Pampulha incompleta: IA recria hotel de Niemeyer nunca concluído em BH.
Obra teria 100 quartos, restaurante e cinema e chegou a ter fundações e pilares erguidos; veja como seria o prédio
Belo Horizonte — Um hotel com 100 quartos, restaurante, cinema e apartamentos de luxo chegou a começar a ser construído às margens da Lagoa da Pampulha, mas nunca foi concluído. Mais de oito décadas depois, imagens produzidas com inteligência artificial mostram como ficaria o edifício projetado por Oscar Niemeyer para completar o conjunto arquitetônico.
O arquiteto Marcelo Palhares Santiago recriou o Grande Hotel da Pampulha, em Belo Horizonte, projetado por Niemeyer, mas que nunca chegou a ser concluído, fazendo muita gente descobrir um pouco mais sobre a história da própria cidade.
A ideia de reconstruir virtualmente o edifício surgiu durante as pesquisas de Marcelo, que integra o ARQBH Arquitetura de BH. Ao buscar sobre prédios da cidade, ele se deparava com frequência com ideias que desapareceram da paisagem.
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“Eu passo os dias fotografando a arquitetura de BH e pesquisando livros, cadernos e desenhos antigos para identificar a autoria e a história de cada prédio. Nesse caminho, esbarro o tempo todo com desenhos e fotos de prédios demolidos e de projetos que nunca saíram do papel. Foi daí que veio a ideia de usar a IA para simular como seriam essas obras que hoje só existem em arquivo”, contou.
Para chegar às imagens, ele pesquisa os desenhos originais de Niemeyer e textos em que o próprio arquiteto descreve o projeto. O material é cruzado com revistas, livros e reportagens da época, além de informações sobre os acabamentos usados pelo arquiteto em outras obras do mesmo período. “Só então eu gero as imagens, corrigindo e refazendo várias vezes até que o resultado bata com o que está desenhado. É um trabalho demorado e cuidadoso, não é só apertar um botão”, explicou.
Para o arquiteto, as recriações ajudam os moradores a conhecer essa parte da história da cidade de forma mais simples, sem precisar entender plantas ou desenhos técnicos. “Muita gente passa pela orla da Pampulha a vida inteira sem saber que ali faltou um prédio, e menos gente ainda sabe por quê. A imagem abre essa porta em três segundos, e é por isso que ela circula: as pessoas se reconhecem naquela paisagem e querem saber o que aconteceu”, contou.
Mas, afinal, o que aconteceu com o hotel?
O Grande Hotel da Pampulha fazia parte do projeto de Juscelino Kubitschek para transformar a região em um polo de lazer e turismo. Projetada por Niemeyer, a edificação daria suporte ao balneário idealizado para a Pampulha, que, na época, ficava distante do Centro de BH e era de difícil acesso.
“A ideia era que a Pampulha fosse um balneário. Então, nada mais natural do que ter um hotel para abrigar os turistas”, explica Carlos Henrique Bicalho, diretor de Patrimônio da Fundação Municipal de Cultura.
Segundo o arquiteto Marcelo, o plano de Juscelino previa seis peças trabalhando juntas em volta da lagoa: o cassino, a Casa do Baile, o Iate Clube, a igreja, o hotel e um clube de golfe.
“Cada uma tinha um papel, e o papel do hotel era o de segurar as pessoas ali. Sem ele, quem vinha jogar no cassino ou dançar na Casa do Baile tinha que voltar para o centro da cidade no fim da noite, e o centro ficava longe. O projeto não era só um lugar para dormir: tinha cem quartos, quatro apartamentos de luxo, restaurante, salas de estar e de leitura e até um cinema pequeno, que Niemeyer fez questão de deixar aberto também para os moradores do bairro, não só para os hóspedes. Ou seja, ele imaginava o hotel como parte da vida do bairro, não como um mundo à parte.”
O empreendimento ficaria onde hoje está a Península do Hotel, no bairro Jardim Atlântico. O prédio teria formato curvo, acompanhando o traçado da Avenida Otacílio Negrão de Lima.
Os jardins seriam projetados por Roberto Burle Marx. “Seria semelhante ao que acontecia nas estâncias hidrominerais do interior do estado [como Caxambu, São Lourenço e Araxá], onde hotéis davam suporte ao turismo”, afirma Bicalho, diretor de Patrimônio da Fundação Municipal de Cultura.
Hotel marcaria momento decisivo de Niemeyer
Além da importância para o funcionamento da Pampulha como destino turístico, o Grande Hotel foi projetado em um momento decisivo da trajetória de Niemeyer, quando o arquiteto começava a desenvolver elementos que se tornariam marcas de sua obra.
Segundo Marcelo, até então predominava na arquitetura moderna a influência europeia e o uso de linhas retas. Na Pampulha, Niemeyer passou a explorar as curvas.
No hotel, Niemeyer adotou uma solução que repetiria em projetos posteriores. Os quartos ficariam concentrados na parte de cima, em um bloco comprido e de linhas retas, sustentado por colunas. Já no térreo, onde ficariam os salões, o restaurante e a recepção, predominariam as curvas. “Era como se o prédio tivesse duas personalidades sobrepostas”, explicou.
A execução
O Grande Hotel não ficou apenas nos desenhos. A construção começou em 1942, com a execução das fundações e de alguns pilares do pavimento térreo. A obra, no entanto, foi interrompida. Segundo Bicalho, não há registro que permita afirmar de forma definitiva o motivo da paralisação. A hipótese é que dificuldades financeiras tenham impedido a continuidade, uma vez que o empreendimento seria custeado pela própria prefeitura.
“Não temos nenhum registro sobre qual teria sido o motivo definitivo para interromper a obra, mas subentende-se que tenha sido uma questão financeira. Era uma obra da própria municipalidade, com recursos próprios”, explica. Os pilares erguidos na época foram demolidos anos depois, mas parte das fundações permanece no local até hoje.
Falta do hotel afetou funcionamento do conjunto
Para Marcelo, a ausência do hotel deixou incompleto não apenas o programa de usos imaginado para a Pampulha, mas também uma relação planejada entre os edifícios ao redor da lagoa.
“Do ponto de vista do plano original, sem dúvida: faltou uma das cinco peças, e faltou justamente a que faria as pessoas ficarem. Nesse sentido a Pampulha nunca funcionou completa. E tem outra coisa, que só se percebe quando você anda pela orla: os prédios foram implantados de propósito em posições que permitem enxergar uns aos outros. De cada um deles você vê os outros do outro lado da água, e a lagoa funciona como um espelho que costura tudo. O terreno do hotel era privilegiado justamente por isso, de lá se veria o cassino, a Igrejinha, a Casa do Baile e o Iate Clube ao mesmo tempo. Faltando uma das peças, esse jogo de olhares fica incompleto”, disse o arquiteto.
A ideia era que ele atuasse em parceria com o cassino: enquanto um atraía visitantes, o outro permitiria que eles permanecessem na região. “O cassino atraía a alta sociedade do Rio e de São Paulo, mas quem vinha de longe precisava de um local para dormir […] Era essa dupla que faria a lagoa virar destino turístico de verdade, e não só um passeio de fim de tarde”, afirmou. “Sem o hotel, o cassino funcionou capenga desde o começo, e quando o jogo foi proibido, o conjunto perdeu o motor econômico que sustentaria o bairro”, acrescentou Marcelo.
Niemeyer voltou à ideia 40 anos depois
O Grande Hotel dos anos 1940 não foi a última tentativa de Niemeyer de levar um empreendimento hoteleiro à Pampulha. Quatro décadas depois, o arquiteto voltou e desenhou outras duas propostas para a região. Nenhuma delas foi construída.
“O hotel era tão importante, que em 1984, quarenta anos depois, Niemeyer voltou ao assunto e desenhou não um, mas dois hotéis para a Pampulha, nenhum dos dois construído. Um baixinho, de três andares, num terreno perto da Igrejinha. Outro de volta ao terreno original, ousado, avançando sobre a lagoa. Duas respostas opostas para o mesmo problema: uma que se curva diante do patrimônio, outra que disputa com ele”, contou Marcelo
Projeto voltou à discussão antes da Copa
Décadas depois, durante os preparativos de BH para a Copa do Mundo de 2014, surgiu uma tentativa de finalmente erguer o Grande Hotel.
Segundo Bicalho, um investidor demonstrou interesse em reconstruir o original, mas desistiu antes que a proposta fosse formalmente submetida aos órgãos de proteção do patrimônio. “Teve um investidor que quis reconstruir o hotel, mas depois desistiu. Também não sabemos por quê. Isso nem chegou a ser submetido aos órgãos de proteção”, afirma Bicalho.
O “disco voador” da Pampulha
Conforme o Metrópoles mostrou na semana passada, outro projeto de Niemeyer para a Pampulha também nunca saiu do papel. Apresentada em 2004, a proposta previa a construção de um anexo de concreto e vidro sobre as águas da lagoa, ao lado do Museu de Arte da Pampulha (MAP), com formato que lembrava um “disco voador”.
A estrutura buscava resolver um problema antigo do MAP: o prédio foi construído originalmente para funcionar como cassino e só virou museu em 1957. As grandes paredes de vidro, por exemplo, permitem a entrada direta de sol e radiação ultravioleta, prejudiciais às obras. Mais de duas décadas depois, uma nova solução está a caminho: a Prefeitura de Belo Horizonte prepara, em outro ponto da Pampulha, um espaço para preservar o acervo e permitir a futura restauração do museu. Leia a matéria completa aqui.
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Patrimônio mundial
O Conjunto Moderno da Pampulha – Igrejinha de São Francisco de Assis, a Casa do Baile, o Museu de Arte da Pampulha e o Iate Tênis Clube. – é protegido por tombamentos nas esferas municipal, estadual e federal. O complexo teve Oscar Niemeyer como arquiteto e contou com trabalhos de nomes como Roberto Burle Marx e Cândido Portinari.
Em 2016, o conjunto também foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial.















