Semana de Cinema Negro destaca filmes mineiros e homenageia Grace Passô
Evento exibe produções mineiras como Nosso Segredo e O Natal dos Silva, além de clássicos internacionais, até domingo (18/10)

Belo Horizonte — A atriz, diretora e roteirista mineira Grace Passô, recentemente premiada como Melhor Atriz no Festival do Rio, no último fim de semana, é a homenageada da Semana de Cinema Negro, que começa nesta quarta-feira (14/10), na cidade onde cresceu.
O evento reúne produções de cineastas negros, com histórias que têm BH e região como cenário e transformam situações do cotidiano em tramas que surpreendem. A programação segue até domingo (18/10), no Minas Tênis Clube, no bairro de Lourdes, região Centro-Sul da capital.
Segundo Lyala Braz, coordenadora artística do festival, a escolha se deve à trajetória da artista mineira, que transita entre o teatro, o cinema e a televisão, ocupando diferentes espaços da produção.
“Grace é atriz, roteirista, diretora, uma figura múltipla na cultura. Ela está na TV, no cinema, no teatro, por trás das câmeras, no streaming, em séries. A gente vê poucos artistas que conseguem ocupar tantos espaços diferentes do cenário cultural”, afirmou.
Nascida em 20 de maio de 1980, no bairro Alípio de Melo, na periferia da capital, Grace Passô começou a estudar teatro aos 13 anos e passou pelo Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (Cefar-MG).
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesTem textos teatrais publicados em português, francês, italiano, espanhol, mandarim, inglês e polonês. Em 2004, fundou, com outros artistas de BH, o Grupo Espanca!, que se tornou referência no teatro brasileiro.
Na televisão e no streaming, participou recentemente, também, de produções como “Sessão de Terapia” (2026), do Globoplay, em que interpreta a psicóloga de um personagem vivido por Selton Mello; “O Filho de Mil Homens (2025)”, filme da Netflix com Rodrigo Santoro.
“Nosso Segredo”, lançado nos cinemas em agosto, marcou a estreia de Grace Passô na direção de um longa-metragem e será exibido no próximo domingo (18/10), durante a sessão em homenagem à artista.
“Foi um sucesso absoluto. O filme conseguiu chegar a muitas salas de cinema, o que é um trabalho muito difícil de distribuição. Grace conseguiu manter o filme em cartaz por semanas, o que é muito especial”, destacou Lyala.
O reconhecimento da artista também chegou à disputa pelo Oscar de 2027. Além de Nosso Segredo, outro filme com a participação de Grace, “Vicentina Pede Desculpas”, dirigido por Gabriel Martins, esteve entre os seis pré-selecionados para representar o Brasil na premiação.
Apesar de não terem sido escolhidos, conquistaram reconhecimento nacional internacional: “Nosso Segredo” venceu três Kikitos no Festival de Gramado, enquanto “Vicentina Pede Desculpas” disputou a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián, na Espanha.
O momento do cinema mineiro
Vale destacar que ambos são filmes mineiros, gravados em Belo Horizonte e protagonizados por personagens negros. “Minas tem uma grande capacidade de criação cinematográfica do cotidiano e do fantástico. Essa junção é muito única no cinema mineiro e acho que é isso que faz ele se destacar tanto no cenário nacional e internacional”, destacou.
Segundo Lyala, uma das características que ajudam a explicar o sucesso do cinema mineiro no Brasil e no exterior é a capacidade de contar histórias individuais que também representam experiências coletivas. “Nenhuma experiência é única”, ressalta.
Ela afirma que o cinema negro passou por diferentes fases. Primeiro, buscou mostrar pessoas negras de forma mais verdadeira, sem estereótipos. Depois, passou a valorizar os lugares onde vivem e, mais recentemente, ganhou espaço para histórias mais criativas e pessoais.
“Acho que as cinematografias negras buscaram, primeiro, uma representação mais verdadeira, já que a gente via representações muito caricatas, estereotipadas e muito iguais. Depois, veio a busca por retratar os territórios de uma maneira digna, a junção dessas duas coisas e a construção de novos caminhos”, explicou.
Na avaliação dela, o público também tem demonstrado interesse por histórias que fogem do tradicional. “O público está buscando novas narrativas, filmes inventivos, e acho que a Filmes de Plástico e o cinema mineiro têm esse lugar muito forte desde os primórdios”, afirmou.
Na programação
A Filmes de Plástico é uma produtora de cinema fundada em 2009, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, é responsável por “Vicentina Pede Desculpas”, que conquistou três prêmios no Festival do Rio, no último domingo (11/10): Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Filme pelo voto popular. O longa ainda não estreou comercialmente e chega aos cinemas em 5 de novembro e à Netflix no dia 20 do mesmo mês.
Durante a Semana de Cinema Negro da capital, outras produções ligadas à produtora estarão em cartaz, como “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, e “O Natal dos Silva”, série de Gabriel Martins que acompanha os encontros e conflitos de uma família durante as festas de Natal.
Lyala também destaca “Ana, en passant”, animação da cineasta mineira Fernanda Salgado que acompanha uma jovem negra franco-brasileira em uma viagem a BH após a morte da avó. O filme abre a mostra nesta quarta-feira (14/10). (Veja programação completa abaixo)
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Outro ponto destacado pela curadora é a identificação do público negro com histórias que retratam sua realidade. “Eles conseguem trazer um cotidiano que se inventa e, ao mesmo tempo, uma realidade muito profunda daquela população, um sentimento de pertencimento, de ‘olha, a minha realidade também é possível estar na tela do cinema’. Acho que isso aproxima muito o público”, disse.
A programação também inclui o Cine-Escrituras Pretas, que reúne curtas e longas-metragens brasileiros, com debates com os diretores. Entre os títulos estão Xica Vive na Fumaça, de Vini Faustino; A Perdição de Lázaro, de Diego Paulino; Tião Personal Dancer, de Aristótelis Tothi; e Boulevard Arrudas, de Matheus Moura. Entre os destaques internacionais estão Body and Soul (1925), de Oscar Micheaux, um dos pioneiros do cinema negro, que será exibido na quinta-feira (15/10) com trilha sonora ao vivo do músico Negro Leo.
A programação também inclui oficinas sobre como as cores são usadas no cinema e nas artes visuais, a história do cinema negro e a criação de animações inspiradas em lembranças pessoais e coletivas. O público ainda poderá conhecer filmes que estão sendo produzidos e conversar sobre como são feitos, desde as escolhas dos diretores até as dificuldades para levar as histórias às telas.
Políticas públicas
Em agosto, a organização chegou a anunciar o cancelamento da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte por falta de recursos. Segundo Lyala, o festival só pôde ser realizado após a entrada de um novo parceiro.
“A gente cancelou o festival porque não conseguiu captar recursos. Mas, por meio do programador Samuel Marota, o Minas Tênis Clube entrou como correalizador e conseguiu suprir algumas necessidades para que o evento acontecesse”, explicou.
Para Lyala, o episódio mostra a necessidade de políticas públicas permanentes de incentivo à cultura, que garantam a continuidade de iniciativas independentemente das mudanças de governo.
A curadora também defende mudanças nos mecanismos de financiamento, especialmente para que projetos menores e em suas primeiras edições tenham mais oportunidades.
“O que acontece é que as empresas acabam focando só em projetos já consolidados. É importante olhar para esses projetos, sim, mas também para a primeira edição de novos projetos. É assim que a gente consegue uma diversidade maior e cria novas formas de se conectar culturalmente”, afirmou.
Serviço
Evento: Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte
Data: 14 a 18 de outubro de 2026
Local: Minas Tênis Clube — bairro de Lourdes, região Centro-Sul de Belo Horizonte
Endereço: Rua da Bahia, 2.244, Lourdes, Belo Horizonte (MG).
