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Minas Gerais

Cinema de graça: projeto leva filmes a favelas e ocupações de BH

Projeto começa neste sábado (10/10) e segue até dezembro, com sete sessões de cinema gratuitas em diferentes regiões de BH

09/10/2026 10:36, atualizado 09/10/2026 10:37
Fotos: @joaop_diniz/ Edição: @marcelllocamacho
O Cine Dorothy é um projeto itinerante de exibição audiovisual que leva sessões gratuitas de cinema e debates a comunidades periféricas de Belo Horizonte

Belo Horizonte — Em um momento em que o cinema produzido nas periferias ganha cada vez mais visibilidade, um projeto de Belo Horizonte propõe uma reflexão: o que fica para uma comunidade depois que as câmeras vão embora?

A pergunta deu origem ao Cine Dorothy, iniciativa que leva sessões gratuitas de cinema a vilas, favelas e ocupações da capital mineira e que, em 2026, passa a circular por diferentes regiões da cidade.

A ideia surgiu entre 2022 e 2023, durante a preparação do curta-metragem Eva, escrito e dirigido por Franco Dafon, e produzido por Ana Gusmão e Fabiana Santos, realizado na Ocupação Irmã Dorothy, na Região do Barreiro. O filme conta a história de uma mulher interiorana, que vive em uma ocupação junto ao seu filho e marido.

Antes das filmagens, a equipe decidiu conhecer o território, conversar com moradores e entender a realidade da comunidade. Foi nesse processo que percebeu a falta de acesso a atividades culturais.

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“Muitas vezes, o cinema chega em comunidades e em territórios periféricos, realiza o seu filme, utiliza aquele espaço, aquelas pessoas e aquelas histórias, e depois vai embora. Não existe necessariamente um retorno para a comunidade”, explica o idealizador do projeto, Franco Dafon, que também é produtor, roteirista e diretor, sendo dono da Companhia de Cinema Vernuma.

A proposta, então, foi criar uma iniciativa que não terminasse com as filmagens: “A gente começou a pensar que aquela comunidade não poderia ser apenas o lugar onde a gente chegaria para abrir uma porta, filmar o que precisava e depois ir embora. A ideia era pensar o cinema junto com aquela comunidade”, afirma.

O projeto foi desenvolvido em 2024 e realizou sua primeira edição em 2025, com sete sessões na Ocupação Irmã Dorothy, que surgiu em março de 2010,  partir da mobilização de famílias em busca de moradia.

A comunidade recebeu o nome em homenagem à missionária Dorothy Stang, que atuava na defesa de trabalhadores rurais e do meio ambiente e foi assassinada em 2005, no Pará. Segundo levantamento da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), a ocupação ocupa uma área de aproximadamente 21 mil metros quadrados e contava com 230 domicílios.

Neste ano, mantém o mesmo número de exibições, mas amplia a programação para outros espaços.

Da ocupação para outros lugares

A decisão de tornar o Cine Dorothy itinerante veio depois que a equipe percebeu que havia público interessado nas sessões e que a proposta poderia ser levada a outras comunidades com dificuldades semelhantes.

“A escolha desses novos lugares parte, principalmente, das relações que a própria equipe do projeto já possui com diferentes regiões de BH. É uma equipe formada por pessoas que vivem, trabalham ou desenvolvem atividades em territórios periféricos e descentralizados da cidade. Então, essas pessoas também trouxeram para dentro do projeto demandas que já existiam nos lugares onde elas estavam inseridas”, disse.

Na Pedreira Padre Lopes, a favela mais antiga da capital, que fica na região da Lagoinha,  na Região Noroeste, por exemplo, estão previstas duas sessões. Uma será realizada em uma Escola Municipal de Educação Infantil (Emei), voltada às crianças. A outra acontecerá no Morro PPL, bar e ponto de cultura que recebe rodas de samba.

“A ideia é inclusive encerrar essa passagem aproximando cinema e samba, duas manifestações que já fazem parte da dinâmica daquele território”, explicou.

O projeto também chegará ao bairro Primeiro de Maio, na Região Norte, onde a equipe já participou de produções audiovisuais sobre a memória local e a história dos trabalhadores. Outra atividade está prevista no Centro Socioeducativo Feminino de BH, voltada a adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa.

“Existe uma preocupação nossa em pensar também o acesso ao cinema para pessoas privadas de liberdade, especialmente para jovens, entendendo que o cinema pode ser uma experiência de contato com outras narrativas, outras possibilidades de mundo e, de alguma maneira, também um instrumento de transformação”, explicou.

A programação também terá sessões no Parque do Palácio, na Região Centro-Sul, alcançando um outro tipo público. Confira as datas abaixo

Filmes escolhidos a partir do público

Uma das preocupações da equipe é fazer a programação considerando quem vai assistir aos filmes. “Ao longo das sessões [da primeira edição], fomos percebendo que esse filme não necessariamente dialogava com todos os públicos que frequentavam aquele espaço, até por não ser uma produção de classificação livre”, disse Dafon.

“ A gente realizou sete exibições e, já a partir da quarta, conseguimos perceber com mais clareza que o público que estava acessando aquelas atividades era majoritariamente infanto-juvenil. Então, a partir daí, essa informação passou a orientar a programação”, explicou.

Agora, antes de definir a programação de cada local, os organizadores procuram conhecer os espaços, observar quem os frequenta e entender as atividades dalí. A divulgação do filme ocorre uma semana antes da sessão, que acontece a partir deste sábado até 4 de dezembro.

A seleção dos filmes é feita por Yasmine Evaristo e João Pedro Diniz, responsáveis pela programação, com base nesse trabalho de pesquisa.

A primeira sessão será neste sábado (10/10), às 18h, na Ocupação Irmã Dorothy, ao lado do Centro Cultural Vila Santa Rita. Será exibido o filme A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai, que estreou mundialmente no Festival de Berlim. A organização recomenda que o público leve cadeiras ou bancos para assistir ao filme.

A primeira edição  de 2025 começou com cerca de 15 a 20 espectadores por sessão, mas ganhou público ao longo da programação. A última exibição reuniu mais de 60 pessoas para assistir a Saneamento Básico, o Filme, de Jorge Furtado, seguida de uma conversa com os moradores.


“A sétima arte é ordinária”

A segunda edição tem como lema “A sétima arte é ordinária”, que vem para questionar a percepção do cinema como uma experiência distante, restrita a determinados espaços ou públicos.

“O cinema não precisa estar distante, nem acontecer apenas dentro de uma sala específica, para públicos específicos. Ele pode, e precisa, estar na rua, fazendo parte da vida cotidiana das pessoas”, explica Franco Dafon.

Todas as sessões são gratuitas e não exigem inscrição prévia. Basta chegar ao local e, se possível, levar algo para se sentar. “É aproximar a tela da casa, da rua, do bairro. É fazer um cinema ao ar livre na rua da sua casa. Porque cinema também é coisa da gente”, acrescenta.

Serviço

  • 10 de outubro (sábado) — Ocupação Irmã Dorothy, ao lado do Centro Cultural Vila Santa Rita, na Região do Barreiro.
  • 17 de outubro (sábado) — Ocupação Camilo Torres, na Região do Barreiro.
  • 31 de outubro (sábado) — Parque do Palácio, Rua Professor Djalma Guimarães, 161, Mangabeiras.
  • 7 de novembro (sábado) — Centro Socioeducativo São Jerônimo, Rua Santo Agostinho, 1.361, Horto. Sessão fechada, exclusiva para os socioeducandos.*
  • 14 de novembro (sábado) — Praça Primeiro de Maio, bairro Primeiro de Maio, Região Norte.
  • 27 de novembro (sexta-feira) — EMEI Maria da Glória Lommez, Rua Carmo do Rio Claro, 145, Pedreira Prado Lopes.
  • 4 de dezembro (sexta-feira) — No Morro PPL, cinema com samba, na Pedreira Prado Lopes, Região Noroeste.

Entrada: gratuita, com exceção da sessão no Centro Socioeducativo, que será fechada ao público.