Pampulha: “disco voador” de Niemeyer ficou no papel, mas MAP ganha solução
Projeto de Niemeyer previa anexo sobre a Lagoa para resolver problemas do Museu de Arte da Pampulha; nova estrutura está em obras

Belo Horizonte — Um enorme “disco voador” branco, projetado por Oscar Niemeyer, poderia ter mudado a paisagem de um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte. A estrutura “de outro planeta” seria construída sobre as águas da Lagoa da Pampulha, ao lado do Museu de Arte da Pampulha (MAP), para resolver um problema que acompanha o espaço há décadas: o prédio não foi projetado para funcionar como museu.
O projeto não saiu do papel, mas imagens produzidas com inteligência artificial mostram agora como ele poderia ter ficado. Ao mesmo tempo, mais de duas décadas depois, a prefeitura executa em outro ponto da Pampulha uma nova solução para preservar o acervo e permitir a futura restauração do MAP.
De acordo com o arquiteto Marcelo Palhares Santiago, o projeto do “disco voador”, apresentado por Niemeyer em 2004, previa um anexo de concreto e vidro para receber parte da estrutura necessária ao MAP..
Com a ajuda da tecnologia, Marcelo, que integra o ARQBH Arquitetura de BH, mostra como o projeto poderia ter ficado caso tivesse sido construído, dando nova vida a uma história da Pampulha que muita gente desconhece.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“O processo começa sempre pela pesquisa. Eu leio os desenhos originais de Niemeyer e os textos em que ele mesmo explica o projeto, e cruzo isso com a pesquisa histórica […] Só então eu gero as imagens, corrigindo e refazendo várias vezes até que o resultado bata com o que está desenhado. É um trabalho demorado e cuidadoso, não é só apertar um botão”, explicou.
Ele segue: “Toda imagem sai identificada como reconstituição feita por IA, uma hipótese visual, nunca como foto ou documento histórico. Sem esse aviso, deixa de ser pesquisa e vira informação falsa”.
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A necessidade de um novo espaço está ligada à própria história do museu. “O prédio do MAP não foi feito para ser museu: foi construído para ser o cassino, e é considerado por muitos críticos a obra-prima de Niemeyer. Só que, quando o jogo foi proibido em 1946 e o espaço virou museu em 1957, aquilo que era encanto virou problema. As grandes paredes de vidro, lindas de ver, deixam entrar sol direto e radiação ultravioleta, que destroem obras de arte”, disse Marcelo.
Outra dificuldade está no espaço usado para guardar as obras que não ficam expostas ao público. A chamada reserva técnica foi adaptada no subsolo do prédio, sem as condições ideais para a preservação do acervo. Durante décadas, uma das soluções discutidas foi a construção de um anexo. O projeto acabou sendo encomendado ao próprio Niemeyer.
O “disco voador” de Niemeyer
Além da proposta do grande volume circular branco, de concreto e vidro, pousado literalmente sobre as águas da lagoa, ao lado do MAP, que, segundo Marcelo, não passou do estudo porque construir sobre o espelho d’água esbarra na legislação ambiental e nas regras de proteção do conjunto tombado, houve uma segunda proposta.
Em vez de avançar sobre a lagoa, Niemeyer projetou um prédio branco, baixo e horizontal no terreno vazio em frente ao museu.
Segundo o arquiteto, essa versão chegou mais perto de ser executada. O projeto foi aprovado pela PBH e pelos órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio, mas também nunca foi construído.
“O detalhe irônico é que, nas duas versões, ao propor um espaço para corrigir os defeitos do cassino como museu, Niemeyer repetiu exatamente os mesmos vícios do prédio original: grandes fachadas de vidro e reserva técnica no subsolo. O desfecho dessa história está acontecendo agora”, disse.
Nova estrutura está em obras
Mais de duas décadas depois, a solução para parte dos problemas do MAP está sendo construída em outro ponto da Pampulha.
A prefeitura trabalha na implantação do MAP – Núcleo de Pesquisa e Informação, anteriormente chamado de Casa MAP. O espaço vai armazenar o acervo que não está em exposição, além da biblioteca e do centro de documentação.
A estrutura ocupa um imóvel que abrigava a antiga estação de bombeamento de água da Pampulha, construída nos anos 1940, na Avenida Otacílio Negrão de Lima. O local fica dentro da área reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.
A mudança é também uma etapa necessária para a restauração do prédio principal do MAP. Antes do início da intervenção, as obras de arte precisam ser retiradas do museu e levadas para um local adequado.
De acordo com a prefeitura, as obras do MAP – Núcleo estão na segunda etapa e em estágio avançado. A previsão é que sejam concluídas em dezembro de 2026.
A transferência do acervo está prevista para começar em dezembro, após a conclusão das obras, e deverá durar seis meses. Segundo a prefeitura, o edital para contratar o transporte das obras já foi publicado no Diário Oficial do Município (DOM).
“Esta transferência possibilitará que as obras de arte possam ser preservadas seguindo os melhores critérios de conservação e deixará o edifício sede disponível para o início das obras de restauração”, finalizou a prefeitura.
Restauração do museu
Além disso, a PBH informou que a licitação para a restauração do edifício principal do Museu de Arte da Pampulha será lançada ainda neste ano. Um novo anexo para o museu também está em fase de planejamento.
“O anexo possibilitará o crescimento do acervo em condições adequadas de segurança, o retorno das grandes exposições deste rico acervo, além das possibilidades de construção de parcerias com outras instituições e o recebimento de acervos externos”, explicou a PBH.
Enquanto as obras avançam, também estão sendo preparadas as áreas que vão receber as obras de arte. Os espaços terão controle de temperatura e umidade, mobiliário específico e sistemas de segurança.
“Além da obra de reforma do espaço, já acontecem, simultaneamente, a preparação das reservas técnicas que irão receber os acervos com climatização, instalação de mobiliário técnico adequado, sistemas de segurança, dentre outros”, disse.
Linha do tempo
- Década de 40: O prédio principal é projetado por Oscar Niemeyer para funcionar como Cassino da Pampulha. Na mesma época, é construída a antiga estação de bombeamento de água da Pampulha no entorno.
- 1946: Ocorre a proibição dos jogos de azar no Brasil, o que força o encerramento das atividades do cassino.
- 1957: O edifício do antigo cassino é adaptado e inaugurado oficialmente como Museu de Arte da Pampulha (MAP).
- 2004: Niemeyer apresenta a primeira proposta de anexo, apelidada de “disco voador” — uma estrutura circular de concreto e vidro projetada sobre as águas da Lagoa da Pampulha, que não avançou devido a restrições ambientais e de tombamento.
- 2008: Niemeyer desenvolve a segunda proposta de anexo, consistindo em um prédio baixo e horizontal no terreno em frente ao museu. Apesar de aprovado pela Prefeitura e pelos órgãos de patrimônio, o projeto não chegou a ser executado.
- Dezembro de 2026: Previsão de conclusão das obras do MAP – Núcleo (antiga Casa MAP / estação de bombeamento).
Fonte: PBH



