Maxakali, nos municípios de Bertópolis e Santa Helena de Minas, no Vale do Mucuri, os indígenas ainda enfrentam dificuldades para lidar com as consequências da destruição. Ao todo, cerca de 3,5 mil hectares foram queimados, o equivalente a aproximadamente 4,9 mil campos de futebol, e 65% do território.
Espécies ameaçadas e áreas de recuperação atingidas
Há mais de três anos, o Projeto Hãmhi trabalha com o povo Maxakali na recuperação da vegetação, no cultivo de alimentos e na formação de indígenas para o trabalho com mudas e reflorestamento. O objetivo é, como dizem os próprios indígenas, “trazer a floresta de volta”.
Parte desse trabalho foi destruída pelos incêndios. “O fogo atingiu áreas que estavam em processo de recuperação, tanto por meio de plantios quanto pelo crescimento natural da vegetação. Ainda estamos calculando os danos“, explicou Kamila. O projeto chegou a divulgar que quase 90% desse esforço foi perdido.
Entre os prejuízos estão a destruição de árvores nativas, incluindo o jacarandá-da-Bahia, espécie ameaçada de extinção, a morte de animais e a perda de nutrientes do solo. As queimadas também deixaram nascentes desprotegidas, o que pode comprometer a qualidade da água dos rios e dificultar ainda mais a produção de alimentos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“A vegetação também era muito importante como material para cobrir as casas. Com as queimadas, esse recurso ficou escasso, e a necessidade de lonas aumentou bastante”, conta Kamila Paganelli, coordenadora técnico-pedagógica do Projeto Hãmhi, iniciativa voltada para a recuperação ecológica, a soberania alimentar e a proteção ambiental em territórios do povo Maxakali.
O fogo
Apesar das suspeitas de que o fogo tenha sido provocado por ações criminosas, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que as investigações seguem em andamento. Até o momento, ninguém foi responsabilizado.
“A principal dificuldade é recomeçar as roças e os plantios perdidos. Quintais e áreas de cultivo que já produziam alimentos, como batata, frutas e mandioca, precisam ser refeitos, e isso exige recursos. Algumas famílias ainda enfrentam falta de água, e a caça também está bastante escassa”, explica Kamila Paganelli.
Para Rosângela Pereira de Dugne, professora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e integrante da coordenação do projeto, a demora na apuração da polícia aumenta a insegurança dos indígenas.
“A ausência de investigação e de punição dos responsáveis deixa a comunidade em uma situação de grande vulnerabilidade. O povo Maxakali já enfrenta um histórico de violência, racismo e luta pelo território. A demora nas investigações só aumenta essa insegurança”, afirmou.
Como o fogo começou
O primeiro incêndio foi registrado em 7 de outubro. Naquele dia, a equipe do Projeto Hãmhi trabalhava em um viveiro de mudas na Aldeia do Pradinho quando começou a receber mensagens e imagens das chamas.
“Percebemos que nossa equipe poderia apoiar os brigadistas Maxakali, levando-os até o local e ajudando no transporte dos materiais de combate ao fogo e dos equipamentos de proteção”, contou Kamila.
Segundo ela, o incêndio começou em um trecho da Terra Indígena por onde circulam muitos veículos de pessoas que não pertencem à comunidade. A estrada liga o distrito de Bom Jesus da Vitória aos municípios de Santa Helena de Minas e Bertópolis.

“Não há moradias próximas ao ponto onde o fogo começou, mas, por causa da seca e do vento, as chamas se espalharam por uma grande área de vegetação nativa e chegaram perto das casas Maxakali”, explicou.
O incêndio foi controlado em 10 de outubro. No dia seguinte, porém, um novo foco surgiu, desta vez em uma fazenda vizinha. “Relatos, observações no local e imagens de satélite indicam que as chamas começaram na fazenda, embora ainda não se saiba o motivo”, relatou Kamila.
Ainda não é possível afirmar se houve intenção criminosa. “Não sabemos se foi um incêndio provocado para atingir a aldeia ou se o fogo saiu do controle, atravessou a estrada e entrou no território. As chamas se espalharam muito rapidamente, mesmo com a presença de brigadistas do Ibama. Por isso, é preciso investigar“, disse. O fogo só foi controlado em 15 de outubro.
Contudo, um áudio, em tom de chacota, viralizou na região e passou a associar os incêndios ao processo eleitoral, aumentando a suspeita. Segundo Rosângela, a gravação ironizava a tragédia: “É como se tivesse rindo deles, fazendo chacota com o sofrimento deles”.
Projetos pedem medidas para evitar novos incêndios
Além da recuperação das áreas destruídas, representantes dos projetos que atuam no território defendem a criação de um Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF). Segundo Rosângela, a proposta já foi apresentada a órgãos públicos, como prefeituras, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
A ideia é estabelecer responsabilidades para prevenir e combater incêndios, incluindo a construção de aceiros, que são faixas de terreno sem vegetação que ajudam a impedir o avanço das chamas. “É preciso um plano que envolva municípios, estado e União, com responsabilidades definidas para proteger o território, construir aceiros e fortalecer as práticas de queima controlada”, explicou.

Vaquinha busca arrecadar R$ 100 mil
Enquanto as comunidades tentam se recuperar dos prejuízos, uma campanha on-line foi criada para ajudar a reconstruir as áreas atingidas. Organizada pela Teia dos Povos, a vaquinha foi lançada na terça-feira (3/11) e tem como meta arrecadar R$ 100 mil.
O dinheiro será usado na compra de sementes e mudas, na preparação do solo e na alimentação dos indígenas que participarão dos mutirões de recuperação.
As autoridades
De acordo com nota enviada pelo Ibama ao Metrópoles em 19 de outubro, o pedido dos Maxakali para o reconhecimento oficial da Brigada Voluntária Mãtanãg Kõnãnghi, criada em novembro de 2024, além das solicitações de equipamentos, veículos e contratação de brigadistas, serão incluídos no planejamento de contratação de brigadas para 2027.
O Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Ibama diz que trabalha de forma contínua na TI Maxakali e que, em 2024, foi realizado o 1º Curso de Formação de Brigadistas Voluntários, oferecido em parceria com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Na ocasião, o Prevfogo entregou equipamentos de proteção individual (EPIs), uniformes e todo o material utilizados pelas brigadas do Ibama. Em 2025 e 2026 foram realizadas atividades de queima prescrita sob coordenação do Prevfogo.
A reportagem também entrou em contato com as prefeituras de Santa Helena de Minas, Bertópolis e a Secretaria de Estado Meio Ambiente e aguarda um retorno.
