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Minas Gerais

Como é o Edifício JK por dentro? Saiba como funciona a visita gratuita

Visita guiada passa pelo espaço onde seria a boate, museu e por áreas de convivência do edifício projetado por Oscar Niemeyer em BH

27/08/2026 09:12
Larissa Ricci/ Metrópoles
Visita guiada pelo Edifício JK, em BH

Belo Horizonte — Como é um dos maiores edifícios residenciais do país por dentro? Pela primeira vez, o Conjunto JK, projetado por Oscar Niemeyer, em Belo Horizonte, e que voltou aos holofotes com as histórias da síndica que ficou mais de 40 anos no poder, abre as portas para uma visita guiada que revela detalhes da arquitetura, da história e até de espaços fechados por décadas, além de planos originais que previam uma boate, uma cozinha e até um museu.

As visitas acontecem desta quinta-feira (27/8) a domingo (30/8), sempre às 16h30, como parte da programação do  Circuito Urbano de Arte (CURA). O passeio é gratuito, e as senhas são distribuídas por ordem de chegada, 30 minutos antes de cada sessão.

Projetado no início dos anos 1950, a pedido do então governador Juscelino Kubitschek, o JK tem dois blocos, de 23 e 36 andares, e mais de mil apartamentos.

O passeio é conduzido pelo Viva JK, projeto que reúne moradores e parceiros em ações de valorização e preservação do conjunto. Durante o percurso, o público passa pelos espaços de convivência e pelos famosos vãos livres e descobre como várias das ideias previstas para o complexo mudaram ao longo de uma construção.

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Museu, boate e restaurante

O espaço entre o bloco e o mezanino era para ser o Museu de Arte Moderna. Só que, quando o prédio foi inaugurado, nos anos 70, foi colocada ali uma Secretaria de Segurança Pública. Então, o museu caiu e o espaço ficou ligado à segurança pública.

“Até hoje, está sob o poder da Polícia Civil. A gente tem planos de tentar fazer um intercâmbio de espaços”, revelou Pedro Henrique Almeida de Morais, arquiteto e urbanista, mestre e doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que integra o Viva JK.

O museu não foi a única ideia que mudou de rumo. Outro grande espaço do conjunto foi projetado para concentrar opções de lazer e convivência, com uma cozinha industrial no centro, além de boate, bar e restaurante.

“Originalmente, era para ter uma cozinha industrial [onde hoje fica o salão do hall de entrada], uma boate, um bar e um restaurante do outro lado. Quando eles entraram, esse espaço já estava todo demolido e virou o salão que é hoje. É um espaço incrível”, explicou.

Visita guiada pelo Edifício JK, em BH
Visita guiada pelo Edifício JK, em BH

Soluções de Niemeyer

A fachada ajuda a contar o que acontece dentro dos blocos: elas também acompanham diferentes usos e tipos de apartamentos. Parte do conjunto, por exemplo, foi pensada originalmente para funcionar como hotel, com unidades de aproximadamente 20 metros quadrados.

“Essas divisões na fachada são, por um lado, estéticas, ou seja, tentam ajustar as proporções desse bloco gigante. Mas não só isso. Era uma forma de trazer para a fachada um pouco da divisão funcional interna do prédio. Essa faixa vertical separa, do lado esquerdo, apartamentos que são de um nível só e, do lado direito, aqueles apartamentos característicos do JK, em meios níveis, ou semi-duplexes, como a gente chama”.

Da Pampulha a Brasília

Durante a visita, Pedro também explica o contexto em que surgiram os grandes conjuntos residenciais, a partir do crescimento das cidades, e mostra as diferenças em relação a outras obras de Niemeyer, como o Copan, em São Paulo.

“Uma comparação inevitável, porque são contemporâneos, é entre o Edifício JK e o Edifício Copan, em São Paulo. São duas obras-primas do Niemeyer. Mas, diferente do Copan, o JK tem uma relação entre os usos habitacional e comercial que é distinta. Quem já foi ao Copan sabe a riqueza daquela galeria que tem no pé, porque lá os usos se interpenetram. Todo mundo que mora no prédio precisa passar pela galeria para subir para a torre. E aqui o uso comercial está segregado. Então, essa mistura de usos com a cidade não acontece de uma forma tão virtuosa quanto no Copan. Lá, a passagem das pessoas que moram no prédio estimula o comércio e o torna muito ativo”, diz o arquiteto.

O passeio também relaciona o JK a outros projetos emblemáticos ligados à trajetória política de Juscelino Kubitschek, como a Pampulha e Brasília. “Quando foi prefeito, construiu a Pampulha. Quando foi governador, iniciou o JK, que infelizmente não ficou pronto no tempo da gestão dele. E, quando se tornou presidente, construiu Brasília. São três demonstrações exemplares da arquitetura moderna conduzidas através desse político”, explicou Pedro.

Mirante do Edifício JK, em BH
Mirante do Edifício JK, em BH

CURA dentro do JK

Pela primeira vez, o CURA também ocupa o interior do Edifício JK. A artista belo-horizontina Rafaela Ianni assina uma intervenção no muro do caracol do parquinho infantil do Bloco A.

A obra combina cores vibrantes e formas geométricas que remetem a cortes e planos arquitetônicos: “Eu trabalho muito com planos de cor e com perspectiva. Às vezes, eles entram, saem, se conectam, como se você tivesse várias paisagens. A proposta é também um convite à cor, de uma forma lúdica, e a esse movimento”, explicou.

BH vista de cima

Depois de percorrer a história e os espaços do conjunto, a visita termina no alto do JK, com uma vista panorâmica de Belo Horizonte — que dá sentido ao nome da cidade.  De lá, também é possível avistar várias das empenas já pintadas pelo CURA.

“O CURA é muito além de um festival, não é só um evento. Ele entrega um legado enorme para a cidade e coloca BH no circuito de arte pública do Brasil. Hoje, temos 35 prédios pintados. O que queremos entregar agora é esse mirante circular da Praça Raul Soares, reforçando a ideia de que a praça volte a ser um espaço habitável, que as pessoas possam frequentar e onde possam ver arte. São poucas as praças no mundo que têm 16 obras no entorno. Isso é BH”, afirmou uma das organizadoras do CURA, Priscilla Amorim.

A princípio, as visitas guiadas acontecem apenas durante a programação do CURA, entre os dias 27 e 30 de agosto, mas a ideia do Viva JK é dar continuidade ao projeto. Quem quiser acompanhar as próximas oportunidades pode ficar de olho no Instagram do Viva JK, onde serão divulgadas novidades sobre o passeio.

Vista do mirante Edifício JK, em BH
Vista do mirante Edifício JK, em BH

Quem está no comando do JK

A abertura do JK ao público ocorre em um momento de mudanças na gestão do conjunto. O edifício ganhou projeção nacional neste ano com o podcast “A Síndica”, do jornalista Chico Felitti, que recupera a trajetória de Maria Lima das Graças, que comandou o condomínio por 42 anos. A gestão foi marcada por controvérsias, disputas com moradores e regras rígidas. Maria das Graças morreu em março deste ano, aos 78 anos.

Atualmente, o condomínio é administrado por Manoel Gonçalves de Freitas Neto, antigo gerente do JK, que ocupa o cargo de síndico.  Como mostrou o Metrópoles em maio,  moradores relatam mudanças na rotina e a retomada de áreas de convivência que antes tinham o uso restrito.

Serviço

Visita guiada ao Edifício JK
Quando: 27, 28, 29 e 30 de agosto
Horário: 16h30
Entrada: gratuita
Senhas: distribuídas por ordem de chegada, 30 minutos antes de cada sessão